Já disse isso antes: sou um eterno aprendiz de desenhista. Por isso mesmo, frequento esporadicamente (há mais de um ano que não entro lá) uma comunidade excepcional de desenhistas muito melhores e mais generosos do que eu. Quando a telenovela da Record Os Mutantes – Caminhos do Coração foi anunciada, um dos primeiros a ridicularizar a iniciativa fui eu – afinal, era uma telenovela. Um membro do fórum respondeu que minha atitude estava equivocada, porque eu desprezava totalmente as possibilidades de crescimento do mercado para ilustradores, técnicos em computação gráfica, artistas conceituais e afins que uma iniciativa pop como aquela poderia proporcionar.
Quer saber? Ele tinha toda a razão.
Em meu desprezo pela telenovela, deixei de perceber o óbvio: muito ilustrador e desenhista reclama do mercado restrito para profissionais da área no Brasil e quando surge uma oportunidade, despreza a iniciativa. Dito isso, reconheço que admiro os profissionais que fazem as telenovelas, nem tanto pelo resultado final, mas pelo monumental trabalho envolvido. No caso específico da tal novela dos mutantes, li um artigo tempos atrás sobre a loucura que era – ou é, sei lá se a produção ainda existe – para a equipe de efeitos visuais criar em poucos dias o que levaria semanas ou meses para ser entregue a um filme de Hollywood. Sinceramente, com restrições tão sérias de tempo, o que estes caras fazem não é menos do que milagre – mesmo que a qualidade final não rivalize com o cinemão, e seria absurdo pedir isso, talvez esteja próximo do nível das produções de fantasia do Hallmark Channel.
Também é verdade que escrever uma telenovela não é nada fácil. Não bastasse ter de cuidar ao mesmo tempo de dezenas de personagens e tramas paralelas, ainda há a obrigação de agradar a milhões de espectadores que desejam se empanturrar das mesmas histórias e dramas por meses, anos a fio. Mesmo com uma equipe especializada que auxilia os autores mais cobiçados do mercado da teledramaturgia, é complicado gerenciar uma história que se pulveriza em várias mãos. Sinceramente, é um trabalho que não gostaria de ter.
Até porque minha opinião sobre as telenovelas não muda, apesar do reconhecimento do trabalho dos profissionais envolvidos. Continuo achando as tramas rasas, os personagens mais estúpidos do que o mais lerdo dos seres humanos e as polêmicas cirurgicamente calculadas, maçantes. Sim, já assisti a novelas, eu admito, embora a última completa tenha sido Renascer, se não me engano; ou seja, desde o fim da adolescência perdi o interesse por este tipo de produção. E admito também que gosto pelo menos de um diretor, Luiz Fernando de Carvalho, que não é o mais bem cotado exatamente porque foge da linguagem televisiva e se aproxima bastante da cinematográfica. Seu último bom trabalho na TV foi a primeira fase de Hoje É Dia De Maria – não gostei da segunda, nem de Capitu. Além de ter dirigido a angustiante adaptação de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para a telona.
Quanto aos autores, é possível identificar as obsessões e estilo de cada um (bastam alguns capítulos para isso), mas confesso que não conseguem despertar o menor interesse em mim. Nossos atores são, em boa parte, muito bons e sabem suportar o peso de interpretar o mesmo personagem por meses e dar-lhes uma dimensão admirável. Sobre os profissionais, já expressei minha admiração.
Minha relaçao com a telenovela é parecida com a que tenho com a música. Não adianta nada alguém me dizer que, sei lá, a Sandy tem uma boa voz se as letras das músicas que ela canta são pavorosas. De nada adianta todo o trabalho que técnicos, atores, diretores e autores têm para levar uma telenovela ao ar se o texto não consegue fugir das mesmas tramas, situações e cacoetes de vinte anos atrás. Hoje em dia, se alguém começa a assitir a um capítulo de telenovela perto de mim, durmo, leio um livro ou vou para a internet. E acabo escrevendo um post como este.


