Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi - Parte 2

Sábado, 19 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Agora, para os anos de 1985 a 1994. A lista muda um pouco.

1985: Ran

Kurosawa pega Rei Lear, torce, retorce, dá um jeito de tacar a história no Japão feudal e, milagrosamente, faz tudo funcionar. Épico de verdade, duro, belíssimo, trágico, se eu não me engano é o filme favorito de Spielberg. Akira Kurosawa era mais famoso no ocidente do que em sua terra, por seu estilo ser considerado “ocidental demais” - seus últimos filmes, incluindo o magnífico Sonhos, só ganharam as telas graças ao dinheiro de cineastas-fãs como George Lucas, o já citado Steve e Scorcese.

1986: A Missão

Muito provavelmente A Missão tornou-se um filme datado, ou melhor dizendo, o tipo de produção que fez enorme sucesso em sua época de lançamento e acaba esquecido anos depois. Pode ser, mas para mim a força deste relato do embate entre portugueses, espanhóis, jesuítas e índios em Sete Quedas das Missões continua viva, reforçada, claro, pela trilha sonora de Ennio Morricone. Dirigido por Roland Joffé, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes por este trabalho.

1987: Os Vivos e os Mortos

Mais uma adaptação literária, desta vez de James Joyce - a transposição do conto Os Mortos, do livro Dublinenses, é o último trabalho de John Huston, que o dirigiu já em cadeira de rodas. Melancólica visão do tempo que não pode mais ser recuperado, é uma obra-prima em cada cena; tão belo quanto triste e delicado.

1988: Ligações Perigosas

Milos Forman convoca um elenco de primeira - Michelle Pfeiffer, John Malkovich, Glenn Close e Uma Thurman - para encenar uma história irônica, cruel e arrebatadora que, nas mãos erradas, poderia se transformar num novelão bem fotografado. Felizmente, Forman entende o que se esconde por trás da aparente superficialidade dos personagens e transforma um joguinho de sedução num recorte tenso e pouco lisonjeio da humanidade. Há outras duas versões contemporâneas: Valmont, que é digno, e uma medonha adaptação teen cujo nome eu sempre me esqueço, graças a Deus.

1989: Cinema Paradiso

Assim como o leitor apaixonado se identifica com o personagem que devota seu intelecto à literatura, cinéfilos geralmente apreciam filmes que falam de… cinema. Mas poucos chegam a sensibilidade de Cinema Paradiso, do italiano Giuseppe Tornattore, que fala de um tipo de cinema e de relação do público com este mundo que, se não está absolutamente extinto, desaparecerá por completo em muito pouco tempo. A sequência final, em que Toto, já adulto, vê as cenas românticas cortadas dos rolos de filme pelo padre de sua infãncia é a mais simples, eficiente e emocionante homenagem que a grande tela já recebeu por si mesma - e eu confesso ter chorado da primeira vez que a vi. Ao som do lírico Morricone.

1990: Ajuste Final

Gosto dos irmãos Cohen e ainda que seu melhor filme ainda seja Barton Fink, Ajuste Final é um espetáculo cinematográfico puro em sua crueldade, na frieza de sua fotografia e no abismo moral em que trafegam seus personagens. Gabriel Byrne está perfeito, como nunca mais estaria em filme algum - exceto, talvez, em Os Suspeitos.

1991: A Dupla Vida de Veronique e O Silêncio dos Inocentes

Eu prometi a mim mesmo que não faria isso: permitir um empate, mas 1991 soterrou este juramento com duas obras opostas e magníficas. A Dupla Vida de Veronique é a obra-prima definitiva do polonês Kielowski, em que o roteiro pouco importa; sabemos que Weronika e Véronique são duplos e que a sobrevivência de uma depende da anulação da outra, pouco mais do que isso. A cena do teatro de bonecos merece lugar de destaque na história do cinema. No outro extermo, Jonathan Demme também assina sua melhor produção: O Silêncio dos Inocentes, o filme que coroaria um gênero tipicamente norte-americano, a caçada ao serial killer. Com um roteiro inteligentíssimo e repleto de significados, O Silêncio nos legou Hannibal Lecter, a mais aterradora representação do poder sedutor do mal. Mas não se engane com as continuações e prequels.

1992: O Jogador

Àquele ano, a visão de Robert Altman dos bastidores de Hollywood foi aclamada como irônica, ácida, cáustica, este tipo de adjetivo bastante comum nos segundos cadernos. Vê-la agora permite perceber que não passava de uma imensa e hilária piada que o veterano diretor contava aos seus fãs - uma piada particularmente inteligente, claro.

1993: A Lista de Schindler

Eu sei, você sente cheiro de obviedade no ar. Fazer o quê? A saga de Schindler me impressionou bastante. Destaco uma das sequências mais tensas: o oficial nazista tenta matar um operário judeu e quando sua arma falha uma, duas, três vezes é como se aquele homem morresse a cada tentativa. Assim como O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler tem força própria suficiente para escapar da armadilha didática que o diretor armou para sua própria produção.

1994: Ed Wood

Ed Wood foi o pior diretor do mundo - pelo menos, até o infame Uwe Boll -, criador de pérolas trash como Glen ou Glenda e Plano Nove do Espaço Sideral, apontado quase sempre como o mais pavoroso filme já realizado pela espécie humana. Mas Wood amava o cinema e nem fazia idéia de suas limitações, ultrapassadas sempre por um entusiasmo quase tão grande quanto sua cara-de-pau - chegou a convencer uma igreja batista a financiar suas histórias de terror! Tim Burton repete sua parceria habitual com Johnny Depp e refaz o período mais fértil da vida de Ed Wood em um preto e branco espetacular. O ponto alto vai para o encontro fictício de Wood com Orson Welles, quando ambos relatam os mesmos problemas e maravilhas do desafio de se fazer filmes.

Algumas observações sobre Tonio Kröger, de Thomas Mann

Quinta-feira, 17 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Quando li Tonio Kröger, o fiz naquela edição de 2000 da Nova Fronteira que trazia também Morte em Veneza (tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva). Para meu azar, o fato de ter lido, em primeiro lugar, a saga decadente de Aschenbach na terra dos canais acabou ofuscando o relato de Kröger. Felizmente, por indicação de uma amiga e depois de longos anos, reli Tonio Kröger duas vezes e fui surpreendido por uma bela e pertinente discussão sobre o artista e a arte. De repente, por mais estranho que seja cronologicamente (Morte é de 1912 e Tonio de 1903), sua união neste volume faz algum sentido.

O livro (uma novela, bem curta) narra o amadurecimento intelectual do personagem-título, filho de família tradicional que termina como escritor consagrado. São marcos afetivos de sua trajetória as paixões adolescentes por Hans Hanssen, um colega de escola, e pela linda Inge Holm, atrações depois substituídas pela amizade com a pintora Lisaweta Iwanova. Mann não perde tempo com descrições e histórias sobre Kröger; em poucas linhas, sabemos de suas origens e andanças pelo mundo, sempre incapaz de se adaptar integralmente a qualquer uma das duas situações. O ponto alto do livro é seu diálogo com Lisaweta, quando ele expõe suas idéias a respeito da srte e dos artistas:

“[...]porque quem acredita que um criador tem o direito de sentir é um ignorante.[...] Se você dá muito valor ao que tem a dizer, se seu coração bate demasiado forte por seu assunto, você pode contar com um fiasco completo. Você se torna patético, sentimental, sob suas mãos surge algo pesado, de uma seriedade canhestra, sem controle, sem ironia, insípido, tedioso, banal [...]“

“É necessário deixar de algum modo de fazer parte da humanidade, ser algo inumano, assumir uma posição estranhamente distante e imparcial em relação ao humano, para que se tenha condições e, acima de tudo, vontade de representá-lo, de jogar com ele, configurá-lo com bom gosto e impacto.[...]A partir do momento em que se torna homem e começa a sentir, o artista está acabado.”

“Não se deve deixar abater pela tristeza do mundo; observar, notar, aproveitar mesmo aquilo que mais nos tortura e manter de resto o bom humor, tendo plena consciência de sua superioridade moral sobre essa invenção atroz que é a existência, sim, certamente! Mas às vezes tudo isso, a despeito de todo o prazer da expressão, chega a sufocá-lo. Há algo que chamo de náusea do conhecimento, Lisaweta. Um estado em que basta ao homem ver algo com clareza para sentir-se mortalmente repugnado (e sem nenhuma disposição para perdoar), o caso de Hamlet, o dinamarquês, esse literato típico. Ele sabia o que significava ser levado ao conhecimento sem ter nascido para isso. Ver claro, aidna que através doi véu de lágrimas do sentimento, reconhecer, notar, observar e ter de deixar de lado com um sorriso aquilo que se observou ainda no momento em que as mãos se estreitam, os lábios se unem, o olhar se extingue cego pelo sentimento… Isso é infame, Lisaweta, é vil, é revoltante… Mas de que adianta se revoltar?”

“[...]nunca, jamais, vou entender que se possa venerar como ideal o extraordinário, o demoníaco. Não, eu me refiro à ‘vida’ como o eterno oposto do espírito e da arte; não é como uma visão de sangrenta grandiosidade e beleza selvagem, não é como algo incomum que a vida se apresenta a nós, seres incomuns; ao contrário, o normal, o decente, o afável é que constituem o reino para para onde se volta nossa nostalgia: a vida em sua sedutora banalidade! Está muito longe de ser um artista, minha cara, aquele cuja paixão suprema e mais profunda é o refinado, o excêntrico, o satânico, aquele que desconhece o anseio nostálgico da inocência, da simplicidade, da vida e de um pouco de amizade, dedicação, confiança e felicidade humana”

Este longo capítulo termina com a avaliação certeira e cruel que Lisaweta faz de Kröger

” - [...]você, tal, como se encontra aí, sentado à minha frente, é simplesmente um burguês.”

Revelação esta que Kroger secretamente ansiava e já conhecia. Dali, viajará a sua terra natal, onde a casa de sua família tornou-se uma biblioteca, no baile verá seus antigos amores, Hans e Inge, juntos. Não se revelará, nem participará da festa:

“O escuro e o silêncio o rodeavam. Mas de lá debaixo chegava até ele, abafado e embalador, o doce e trivial compasso ternário da vida.”

O capítulo final é a carta que ele escreve endereçada à amiga Lisaweta, em que confirma a contradição pessoal que paradoxalmente faz dele um artista, e isto o consola e atormenta. Ao final, fala dos mundos que surgem de sua imaginação e da simplicidade do real:

“Mergulho meu olhar num mundo ainda por nascer, apenas um esboço que precisa ser ordenado e configurado, vejo um enxame de sombras humanas que acenam para mim para que eu as exorcize e liberte: figuras trágicas e figuras ridículas, e outras que são as duas coisas aos mesmo tempo - e por estas tenho especial afeição. Mas meu amor mais profundo e oculto pertence a esses seres de vida límpida, aos felizes amáveis e comuns.”

E, ao final, conclui:

“Não condene este amor, Lisaweta; ele é bom e fecundo. Traz em si desejo, inveja melancólica e um leve toque de desprezo e uma felicidade casta, absoluta.”

O Outro lado

Quarta-feira, 16 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Se o projeto do senador Eduardo Azeredo pode significar um retrocesso na internet brasileira, é por meio desta mesma internet que absurdos são descobertos e exibidos por pessoas comuns, como eu e você.

Não vou descrever o caso, porque o Cardoso escreveu sobre ele de forma muito melhor do eu que faria.

Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi - Parte 1

Quarta-feira, 16 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Como eu sou preguiçoso, vi esta idéia no Discreto Blog da Burguesia e copiei, sem dó: Listar os melhores filmes de cada ano em que vivi, com um pequeno comentário a respeito. Quando isto se transformar em meme, certamente teremos blogueiros velhos de guerra começando suas listas em 1986, 87, quando o certo seria recuarem um pouquinho mais no tempo.

Enfim, como eu não sofro destes pudores, os meus quatro leitores descobrirão que tenho (quase) 33 anos ao lerem que a minha lista começa em:

1975 - Um Estranho no Ninho

Milos Forman se une a Jack Nicholson e faz um filme perturbador, belíssimo e duro. Jamais consegui esquecer aquele final. E sempre me lembrarei da frase “meu pai era do tamanho de uma montanha”.

1976 - Taxi Driver

Foi o ano de Star Wars, mas escolho o banho de sangue de Martin Scorcese por duas razões. A mais óbvia, é que o debut da dobradinha do diretor com Robert DeNiro é mesmo superior; além disso, O Império Contra-Ataca continua sendo o melhor filme de Lucas e cia. Scorcese mergulha na loucura urbana e nos leva junto; é um passeio ao inferno, com a garantia de retorno - mas não sem algumas escoriações. DeNiro está perfeito; se eu fosse adulto e o encontrasse andando pela rua em 1976, trocaria de calçada.

1977 - Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Spielberg acreditava (ou acredita, sei lá) mesmo em extra-terrestres e na possibilidade de comunicação com eles. Seja como for, sua paixão pelo tema contamina o filme de tal modo que embarcamos felizes em sua fantasia absurda, um tanto imatura e poética.

1978 - Cinzas no Paraíso

Segundo filme de Terrence Mallick, acabei descobrindo-o pouco tempo atrás. É triste, muito triste e belo, como quase todos os roteiros de Mallick.

1979 - The Castle of Cagliostro

Hein? Hein? Cadê Apocalypse Now? Pois é. Eu sou fã do coração das trevas de Coppola, mas resolvi eleger The Castle of Cagliostro, nome em inglês para o desenho animado japonês do mestre Hayao Miyazaki que adapta as aventuras do ladrão Lupin III (não confundir com Arsene Lupin) para o cinema. Há um delicioso clima anos 70 no desenho, uma leveza fanfarrã irresistível num roteiro rocambolesco de traições e lealdades frágeis. Lupin III seria inspiração para o Spike Spiegel, do fenomenal Cowboy Bebop.

1980 - O Império Contra-Ataca

George Lucas dirigiu poucos filmes, apesar de sua fama. O Império Contra-Ataca coube a Irvin Kershner (O Homem Chamado Cavalo), mas, incrivelmente, seus maiores méritos se encontram no roteiro. Segundo ato de uma ópera de ficção científica, tudo dá errado aqui: Han Solo brinca de estátua e Luke descobre ser filho do Homem Deformado da Capa Preta. Nem consigo imaginar o que as platéias daquele ano sentiram ao ver isso. A batalha na lua gelada de Hoth é, até hoje, uma das melhores sequências de batalha do cinema - eu falo sério.

1981 - Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida

Lucas e Spielberg se unem e nos oferecem a aventura perfeita. Harrison Ford dá vida ao arquétipo do aventureiro-galã-cientista das sessões matinê de décadas passadas. É talvez o auge de um tipo de cinema-pipoca legítimo, bacana e sem pudor algum que teria na dupla (e nas trilhas sonoras de John Williams) sua maior expressão. Inesquecível.

1982 - Blade Runner

Sim, eu sei, é ano de Fitzcarralado, de Herzog, e Fanny e Alexander, de Bergman (que ainda não vi; preciso corrigir isso). O problema é que Blade Runner e sua atmosfera deprimente de futuro seriam influentes demais nas próximas décadas para ser desprezado. Visto hoje, o roteiro é evidentemente problemático, mas a fotografia, os efeitos visuais embasbacantes de Roger Kimball e, claro, Rutger Hauer, garantem seu lugar entre meus favoritos.

1983 - Monty Python e o Sentido da Vida

Ano fraco, apesar de Jogos de Guerra - por culpa dele, hoje sou profissional de TI. Mas fico com o último filme do grupo Monty Python, O Sentido da Vida. Irregular, não chega a provocar as convulsões intestinais de tanto rir que Em Busca do Cálice Sagrado (provavelmente o filme mais engraçado da história) me proporcionou, mas ainda é muito bom.

1984 - Amadeus

Milos Forman de novo: Amadeus é um clássico, mais lembrado pelas estravagâncias de Mozart e pelo Salieri de F. Murray Abraham - preciso, quase doentio, perplexo, magnífico. Como o próprio filme.

A parte dois cobrirá os anos de 1985 a 1994 e a três de 1994 a 2007. Como brincar sozinho não tem graça, vou convidar o léo para entrar nessa também.

Tentação autoritária (de novo…)

Domingo, 13 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Apesar do título deste post, não concordo totalmente com a expressão “tentação autoritária”. Tendo a acreditar que tentação é algo que ocorre a indivíduos direitos ou que se esforçam para sê-los e que acabam sucumbindo a um estímulo que os desafia a manter-se na linha. Dizer isso é como afirmar que o rumo natural do estado fosse servir à sociedade e, por algum motivo, acaba se desviando rumo a tentativas de dirigi-la. Todo estado, em maior ou menor grau, tende a querer controlar o indivíduo, e se isso não acontece com tanta frequência ou, melhor dizendo, se não chega ao estágio do totalitarismo com tanta frequência, deve-se a solidez de instituições democráticas às quais a maioria não dá a mínima. De qualquer forma, não consigo pensar em termo melhor.

O projeto de lei apresentado pelo senador Eduardo Azeredo e aprovado pelo Senado é parte desta tentação. Não basta apenas sua redação desastrada que transforma a todos em criminosos pelos atos mais simples de navegação na internet (acessar um site, qualquer um); ela ainda cria um estado policial terceirizado, na figura dos provedores de acesso. Explico-me: digamos que uma empresa sabe (imaginamos que eles souberam disso de forma lícita também, claro) que você está copiando arquivos protegidos por direitos autorais. Ao invés do fluxo, digamos, normal de qualquer estado democrático, em que a justiça seria acionada, o provedor poderia ser intimado a fornecer os logs de acesso da sua conta e você, processado, o projeto obriga o provedor a comunicar a Justiça sigilosamente qualquer abuso denunciado ao próprio provedor. Somos imediatamente todos suspeitos de crimes e, de certa forma, considerados culpados até prova em contrário. Sempre haverá aqueles que dirão que o projeto visa a combater a pedofilia, por exemplo. Mas já há uma legislação específica que trata do tema. E quem acompanha notícias sobre tecnologia sabe que o Brasil constantemente integra ações internacionais bem-sucedidas de combate a esta prática abjeta.

Lembre-se também de que, pouco tempo atrás, o TSE praticamente inviabilizou o uso da internet para cobertura jornalística de campanhas eleitorais. A redação é bizantina, cria uma situação em que a Folha de São Paulo pode publicar uma matéria de opinião na versão impressa do jornal, mas está impedida de publicar o mesmo conteúdo na internet. Isso acontece porque os juízes entenderam que a internet é uma concessão estatal, como o rádio e a televisão, que são proibidos de emitir juízos sobre candidatos, ao contrário de jornais e revistas, que são empresas privadas. A consequência óbvia desta interpretação é que apoio (ou rejeição) pessoal a candidatos por meio de blogs, Orkut, páginas, etc. estão proibidas. Se Barack Obama e John McCain fossem obrigados a viver num país com uma legislação dessas, estariam perdidos. Seus eleitores também, já que a internet tem um papel crucial das eleições norte-americanas.

Podemos creditar estes descalabros, em parte, a absoluta falta de conhecimento que nossos legisladores e juristas possuem de como a internet funciona e de seu papel cultural - que não pode mais ser revogado, goste-se dela ou não. A outra parte, infelizmente, parece-me desejo de controle, de tentar me proteger de mim mesmo.

Topifaive Lado B do cinema dos anos 80

Sábado, 12 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Não, não é necessariamente uma lista de filmes B; são os filmes pop menos conhecidos atualmente e que, por uma razão ou outra, estão entre os meus preferidos nos longínquos anos 80. Apresentando muito neon, fotografia azulada, cabelos armados e pancadaria, eis os meus cinco filmes sem noção favoritos e menos lembrados dos anos 80. A exceção do último da lista, que é ruim e divertido, os demais são realmente bons.

1) Ruas de Fogo, 1984, Walter Hill

Walter Hill é o último machão do cinema, título que poderia ser de John Millius também, mas este não filma há um bom tempo. Seus filmes são diretos, sem firulas, secos e bem construídos - um dia ainda vão reconhecer o seu O Último Matador, claustrofóbico conto baseado em Kurosawa. Em 1984, Hill resolveu filmar uma “fábula de rock and roll”, seja lá o que ele achava que isso significa, porque no final das contas, Ruas de Fogo é o filme mais história em quadrinhos da história do cinema.

2) Enigma do Outro Mundo, 1982, John Carpenter

Refilmagem com esteróides de O Monstro do Ártico, de 1951, esta nova versão situa sua trama na Antártida e amplia a sensação de isolamento ao limite do suportável, criando uma atmosfera de suspense exemplar que dura por todo o filme. Também eleva os efeitos especiais ao mesmo limite: o monstrengo, ao contrário do seu primo mais famoso (falo do Alien, para quem não entendeu), não tem forma definida, e irrompe de dentro dos corpos infectados com fúria, espalhando tripas e sujeira para todo lado. Destaque para duas seqüências: a cabeça-decapitada-aranha-com-antenas, tão nojenta que é genial, e o teste do sangue que, acredite se quiser, ainda conseguiu me assustar 25 anos depois.

3) Warriors - Os Selvagens da Noite, 1979, Walter Hill (de novo?)

Sim, eu sei, o filme é de 1979, mas pertence miticamente aos anos 80 - ao menos para mim. Walter Hill narra a longa jornada noite adentro de uma gangue nova-iorquina acusada de assassinar um líder piradinho que desejava unificar os meliantes da cidade - Frank Miller citaria esta cena na HQ O Cavaleiro das Trevas, de 1984? Tentando chegar ao seu território, os membros da gangue enfrentam todo tipo de grupo, de mulheres assassinas a patinadores que parecem discípulos do Alex de Laranja Mecânica. Destaque para a dublagem em português; quem assistiu na TV jamais esquecerá o cidadão que grita com voz aguda e irritante: “Guerreiroossssssssssssss…”.

4) Fuga de Nova York, 1981, John Carpenter (não pergunta “de novo?” outra vez)

Stallone Cobra (a propósito: péssimo filme) não duraria dez minutos num mano-a-mano contra Snake, mercenário casca-grossa contratado para resgatar o presidente norte-americano, um zé ruela cujo avião caiu no meio de uma Nova York do futuro transformada em cadeia e habitada por assassinos, estripadores e estupradores da melhor qualidade. Clichês madmaxianos para todo lado, ação descerebrada, frases de efeito e um tapa-olho estiloso formam a combinação perfeita para o filme que definiu, junto a Duro de Matar, o estilo dos filmes de ação das duas décadas seguintes. Snake seria satirizado 25 anos depois no mórbido e hilário desenho animado Billy & Mandy .

5) O Último Dragão, 1985, Michael Schultz

Este é um clássico da Sessão da Tarde e já foi citado aqui. Ruim até a medula, o filme narra as aventuras de Leroy, um pacato afro-americano admirador de Bruce Lee tentando defender sua namorada e seu bairro de vilões que parecem ter fugido do elenco de figurantes de Super Xuxa Contra o Baixo Astral. Pouca gente sabe, mas o filme deveria servir de vitrine para artistas da Motown - não é por menos que a trilha sonora inclui Upset Stomach , de Stevie Wonder. A frase “Quem é o mestre, Leroy?” é a referência definitiva para tudo que houve de ridículo e paradoxalmente bacana nos últimos 30 anos.

Errei de novo…

Terça-feira, 8 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Sobre o post Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman, queria fazer algumas considerações:

1) Alterei o primeiro parágrafo, que cometia certa injustiça tanto com Gaiman quanto com Stephen King. Quem recebeu o post por e-mail vai perceber certa diferença.

2) Esqueci-me completamente do link para o blog do escritor, que agora está lá e aqui também.

Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman

Terça-feira, 8 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

O inglês Neil Gaiman não é um escritor conhecido apenas por seus livros; embora isso já tenha sido observado antes, vale a pena dizer que ele representa um tipo de autor que não tem medo de se arriscar em diversas mídias, mesmo que os resultados sejam irregulares. Mantém um blog atualizado constantemente, escreve histórias em quadrinhos (Sandman), roteiros de filmes (Beowulf) e livros (Stardust, Deuses Americanos, Os Caçadores de Sonhos), tendo se tornado um autor admirado em vários países. Curiosamente, é bem popular no Brasil, onde Sandman foi traduzido antes de qualquer outro lugar. Sua passagem pelo Flip 2008 gerou uma fila de autógrafos com mais de 600 pessoas, a maioria esmagadora bem jovem.

Os Filhos de Anansi é um de seus últimos livros, publicado aqui pela editora Conrad. Segue a idéia básica do universo mitológico criado por Gaiman e que aparece também em Deuses Americanos: a de que os deuses quase esquecidos e/ou não mais cultuados passam a viver entre os homens. Neste caso, Anansi, o deus-Aranha africano, que roubou todas as histórias do Tigre; por isso, as histórias interessantes do mundo falam sobre inteligência e humor e não sobre força e violência, qualidades do rancoroso deus-felino. Charles Nancy, ou melhor, Fat Charlie, não sabe que seu pai recém-falecido,Sr. Nancy, é este deus-aranha e que possui um irmão em tudo contrário a si mesmo. Charlie é um zero à esquerda, que deixa a vida levá-lo a reboque, com uma bela (e virgem) noiva, além de um chefe corrupto e uma futura sogra capaz de reclamar do fato de a Terra girar ao redor do Sol. Seu até então desconhecido irmão, Spider, parece ter herdado todas as características do pai, o que deixa Charlie louco, uma vez que ele atribui a pasmaceira de sua vida às constantes bricadeiras às quais ele era submetido pelo Sr. Nancy em sua infância. O que ele não poderia prever é que Spider transformaria sua vida pacata e ridícula numa sequência de acontecimentos bizarros, em que o mundano e o mítico se misturam o tempo todo.

Exibindo um domínio extraordinário da arte de criar personagens plausíveis, Gaiman deixa a solenidade e a seriedade de obras anteriores de lado e investe num texto leve, rápido, mas nem por isso menos preciso, afiado, com clara supremacia dos (ótimos) diálogos sobre as descrições. É um livro que se lê com um sorriso no canto dos lábios, de vez em quando torcendo para que Charlie seja menos azarado ou mané. Prova de que literatura de entretenimento não precisa nem deveria ser burra, Os Filhos de Anansi surpreende pelo absurdo das situações e pelo modo como elas vão se complicando ao longo da narrativa, gerando mudanças cruciais nos personagens. Se há algo que quase atrapalha a saga do Sr. Nancy e seus filhos é a sensação de que estamos lendo um futuro roteiro de cinema (de fato, Gaiman está trabalhando nisso neste momento) em que tudo está devidamente amarrado e será resolvido em sua conclusão. Não é exatamente um defeito nem diminui a graça do livro, mas diminui a propensão que o leitor possuía a ser surpreendido e que fora alimentada pelo desenrolar da trama.

Mesmo assim, será óbvio para o leitor mais atento, ao final da leitura, que ele acaba de ter contato com uma história ao estilo do deus-aranha - eis uma das sacadas mais inteligentes de Neil Gaiman. O livro muda de estilo ao longo da narrativa, começa modorrento como a vida de Charlie e vai se intensificando conforme Spider introduz esquisitices em seu dia-a-dia. As situações inacreditáveis, o caos crescente, a leveza, alguma dose de ironia, bastante humor e uma disposição fanfarrã (existe isso?) em enfrentar grandes perigos com um sorriso no rosto fazem de Os Filhos de Anansi o tipo de história que o próprio Anansi contaria com prazer.

“Estou cercado de idiotas!”, grita o vilão

Domingo, 6 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Esta é a fala clichê número um de todo malvadão de filme ou desenho animado cujos ajudantes são bestas quadradas - de Dick Vigarista ao Dr. Evil, todos foram inevitavelmente assessorados pela mais vasta galeria de incompetentes da história da cultura pop. Estivessem estes sujeitos inscritos no Aprendiz, o programa de TV preferido do Max Gehringer, o reality show não duraria um dia sequer. Infelizmente, por vezes, tenho a mesma sensação do vilão do título ao ler certas notícias. E veja que não sou nenhum gênio do mal. Aliás, gênio de coisa alguma.

O jornal USA Today (de novo, o link é só para assinantes UOL) publicou uma matéria sobre as novas caras da infidelidade conjugal em tempos de internet e televisão. Que tem muito “Jonas, 26 anos, sarado, solteiro, engenheiro” em salas de bate-papo e sites de relacionamento que na verdade não passa de “Tião Dedão, 56 anos, barriga grande e peluda, casado, 4 filhos, 1 neto, auxiliar de escritório em repartição esquecida por Deus e pelo estado”, todos nós já sabemos. O que chama a atenção, na matéria citada, é que muitos se dizem influenciados pelo estilo de vida das celebridades exibido na televisão. É como se toda essa gente não se contentasse mais em folhear a Caras no consultório do dentidas, mas admitisse, de uma hora para outra, ter a vida pautada pelo canal E! Entertainment Television. Só um detalhe: não são crianças ou adolescentes que afirmam isso; são adultos, casados e com filhos, supostamente maduros.

Não me interessa nem um pouco enveredar por uma discussão sobre a moralidade do adultério aqui, o que me surpreende é que pessoas adultas dizem que são mais influenciadas por ficções e noticiários estúpidos sobre famosos do que por seus próprios valores e seus próprios cérebros. Há algo de muito errado acontecendo quando adultos esperam que “o exemplo venha de cima”, ao citar a contuda deplorável de políticos e afins como desculpa para seus pequenos atos de falta de ética cotidiana - uma doença tipicamente brasileira. Talvez a lógica seja inversa: basta parar de considerá-los seres maduros, o que faz bastante sentido hoje em dia, e o argumento da desculpa esfarrapada começa a parecer interessante. Se considerarmos que valores fortes e bem formados, resultado de anos de experiência pessoal, não são algo que se espera encontrar num adolescente ou num adultescente, fazer uso dos valores da cultura de massa como caminho para a suposta aceitação social é um ato banal, mas não menos estúpido. Da mesma forma, falar do político que desvia milhões de reais para sua empreiteira ao justificar a merreca paga ao guarda da esquina pode parecer perfeitamente válido para muitos, mas não deixa de ser canalhice. E nem menciono o fato de que é a típica atitude mesquinha que corrobora para o contínuo pesadelo diário que é o Brasil.

Se alguém acredita piamente que traiu sua mulher com a secretária graças a influência das notícias sobre Brad Pitt deixando Jeniffer Aniston para ficar com Angelina Jolie, ou acha que é correto conseguir uma sinecura com a ajudinha daquele amigo do cunhado da irmã do pai do sobrinho do vereador recém-empossado porque em Brasília roubam-se milhões, o diagnóstico é um só: o cidadão analisado só pode ser um idiota. Por isso, gritemos todos juntos, “Estou cercado de idiotas!”. E de canalhas também.

Mea Culpa

Domingo, 6 Julho, 2008 by Marcelo Lopes

Desde que decidi hospedar meus blogs no serviço gratuito WordPress, vejo que ele possui uma ferramenta de bloqueio a spams (a grosso modo, propaganda não-autorizada, mas não apenas isso) nos comentários, produzida pela empresa Akismet. É de se esperar que uma ferramenta desta categoria cometa alguns erros e acabe barrando comentários legítimos. Logo, também é de se esperar que o dono do blog de vez em quando dê uma olhadinha nos comentários barrados e libere os que tenham sido gentilmente postos para fora do blog pela ferramenta. E (vocês já devem esperar por mais um “é de se esperar”) é claro (só para contrariar) que eu não faço isso há umas boas semanas.

Peço desculpas a quem comentou e não foi publicado e muito menos respondido. Estou corrigindo isso.