Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi - Parte 2
Sábado, 19 Julho, 2008 by Marcelo LopesAgora, para os anos de 1985 a 1994. A lista muda um pouco.
1985: Ran
Kurosawa pega Rei Lear, torce, retorce, dá um jeito de tacar a história no Japão feudal e, milagrosamente, faz tudo funcionar. Épico de verdade, duro, belíssimo, trágico, se eu não me engano é o filme favorito de Spielberg. Akira Kurosawa era mais famoso no ocidente do que em sua terra, por seu estilo ser considerado “ocidental demais” - seus últimos filmes, incluindo o magnífico Sonhos, só ganharam as telas graças ao dinheiro de cineastas-fãs como George Lucas, o já citado Steve e Scorcese.
1986: A Missão
Muito provavelmente A Missão tornou-se um filme datado, ou melhor dizendo, o tipo de produção que fez enorme sucesso em sua época de lançamento e acaba esquecido anos depois. Pode ser, mas para mim a força deste relato do embate entre portugueses, espanhóis, jesuítas e índios em Sete Quedas das Missões continua viva, reforçada, claro, pela trilha sonora de Ennio Morricone. Dirigido por Roland Joffé, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes por este trabalho.
1987: Os Vivos e os Mortos
Mais uma adaptação literária, desta vez de James Joyce - a transposição do conto Os Mortos, do livro Dublinenses, é o último trabalho de John Huston, que o dirigiu já em cadeira de rodas. Melancólica visão do tempo que não pode mais ser recuperado, é uma obra-prima em cada cena; tão belo quanto triste e delicado.
1988: Ligações Perigosas
Milos Forman convoca um elenco de primeira - Michelle Pfeiffer, John Malkovich, Glenn Close e Uma Thurman - para encenar uma história irônica, cruel e arrebatadora que, nas mãos erradas, poderia se transformar num novelão bem fotografado. Felizmente, Forman entende o que se esconde por trás da aparente superficialidade dos personagens e transforma um joguinho de sedução num recorte tenso e pouco lisonjeio da humanidade. Há outras duas versões contemporâneas: Valmont, que é digno, e uma medonha adaptação teen cujo nome eu sempre me esqueço, graças a Deus.
1989: Cinema Paradiso
Assim como o leitor apaixonado se identifica com o personagem que devota seu intelecto à literatura, cinéfilos geralmente apreciam filmes que falam de… cinema. Mas poucos chegam a sensibilidade de Cinema Paradiso, do italiano Giuseppe Tornattore, que fala de um tipo de cinema e de relação do público com este mundo que, se não está absolutamente extinto, desaparecerá por completo em muito pouco tempo. A sequência final, em que Toto, já adulto, vê as cenas românticas cortadas dos rolos de filme pelo padre de sua infãncia é a mais simples, eficiente e emocionante homenagem que a grande tela já recebeu por si mesma - e eu confesso ter chorado da primeira vez que a vi. Ao som do lírico Morricone.
1990: Ajuste Final
Gosto dos irmãos Cohen e ainda que seu melhor filme ainda seja Barton Fink, Ajuste Final é um espetáculo cinematográfico puro em sua crueldade, na frieza de sua fotografia e no abismo moral em que trafegam seus personagens. Gabriel Byrne está perfeito, como nunca mais estaria em filme algum - exceto, talvez, em Os Suspeitos.
1991: A Dupla Vida de Veronique e O Silêncio dos Inocentes
Eu prometi a mim mesmo que não faria isso: permitir um empate, mas 1991 soterrou este juramento com duas obras opostas e magníficas. A Dupla Vida de Veronique é a obra-prima definitiva do polonês Kielowski, em que o roteiro pouco importa; sabemos que Weronika e Véronique são duplos e que a sobrevivência de uma depende da anulação da outra, pouco mais do que isso. A cena do teatro de bonecos merece lugar de destaque na história do cinema. No outro extermo, Jonathan Demme também assina sua melhor produção: O Silêncio dos Inocentes, o filme que coroaria um gênero tipicamente norte-americano, a caçada ao serial killer. Com um roteiro inteligentíssimo e repleto de significados, O Silêncio nos legou Hannibal Lecter, a mais aterradora representação do poder sedutor do mal. Mas não se engane com as continuações e prequels.
1992: O Jogador
Àquele ano, a visão de Robert Altman dos bastidores de Hollywood foi aclamada como irônica, ácida, cáustica, este tipo de adjetivo bastante comum nos segundos cadernos. Vê-la agora permite perceber que não passava de uma imensa e hilária piada que o veterano diretor contava aos seus fãs - uma piada particularmente inteligente, claro.
1993: A Lista de Schindler
Eu sei, você sente cheiro de obviedade no ar. Fazer o quê? A saga de Schindler me impressionou bastante. Destaco uma das sequências mais tensas: o oficial nazista tenta matar um operário judeu e quando sua arma falha uma, duas, três vezes é como se aquele homem morresse a cada tentativa. Assim como O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler tem força própria suficiente para escapar da armadilha didática que o diretor armou para sua própria produção.
1994: Ed Wood
Ed Wood foi o pior diretor do mundo - pelo menos, até o infame Uwe Boll -, criador de pérolas trash como Glen ou Glenda e Plano Nove do Espaço Sideral, apontado quase sempre como o mais pavoroso filme já realizado pela espécie humana. Mas Wood amava o cinema e nem fazia idéia de suas limitações, ultrapassadas sempre por um entusiasmo quase tão grande quanto sua cara-de-pau - chegou a convencer uma igreja batista a financiar suas histórias de terror! Tim Burton repete sua parceria habitual com Johnny Depp e refaz o período mais fértil da vida de Ed Wood em um preto e branco espetacular. O ponto alto vai para o encontro fictício de Wood com Orson Welles, quando ambos relatam os mesmos problemas e maravilhas do desafio de se fazer filmes.


