À Procura da Felicidade

Não me importo nem um pouco com o rótulo “baseado em fatos reais”; sua existência, no cartaz ou capa de DVD, não determina minha escolha. Minto; tenho certa tendência a desprezar este tipo de alerta, por uma razão muito simples – tudo é ficção. Há a adequação do material original a expectativas de público, truques de roteiro, escolhas de atores, piruetas estéticas de diretores, todas as questões tipicamente industriais do cinema. Cobrar uma suposta fidelidade ao mundo real é uma bobagem sobre a qual não deveríamos perder tempo, sequer em reconstituições históricas, pois sempre há alguma margem de manobra para o roteiro brincar com situações e personagens. É com isto em mente que devemos assistir ao belo À Procura da Felicidade, do diretor italiano Gabrielle Mucino.

A história de Chris Gardner é bem conhecida dos norte-americanos, por encarnar exemplarmente o self-made-man, o sujeito que vem do nada e que, com trabalho duro e determinação, consegue “chegar lá” – leia-se: ganha respeito e dinheiro. O astro Will Smith encarou o projeto e exigiu que ele fosse dirigido pelo italiano. Uma decisão incrivelmente sábia.

À Procura da Felicidade garante o seu lugar de destaque entre os quase sempre equivocados e irritantes “filmes de crescimento e superação” graças a economia de recursos sensoriais como suporte ao apelo emocional de fácil comunicação com o público, mérito de três vértices: o roteiro enxuto, a direção segura e a interpretação de Smith.

O roteiro é direto, sem gorduras, consegue criar situações tão plausíveis quanto quase insolúveis para o personagem principal (a exemplo de Hotel Ruanda), que conta apenas com sua inteligência e alguma sorte para resolvê-las. E não apela para soluções mágicas nos momentos mais extremos – Gardner perde várias de suas lutas e não somos poupados de ver seus esforços, por vezes bem-intencionados e outras vezes destrambelhados, falharem miseravelmente. Por outro lado, há algumas coincidências irritantes, mas não é algo que se compare a um roteiro inteiramente construído sobre este tipo de artifício como, digamos, Homem-Arannha 3. Há ainda uma voz narrativa dispensável em pelo menos dois momentos do filme.

Acompanhando este roteiro, Mucino decide expurgar quase todo o melodrama de suas escolhas de planos e seqüências. Quando Gardner abraça seu filho na creche inepta que pode pagar para ele, a câmera fica do lado de fora, vendo tudo pela janela, quase em silêncio. Não há câmera lenta ou solo de violino num crescendo desajeitado; sentimos a cena porque ela é o ápice de uma série de eventos emotivos. Em vários momentos, o cuidado com a fotografia nos dá a impressão de ver aquela luz típica dos filmes do final dos anos 70 e início dos 80 (quando se passa a história), antes da estética publicitária ao estilo dos irmãos Scott se impor.

E, finalmente, Will Smith constrói seu personagem com um esmero quase absoluto. Geralmente, quando mencionamos uma atuação exemplar, nos lembramos de personagens superlativos (o Coringa de Jack Nicholson) ou “diferentes” (Sean Penn, que parece possuído no equivocado I am Sam). A criação de um homem comum, crível, é um desafio que poucos atores conseguem superar sem se deixar seduzir pelo excesso ou pela inexpressividade. O Gardner de Smith deixa-nos entrever, em cada olhar, uma luta interna entre sua capacidade de ação e otimismo e a sua profunda decepção consigo mesmo. Em momento algum, ele lamenta em voz alta – ainda que se ressinta pela sua situação atual – ou cede ao racismo velado de seu superior, que o humilha ao pedir que lhe compre cafés e estacione seu carro. É um trabalho delicadíssimo, superior até ao que Smith apresentou em Ali, de Michael Mann.

Enfim, um filme que consegue fugir da famigerada “auto-ajuda cinematográfica” (gênero em que, infelizmente, Robin Williams parece ter fincado o pé), baseado num material que tinha tudo para dar errado, merece ser visto com cuidado, mesmo com alguns defeitos aqui e ali.

Cotação: ****

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: