Na turbulenta Europa dos anos 40, o escritor Italo Calvino (1923-1985) achava que a realidade era um enredo mal escrito que precisava ser urgentemente mudado – e que a literatura era um instrumento para isso.
Na dúvida entre arte e política, Calvino optou pelas duas, passando a militar tanto nos quadros do Partido Comunista italiano quanto através de livros ëngajados”como Il sentiero dei nidi di ragno (O atalho dos ninhos de aranha, 1947) e Ultimo viene il corvo (Por último vem o corvo, 1949), sua estréia na ficção.
Mas Calvino não demorou muito a descobrir que o mundo não era aquela equação exata que alguns filósofos teimavam em transformar, mais do que em entender.
Para o homem e para o artista, isso representou um ritual da “perda da inocência”: o militante que queria mudar o mundo acabou mudado. Calvino trocou a ingenuidade da política pelas sutilezas do verbo, e seu realismo à italiana pela literatura universal.
Deixou de lado a arrogância de pretender forjar um mundo perfeito, e acabou preferindo a sabedoria de tentar aperfeiçoar a literatura – que é, no fim das contas, parte tão essencial deste pobre mundo.
Do blog de Antônio Fernando Borges.