Archive for abril \27\UTC 2008

Eu não iria escrever sobre isso, mas…

domingo, 27 abril, 2008

Nota bem após a publicação:Uma amiga muito querida alertou-me para o fato de este texto parecer dizer que a mídia não deveria cobrir casos assim. Não concordei totalmente com ela, mas já que houve esta interpretação, julguei que seria interessante reforçar o ponto de vista que desejei expressar. Sou um defensor intransigente da liberdade de imprensa sim, jamais quis dar a entender o contrário; em minha opinião, os excessos que venham a ser cometidos pela imprensa são efeitos colaterais naturais e esperados da liberdade. Reitero o que vai abaixo: o caso Isabella me incomoda profundamente, além das razões óbvias, porque não acredito na sinceridade da comoção coletiva – muitos dos que hoje choram o assassinato cruel de uma criança não estão dispostos a mudar uma certa cultura da brutalidade contra os pequenos que já faz parte deste país. Este é ponto, digamos, periférico, que me incomodou terrivelmente no caso.

O caso Isabella. Toda a movimentação midiática em torno de um crime escabroso e aparentemente incompreensível já é esperado, embora este caso esteja extrapolando os limites que já exploramos antes. Se já é insuportável ter que ouvir especialistas dando entrevistas conflitantes a todo momento na TV e internet, ter de ouvir as mesmas coisas de amigos e parentes mil vezes ao dia é algo próximo da tortura. Então decidi não acompanhar o caso, não por desumanidade, mas por respeito a vítima.

Digo isso porque parece-me que as pessoas acompanham este caso como se ele fosse um episódio de CSI ou de Law and Order; como se a solução do crime fosse aparecer em 40 minutos de investigação, descontados os intervalos comerciais. Na verdade, a aglomeração incomum ao redor deste assassinato torpe diz mais sobre elas do que imaginam; é como se, ao interpretar este personagem profundamente indignado, estamos (sim, eu me incluo) tentando nos distinguir “deles”. E no meio de toda esta indignação, há sim, aqueles que por pouco, muito pouco, já quase não causaram ferimentos severos em seus filhos. Mas estar ali (n)os expia desta culpa tenebrosa – ou, melhor dizendo, no expia do medo indescritível que a possibilidade de sofrermos desta culpa no futuro nos causa.

Por isso eu não iria escrever nada sobre este caso até me deparar com um artigo de Contardo Calligaris na Folha de São Paulo, do qual me limito a transcrever alguns trechos. O artigo completo é exclusivo para assinantes e pode ser encontrado aqui.

Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.[...] Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela.[...]As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.[...]A turba do “pega e lincha” representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.

Atualização: Só agora li o ótimo post do Alessandro Martins sobre o caso. Vale a pena lê-lo também.

Quando a burrice vence as teorias de conspiração

sábado, 26 abril, 2008

Conhece algum adepto de teorias sobre o atentado de 11 de setembro de 2001? Duvida que o país mais poderoso do mundo, com a melhor tecnologia, os melhores espiões, armamento, experiência acumulada por décadas de Guerra Fria, possa ter sofrido um ataque tão devastador e aparentemente evitável com algum esforço? É mesmo? Olha, como dizia aquele comercial de montadora de carros, melhor rever os seus conceitos.

Nota: Lá vai clichê, mas depois de um tenebrosa e longa noite afastado por problemas de saúde, finalmente estou de volta. A vantagem disso é que tive tempo para pensar num monte de assuntos para escrever a respeito. Logo, o blog terá uma movimentação anormal nos próximos dias. Digo isso para não assustar os meus dois leitores e meio, que vão estranhar este ritmo.

Você já pensou na sua aposentadoria?

sexta-feira, 11 abril, 2008

Pois é, eu já.

Trabalho numa empresa de grande porte, com alguns milhares de funcionários. Ela acaba de lançar um programa motivacional que consiste, a grosso modo, em prover mecanismos formais para que os profissionais que estão prestes a pendurar as congas possam transferir a experência acumulada em anos e anos de labuta para os moleques, digo, possíveis sucessores. Eu ainda pertenço a turma dos moleques e, no andar da minha atual carruagem corporativa, jamais serei sucessor de coisa alguma, logo, o programa pouco me afeta diretamente hoje em dia. Mas não deixou de me surpreender a gana com que muitos senhores e senhoras protegem o tal conhecimento adquirido com a longa experiência e relutam firmemente em repassá-lo.

O quê se ganha com isso? O que fazer com um conhecimento (em raríssimos casos, até mesmo sabedoria) que não lhe será mais útil? Ou estou enganado, e conhecer os meandros da burocaria do setor de RH será útil na hora de fazer as malas para viajar para Pindamonhagaba? Ou decifrar as sutis expressões corporais dos oponentes no buraco (jogo)? O sujeito que resiste a transmitir o que sabe na verdade reluta em abandonar o seu trabalho formal. Compreende-se também, afinal, poucos, pouquíssimos de nós, se prepara para largar o emprego-de-oito-horas-diárias; a iminência do prazo final deve ser uma perspectiva aterradora para alguns. Logo, defenderão com unhas e dentes o que descobriram com esforço e sacríficio. O que não deixa de ser um ato de egoísmo, de apego inútil a algo que pouco lhes fará diferença agora.

Tenho sido bastante seletivo com o que aprendo, ou pretendo aprender. Não tenho neurônios suficientes para uma enciclopédia, então cuido para que a informação que eu absorva me traga: 1) prazer intelectual; 2) prazer besta; e que, 3) tenha relação com os meus valores e as coisas que eu devo saber e fazer. Só para divagar um pouco, vocação, no seu significado religioso original, é aquilo que se deve fazer, mesmo que cause imenso trabalho e até dor; logo, não está necessariamente ligada a aptidões inatas: é neste sentido que uso o termo “devo saber e fazer”. Aprendi a selecionar melhor as, digamos, disciplinas que preciso e desejo aprender, especialmente na minha profissão de TI: no momento, estudar sobre gerência de projetos me parece mil vezes mais interessante do que aprender a programar em Lisp (não se preocupe se você não entendeu, meu mundinho profissional é bizarro para quem o vê do lado de fora). O mesmo vale para meus interesses pessoais: se tenho, para citar contemporâneos, António Lobo Antunes, para quê perder tempo com Dan Brown? Por outro lado, para não virar um chato, mantenho uns doze ou quinze neurônios gordos e bem-alimentados, que sempre gritam bem lá do fundo do cérebro: “Cala a boca, relaxa e se diverte!”, o que me permite apreciar obras feitas apenas para distrair. Lembra o prazer besta de que falei? É isso.

No entanto, e aqui está o que acredito ter sido uma conquista pessoal, estou disposto a abrir mão deste conhecimento quando ele não fizer mais sentido para mim. Posso, e me sentirei até feliz, em transmiti-lo a alguém que faça bom uso dele. E chegamos ao título do post: sim, eu já pensei em minha aposentadoria. E pensei nela motivado pela pergunta de um amigo de um amigo meu: “E você, Marcelo, sabe o que fará quando se aposentar?”. Demorei alguns segundos apenas, depois de consultar os neurônios chatos e os doze ou quinze palhaços da turma do fundão, e o que formulei foi, na verdade, uma declaração de valores. Gostaria de poder me dedicar a uma vida inteiramente intelectual, cercado de livros e bons amigos. Não quero mais me envolver com a criação e gerência de sistemas de informação, mas usá-los para escrever e me conectar com outras pessoas. Gostaria de ter uma biblioteca, não muito grande, mas essencial, com os livros de que gosto mesmo se eu não os tiver lido. Se Deus me permitir, algo a que Lhe seria eternamente grato, gostaria de, como hoje, não estar sozinho (Todo mundo cantando comigo: When I get older losing my hair/Many years from now/Will you still be sending me a valentine?/Birthday greetings bottle of wine…) e ter alguns poucos e bons amigos. Se eu vier a ter netos, quero entretê-los com histórias de naves espacias, duendes e dragões e não com impropérios ridículos sobre como tudo era melhor no meu tempo. Disse também que eu moraria ainda numa grande cidade, ao contrário da maioria que deseja se mudar para o interior, porque velhinhos precisam de bons hospitais ao alcance de um telefonema. E que desejo ter algum dinheiro, mais do que o suficiente, para tudo isso.

Mas não mencionei o que está nas entrelinhas: quero me livrar de todo o conhecimento que não me for mais interessante; passo todo ele, se eu o tiver, com prazer para quem desejar ouvi-lo. Quero ter a grandeza do desapego ao que deixar para trás: emprego, rotinas, chefes, burocracias, relações impessoais. Desejo ficar apenas comigo mesmo, minha companheira, meus amigos, livros e filmes. Uma felicidade sem arroubos, apenas tranquila e delicada, como um sorriso leve que quase não percebemos se formar quando nos encontramos com aquela a quem dedicamos nosso silêncio mais amigo, cúmplice e amoroso.

Alguém, pelamordeTimBerners-Lee, diz que isso é pegadinha de primeiro de abril atrasada

quarta-feira, 9 abril, 2008

Não, não é, segundo o que pude constantar. Em mais uma amostra de seu espetacular conhecimento sobre como funciona e qual o impacto da internet no mundo de hoje, a justiça brasileira pediu o bloqueio do domínio wordpress.com, em todo o território nacional. Se eu entendi bem, o objetivo é barrar o acesso a um único blog com conteúdo criminoso – cujo endereço, aliás, não foi revelado.

Duvida? Leia aqui, aqui e aqui.

Se eu (e mais alguns milhares de blogueiros) sair(mos) do ar nos próximos dias, não se preocupe. É nisso que dá ter nascido neste país.

Ah, sim, Tim Berners-Lee?

Coisas que eu gostaria de ter dito – 3

quarta-feira, 9 abril, 2008

Você sabe que tá velho quando tem que usar o scrollbar para selecionar o ano do seu nascimento…
FDR

Escrevo para livrar-me da sensação de que há um lugar para onde devo ir, mas não consigo chegar, como em um sonho. Escrevo porque não consigo ser feliz. Escrevo para ser feliz.
Orham Pamuk, em seu agora famoso discurso de agradecimento pelo Prêmio Nobel, lançado em livro no Brasil.

Um filme, um romance, uma história em quadrinho ou a redação que nossos filhos escrevem na escola têm sempre um sentido moral, queira ou não o autor. Obras que buscam passar uma “mensagem” quase sempre resultam em chatice, em didatismo bocó.
Reinaldo Azevedo, comentando o filme Juno.

Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe.
Fernando Pessoa.

Por que ler “Retrato de uma Senhora “[de Henry James]? Por muitas razões, e para obter imensos benefícios, mas o cultivo de uma consciência individual seria, certamente, um objetivo primeiro, bem como o grande benefício decorrente de uma leitura intensa. Energia intelectual e introvisão: eis os atributos da consciência do leitor solitário que mais se desenvolvem através da leitura. Informação social, seja sobre o passado, ou sobre a contemporaneidade, a meu ver, constitui um benefício periférico à leitura, e conscientização política um ganho ainda mais tênue. Harold Bloom, em Como e Por que Ler.

O mundo vai acabar. De novo.

segunda-feira, 7 abril, 2008

Nem preciso mencionar que são duas as constantes certeiras da vida: você pagará impostos e morrerá. Há ainda uma terceira, claro desdobramento gigantesco da segunda: o mundo vai acabar. Em fogo, gelo, numa hecatombe astronômica ou quando a grande tartaruga sobre a qual a Terra se equilibra soluçar – há fins para todo mundo e gosto. A idéia nunca abandonou a humanidade e tem suas versões laicas e religiosas bastante difundidas. Num tempo em que religião está virando palavrão a ser evitado na sala de estar e na frente das crianças, o Apocalipse/Revelação perdeu um pouco do seu lugar para versões secularizadas do fim: o aquecimento global, atual coqueluche dos alarmistas, é ainda o grande campeão. Seu problema é a lentidão, pouco propícia a boas dramatizações; a depender dele, a gente ainda leva uns bons duzentos anos para flambar de vez na superfície desta rocha redonda. Não é à toa que o cineasta Roland Emmerich inverteu os ponteiros e botou o mundo para gelar em poucos dias no ridículo e bacaninha O Dia Depois de Amanhã.

E não é que este mesmo alemão agora resolveu nos assustar (ai, que meda) com outro fim dos tempos? Sua nova produção se passará em 2012, quando todos bateremos as botas, segundo uma antiga profecia do calendário maia – não, não tente entender, é inútil. O filme, claro, será lançado em 2010, caso contrário os produtores não terão tempo de desfrutar os lucros – Hollywood pode até ser profética, mas não é burra. Também o indiano M. Night Shyamallahianallylhasandy vem com The Happening: o trailer mostra pessoas caindo como jacas maduras do alto de prédios sem qualquer explicação. Há ainda uma seita russa, cujo líder, pinelzinho da silva, está internado numa instituição psiquiátrica, mas ainda influencia seus seguidores, que esperam o fim de tudo num buraco. Além daquele livrinho que algum amigo seu deve ter comprado, poucos anos atrás, sobre o planeta vermelho, Hercólubus, que transformaria o nosso em farinha espacial ao passar aqui perto. Aliás, todo ano alguém descobre, ou diz descobrir, um asteróide errante que pode entrar em rota de colisão com a Terra em seis, quinze ou quinhentos anos. É o suficiente para se sentir um pobre e feliz Quem em Quemlândia.

Para quem imaginava que a onda apocalíptica sofreria um declínio após o bug do milênio (Pausa para puxar um pouco de brasa para a minha sardinha: Fomos NÓS, os profissionais de TI, que salvamos o mundo daquela vez, lembre-se disso!), ela segue forte e bem alimentada na cultura popular, especialmente no cinema, lotado por zumbis, computadores malvados, vírus mortais, monstros das profundezas da Terra e meteoros tão precisos que acertam o Empire State Building. Infelizmente, esta idéia ganhou contornos (sur)reais recentemente, com o anúncio de início de operação do gigantesco acelerador de partículas conhecido como Large Hadrons Collider, ou Grande Trombador de Hádrons. Dois cientistas estão seriamente preocupados com a possibilidade de as experiências com esta máquina (a maior já construída pelo homem) gerarem buracos negros. Todo mundo mundo que já viu Jornada nas Estrelas sabe: O buraco negro é uma aberração cósmica, um monstro devorador de matéria, insaciável e violento. Na verdade, há divergências. Alguns cientistas dizem que buracos negros pequenos seriam quase inofensivos, incapazes de comer um Big Mac mesmo se tivessem milênios a sua disposição; outros, como o eminente físico Stephen Hawkings, dizem que os buracos negros gerados pelo LHC seriam tão instáveis que evaporariam sem deixar rastros. O problema é que isso está no papel; ninguém jamais viu um buraco negro fazer Puf! bem na sua frente.

Segundo os mesmos assustados cientistas, a outra bizarrice cósmica que o LHC pode cuspir depois de acelerar partículas é um bicho chamado strangelet. O strangelet é uma partícula teórica; assim como buracos negros que fazem Puf! e guerreiros que dizem Ni!, jamais foi visto. Alguns acreditam que o strangelet tem a propriedade de contaminar as partículas ao seu redor, espalhando-se como uma praga alienígena. O resultado final seria a transformação deste planetinha azul, habitado por doces e gentis criaturas, num melecão especial, cinzento e morto: uma deliciosa sopa de strangelets, prato apreciadíssimo pelos vezanianos de Alfa-Centauri.

Ainda que tudo acima seja especulação (além de incrivelmente mal explicado por mim), apenas o fato de os cientistas terem resolvido rever seus cálculos depois da desconfiança dos colegas já dá o que pensar. E não é a primeira vez que este medo aparece na mídia; alguns anos atrás, um outro grupo acabou cancelando sua experiência por temores de produzir algo que pudesse engolir o planeta. Infelizmente, não consegui encontrar links para esta notícia, e, na verdade, nem sei se o tal experimento foi realizado, no final das contas. O que significa que talvez até já exista um buraco negro bebê, uma gracinha de monstrinho espacial, comendo a Terra pelas beiradas.

De qualquer forma, gostaria de propor um ensaio para o apocalipse. Todos sabemos que o Second Life está morto: prédios abandonados, arruaça, prostituição e terrorismo tomaram conta do mundo virtual que já nasceu fadado a ser um hype esquecido – exceto pela imprensa brazuca. Ao invés de simplesmente fechar as portas de forma silenciosa e melancólica, a Linden Labs poderia convidar todos avatares sobreviventes a participar da Grande Hecatombe. Um evento único, sem igual, que varrerá o Second Life da face dos computadores de todo o mundo. Veja seu avatar sofrer, se retorcer e tentar fugir do fim dos tempos virtuais. Resistir é inútil.

Nota final: A foto que ilustra este post é a “porta do inferno”, um buraco quente no Uzbequistão que queima interruptamente há 35 anos.

Topifaive coisas tidas como bacanas mas que não me dizem nada

segunda-feira, 7 abril, 2008

Copiando sem dó, piedade ou vergonha o post do Paulo, publico aqui 5 coisas que fazem um sucesso incrível e não me interessam nem um pouco.Abstenho-me de comentá-las porque as razões são subjetivas demais e só serviriam mesmo para desagradar a quem gosta dos participantes desta listinha.

1. Rubem Alves Augusto Cury (*)
2. Shrek 2
3. Roupa Nova (sem piadas, ok? estou falando da banda, não do que uso por cima da pele)
4. Heavy Metal
5. Jogos de baralho

(*) Nota bem posterior  a publicação: Tiro o Rubem Alves da lista porque, apesar de achar que ele às vezes escreve num estilo próximo da auto-ajuda, suas ideias sobre edução são interessantes e pertinentes – e concordo com algumas delas. Por outro lado, Augusto Cury não dá.

Mensagem para Você

terça-feira, 1 abril, 2008

É bastante comum, e certamente já aconteceu com todo mundo: quando lhe indicam um livro, um filme ou uma peça, o bem-intencionado a descreve como possuindo uma “mensagem bonita”. Eu sempre fico na dúvida sobre o quê isso quer dizer; se a pessoa está sendo irônica ou se realmente acredita na necessidade de uma obra de arte “passar uma mensagem”. Na maioria das vezes, se enquadra no segundo caso. Nada contra, claro. Aliás, pouco me importa o que as pessoas procuram num livro – e, não, não é uma postura arrogante da minha parte, mas de tolerância pessoal. Se o seu intento é emular Oprah Winfrey e extrair verdades práticas e comezinhas dos livros de Toni Morrison, esteja a vontade. Só não conte comigo.

Em parte, esta tara pela mensagem parece-me ligada a uma cultura muito forte no nosso tempo, que, na falta de termo melhor, chamarei de “praticização da existência”, um palavrão feio e ridículo para dizer o seguinte: as coisas só têm valor se delas puder ser extraído algum resultado prático, imediato. Parece absurdo, mas numa era de informação, estamos nos tornando criaturas com pouca capacidade de abstração. Eu, que trabalho com Tecnologia de Informação, vejo isso continuamente: pessoas inteligentes e curiosas com imensa dificuldade em entender coisas como “arquivo de computador”, “post no blog” e “arquivo mp3”, só para citar alguns exemplos. Por outro lado, vemos pipocar uma quantidade imensa de canais de televisão, livros e sites que tentam nos ensinar a resolver problemas práticos – de separar as roupas antes de colocar na máquina de lavar a melhor roupa para ir a um casamento.

Por outro lado, há o ópio dos intelectuais, claro. Para uma parcela considerável dos intelectos tupiniquins, uma obra de arte só tem valor se dela puderem ser extraídas lições sobre as luta de classes, a supremacia do socialismo e a maldade inerente ao capitalismo – um amontoado de idéias anacrônicas de relativo sucesso entre parte das hostes estudantis e seus mestres. Já li interpretações marxistas até de Matrix. De qualquer forma, não é sobre este tipo de mensagem de que trato aqui. Voltemos.

No nosso tempo, é preciso encontrar uma função prática para a arte, e é neste buraco sem fundo onde entram as tais “mensagens”. Geralmente, espera-se encontrar numa obra de arte um subtexto edificante ou redentor, que sirva de lição ou alívio para o leitor. É perfeitamente compreensível que se busque um contraponto menos dramático às nossas vidinhas atribuladas, e eu mesmo conheço boas pessoas que ficariam aterrorizadas diante da idéia de ler um romance que não é “de (argh!) bem com a vida”. Isso acaba naturalmente afastando muita gente boa da grande literatura de ficção que, convenhamos, em sua maioria narra histórias que são uma desgraceira só; basta ver as atribulações a que são submetidos Anna Karenina, Hamlet, Raskolnikov ou Dom Casmurro. De resto, parece-me que o conceito de catarse está sendo tragado rapidamente pela ditadura da auto-ajuda: não apenas estamos nos tornando alérgicos a (inevitável, meu Deus) possibilidade de sofrer como a rejeitamos agora até mesmo na ficção.

Há ainda uma absurda idéia do que seja arte; também ela submetida agora ao crivo da praticidade. Não custa citar Oscar Wilde novamente, e é sempre bom relembrar: arte não serve para nada. Lembro-me bem de uma vez ter sido indagado sobre qual a mensagem que as vaquinhas coloridas da Cow Parade queriam passar; fiquei sem resposta e simplesmente balbuciei um “nada” entre os dentes. Minha interlocutora insistiu e eu quase citei o dândi loucão inglês, mas me contentei em explicar que “cada artista dava a tal vaca o significado e a cara que bem entendesse”, ou coisa parecida. O que ela talvez não tenha entendido é que, se a arte não serve para nada, significa exatamente que ela se amolda à vontade do artista e que depende unicamente dele (e não do tempo, da história, da luta de classes, etc, etc e mais um etc) conferir-lhe qualidade e, digamos, profundidade.

“Mensagem”, ou coisa que o valha, não piora nem melhora uma obra de arte ruim. E fica bem melhor naqueles arquivos Power Point com filhotinhos de cachorros e trilha sonora de Kenny Gee do que na estante de uma boa livraria.

A propósito: Este artigo de Leandro Oliveira, Romance de Idéias.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.