Nova pausa

Segunda-feira, 16 Novembro, 2009 por Marcelo Lopes

Mais uma vez, devo ficar afastado por mais ou menos uma semana. Desta vez, estarei na cidade dos senadores bigodudos. Assim que voltar, postarei algumas coisas que ando lendo e pensando – além de finalmente retomar o quase falecido Todos os Filmes.

Até a volta!

Prévia: O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

Quarta-feira, 11 Novembro, 2009 por Marcelo Lopes

Estou lendo dois livros: A Luz da Noite, de Edna O’Brien e este O Imitador de Vozes, de Bernhard. Claro, ainda não terminei nenhum dos dois. Ambos são ótimos por motivos e com estilos completamente distintos, mas por enquanto falo apenas do Imitador. Quando li sobre ele, imaginei que seria um livro menor da extensa produção de Bernhard; que seu estilo obsessivo, circular e virtuoso não caberia em contos curtos – aliás, alguns curtíssimos. Estava enganado, e ainda mais enganado quanto a habilidade e inteligência do autor. De fato, o seu famoso estilo não funcionaria em narrativas curtas. Então, ele decidiu torná-lo, digamos, horizontal. Suas narrativas repetem temas, episódios, personagens, sempre unidas por um narrador que são vários. Suicídios, traições, assassinatos, uma sucessão de episódios miseráveis e incompreensíveis, vez por outra esbarrando levemente no fantástico, frequentemente no limite entre o grotesco e o patético. Torna-se um livro tão exasperante, aos soluços, quanto suas narrativas longas.

Como ainda não terminei, ficarei devendo uma citação (aliás, o belo projeto gráfico da capa já é uma citação sensacional). O livro me fez lembrar de um trecho da história em quadrinhos Watchmen, obra-prima de Alan Moore, quando o sociopata mascarado Rorschach conta uma piada, que, em tudo, parece-se com um dos contos de O Imitador de Vozes.

Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você”. O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… eu sou o Pagliacci.”

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Agradecimentos (ainda que tardios)

Sexta-Feira, 6 Novembro, 2009 por Marcelo Lopes

Na confusão das últimas semanas, deixei de agradecer a dois links recebidos para o post O Gênio Desconhecido de Alan Turing. O primeiro, do blog Universo Fantástico, do Silvio Alexandre, que reúne artigos, notícias, resenhas e tudo o mais que for interessante em se tratando de literatura, cinema e quadrinhos fantásticos. O segundo, do fantastik.com.br, do Eric Novello, cuja missão é tecer um retrato da literatura fantástica produzida no Brasil, assim como resgatar e divulgar sua história. Ambos oferecem informação atualizada, com frequência e precisão, para todo mundo (como eu) interessado em arte fantástica. Vale muito a pena visitar, linkar e acompanhar os dois.

Do meu problema com as oficinas literárias

Sexta-Feira, 30 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

Quando voltei a escrever contos e um projeto de romance (coisa recente e relativamente febril), considerei por algum tempo participar de uma oficina literária – que estão se espalhando rapidamente por todo canto. Não vou entrar aqui na polêmica, meio besta, sobre talento e técnica, sobre se a oficina é capaz de transormar um não-escritor em um escritor, etc. Que existem ferramentas e técnicas que aspirantes a escritores como eu, devem aprender a manejar, disso não tenho dúvida alguma. O problema que vejo nas oficinas é outro, muito bem descrito no artigo A Essência e os Excessos, de Carol Bensimon, publicado no segundo número da revista Cadernos de Não-Ficção, da Não Editora.

Pausa: A revista é ótima, gratuita e disponível para download no site da editora. O primeiro número tratava de David Foster Wallace, J.M. Coetzee e Cormac McCarthy. O segundo traz W. G. Sebald, China Miélville e um especial sobre poesia contemporânea.

Segue o trecho do artigo (os dois primeiros parágrafos) que resume a minha implicância:

Há um discurso recorrente nas oficinas literárias que é o discurso da “economia” do texto, ou, para ecoar palavra que gostam muito, sua “essencialidade”. Texto bom é, nessa concepção, texto que vai direto ao ponto, sem rodeios ou floreios. [...] A regra é clara: cortam-se excessos, resta a essência. Eu sempre fui muito cuidadosa com isso, para não cair no erro de confundir essência (conceito para lá de abstrato) com tamanho de texto, por exemplo. Essa concepção levaria a crer que um miniconto é superior a Crime e Castigo, o que, como se pode ver, não faz o menor sentido. Da mesma forma, uma cena espiralada de Thomas Bernhard, na qual o personagem coloca sua mala no chão de uma pousada austríaca uma dezena de vezes (O Náufrago), seria nada mais do que um conjunto de excessos.

As cenas, os livros, precisam ter o tamanho que o seu contéudo demanda, que, por sua vez, são determinadas pelo sentido que o autor pretende nele inserir. Por isso me parece bem pouco lógico, tanto quanto relacionar essência com extensão, crer em outra coisa na qual muitos jovens escritores costumam crer: que a essência encontra-se na espinha dorsal do texto, nas ações que conduzem a trama, e que por isso descrições de ambientes, detalhamentos psicológicos de personagens, ou ações que não fazem a narrativa andar, todos esses elementos seriam excessivos e, portanto, descartáveis.

Recomendo baixar e ler este artigo com atenção – a revista toda, aliás. Enquanto isso, corro para o meu Para Ler Como Um Escritor.

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Buscopan na veia

Quarta-feira, 28 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

Mal cheguei de viagem e ganhei uma crise renal bem forte. Aliás, a dor mais forte que já senti até hoje. Diagnóstico? Um cálculo pequeno que está se deslocando lentamente rumo ao seu destino manifesto – fora do meu corpo! Na verdade, terei que esperar a evolução do quadro por alguns dias: se esta pedrinha enrugada e asquerosa não sair por vontade própria, será extraída a marra.

Hoje ainda não doeu, mas amanhã ou depois pode acontecer qualquer coisa. Espero retomar o blog decentemente ainda hoje.

O grilo falante está rouco

Domingo, 25 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

No voo (um dia eu me acostumo) de volta a Belo Horizonte, eu lia uma revista Superinteressante. Deixe-me explicar uma coisa: gosto de viajar de avião, de verdade. Entre passar de seis a sete horas socado num automóvel ou nove num ônibus e um voo de menos de uma hora, sempre vou preferir o avião. Claro que para driblar o susto que insiste em aparecer a cada solavanco aéreo, uma leitura concentrada é uma boa opção. Tomei o cuidado de não folhear as páginas que traziam fotos simuladas de desastres, incluindo um incêndio num avião, e fui direto a seção de cartas, digo, e-mails, digo, scraps da revista.

Na edição anterior, havia uma matéria bem curiosa sobre os diversos componentes da personalidade de cada um. Em determinado momento, o artigo brincava de revelar ao leitor que aquela vozinha (diminutivo de voz, não a sua avó baixinha) dentro da nossa cabeça é, uau!, a nossa própria voz. Pois bem, dois leitores escreveram para dizer que nunca haviam reparado que a voz que habita a sua cabeça é a deles mesmo. Como assim, Bial? De quem eles achavam que era? Do William Bonner? Do dublador Guilherme Briggs? Confesso que esta foi uma revelação das mais bizarras: tem gente por aí que acredita conversar com o Bob Esponja e não consigo mesmo. Pelo menos, foi o suficiente para fiacr pensando durante o trajeto – com a minha própria voz.

Recesso profissional

Domingo, 18 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

Estarei fora até o dia 23, graças a compromissos profissionais naquela cidade onde os helicópteros da polícia são abatidos por bandidos.

Logo, o Tangentão também entra em recesso. Mas devo ter bastante tempo para pensar em posts e assuntos melhores. Aos meus seis leitores e meio: até a volta!

Coração Tão Branco, de Javier Marías

Quinta-feira, 15 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

Pouco tempo atrás, postei aqui o início deste impressionante romance do espanhol Javier Marías, Coração Tão Branco. Quando comecei a leitura (lentíssima, aliás; problemas pessoais estenderam-na por quase dois meses), tinha a impressão de não perceber muito bem as ligações entre os acontecimentos narrados; isso não é problema algum, apesar de ficar claro que a trama trataria de costurar estes eventos. Mas não se engane achando que Marías o fará de forma óbvia, seguindo alguma cartilha de roteirista de cinema em que cada pedaço da história é estrategicamente posicionado de forma a maximizar o efeito final. Sua obra é repleta de sutilezas e subjetividade – sim, eu tenho este defeito de apreciar narrativas em primeira pessoa.

Desde o início o protagonista, um intérprete recém-casado, fala de seus “pressentimentos de desastre” e é a estes por vezes delicados e algumas vezes brutais pressentimentos que ele se dedica a contar. Indo do passado de sua família (que me lembra a frase de Faulkner citada por Edna O’Brien em A Luz da Noite: “O passado não está morto e enterrado; na verdade, ele nem mesmo é passado”) ao tempo em que conheceu Luiza, sua mulher, o relacionamento com seu pai, Ranz, personagem que pouco aparece diretamente e de quem não se esquece, suas viagens e sua estranha Amiga de Nova York, Berta, Juan, o narrador vai enumerando acontecimentos. São quase todos minúsculos, quase desimportantes, mas escritos numa prosa hipnótica, cuja espiral lembra algo como uma mistura improvável entre a serenindade melancólica de Sebald às obsessões e repetições de Bernhard. Marías extrai de momentos banais reflexões que nunca chegam perto do sentimentalismo, para depois recolocá-las no texto de maneiras inusitadas, em momentos absurdos – e o melhor: o conjunto acaba fazendo um sentido imenso.

Trata-se de um livro masculino, com o olhar de um homem sobre o mundo, o pai, o passado e as mulheres. Foi bastante fácil para mim perceber e concordar com esta abordagem, certamente intencional. Coração Tão Branco é um grande romance, que me impressionou bastante, geralmente chamado de segundo volume de uma trilogia que inclui ainda Seu Rosto Amanhã e Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim. Segundo esta matéria na Bravo!, Sebald (sim, de novo) o considerava seu “gêmeo literário”; seus admiradores ainda incluem Orham Pamuk, J.M. Coetzee, Roberto Bolaño e Salman Rushdie. Ainda tenho uma pilha bem volumosa de (bons) livros a encarar este ano, mas Marías já foi incluído nela.

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Ainda sobre Sebald e os sonhos

A hora e a vez de Ada Lovelace

Quarta-feira, 14 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

Depois de um breve afastamento do blog durante o feriado, volto a falar de figuras importantes da história de tecnologia e que quase ninguém conhece. Primeiro, foi Alan Turing; agora Ada Lovelace.

Segundo este post do Silvio Alexandre no Universo Fantástico, a cineasta Rosamarie Reed pretende rodar um filme sobre a condessa de Lovelace, baseado em suas cartas publicamente conhecidas. Ada Lovelace é uma das personagens mais interessantes do século XIX. A única filha legítima de Lord Byron, casou-se aos 20 anos e morreia prematuramente aos 36, vítima de câncer no útero. Antes disso, teve três filhos e inventou a programação de computadores em 1843.

Claro, a história é um pouco mais complicada: Ada foi ensinada pela mãe a apreciar matemática desde menina, como uma forma de se afastar da “loucura poética” de seu pai. Desde que conheceu Charles Babbage, aos 17 anos, interessou-se por sua máquina analítica, uma calculadora mecânica programável. A partir de anotações de um matemático italiano e das notas do próprio Charles, Ada acabou produzindo uma série de instruções para a máquina de Babbage, introduzindo conceitos que hoje são bastante comuns para os programadores e profissionais de tecnologia de informação. Sua contribuição é controversa, mas não resta dúvida de que ela entendeu a máquina e foi capaz de ampliar sua aplicabilidade, partindo dos estudos prévios de outros autores. Babbage, porém, tinha um projeto mais ambicioso: a máquina diferencial, uma monstrusidade mecânica capaz de cálculos mais precisos do que sua primeira invenção. Ele jamais a construiria (na verdade, mesmo a máquina analítica pouco passou de um projeto); abandonado por seus investidores, morreria pobre e esquecido. Ada não teve destino muito melhor: obcecada por corridas de cavalos e probabilidades, torrou boa parte da fortuna que possuía, um divertimento que era frequentemente abafado pelo marido. Este estranho capítulo da história da tecnologia permaneceu mais ou menos obscuro até que nos anos 50, quando os enormes computadores valvulados tomaram de assalto as universidades norte-americanas, estudantes de computação foram responsáveis por resgatar Ada e Babbage dos rodapés dos livros.

Como era de se esperar, um filme sobre uma personalidade desconhecida não é nada fácil de se produzir. Apesar do apoio de Betty Toole e Joan Baum, autores de dois livros sobre Ada, respectivamente, Ada, the Enchantress of Numbers (a “feiticeira dos números”, ou algo assim, era a forma como Babbage se referia a ela nas cartas; sim, provavelmente o quarentão arrastava uma asinha para o lado da menina Lovelace) e The Calculating Passion of Ada Byron, de Drummond Bone, especialista em Byron e de Doron Swade, especialista em Babbage. Mesmo já tendo produzido um documentário com trechos de recriação histórica sobre Marie Curie, Rosamarie Reed pede para que as pessoas escrevam para ela, relatando na carta a importância de Ada Lovelace para a ciência, de forma a pressionar a produção do filme.

Claro, é melhor que o autor da carta seja norte-americano, pois os produtores são de lá, mas nada impede um brasileiro desconhecido de engrossar o coro dos contentes. Segue aí o endereço dela:

Rosemarie Reed
On the Road Productions International, Inc.
310 Greenwich Street, 21F
New York, NY 10013

Isso mesmo, um endereço físico, uma carta física. Sei que alguns de vocês provavelmente jamais escreveram uma única carta na vida – carta mesmo, não vale e-mail. Peça ajuda ao seu pai, mãe, tio ou a alguém com mais de trinta. Pode não parecer, mas já existiu um mundo sem twitter, scraps e e-mail. Aliás, se e-mail já é coisa do passado, cartas são do tempo do Fred Flintstone. Acho que nem preciso dizer que a argumentação pró-Ada tem que ser escrita em inglês.

Algumas curiosidades para encerrar: Sydney Paula escreveu e desenhou uma história em quadrinhos curta e fantástica para o Ada Lovelace Day; o Ada Lovelace Day, claro; e The Difference Engine, um romance de história alternativa escrito por Bruce Sterling e William Gibson, que praticamente inaugurou um gênero literário chamado steampunk – algo como um revival do maravilhamento tecnológico dos livros de Julio Verne com o olhar contemporâneo – e imagina um século XIX em que Babbage construiu sua máquina diferencial. Eu tenho um projeto pessoal que envolve, de uma certa forma, Ada Lovelace e seu tempo. Mas isso fica para um futuro próximo.

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O Kindle no Brasil

Quinta-feira, 8 Outubro, 2009 por Marcelo Lopes

A Amazon anunciou sua estratégia para atingir outros países além dos EUA e Inglaterra e tentar frear a concorrência de outros e-readers que andam crescendo no vácuo que a companhia deixou. Ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa sobre o alcance da iniciativa, mas já dá para ter medo de duas coisas: o download de livros será fornecido por um roaming entre operadoras locais e a AT&T e haverá 150mil títulos a menos disponíveis para nós em comparação com o acervo vendido aos norte-americanos.

Apesar da ótima notícia, é melhor esperar um pouco para ver no que isso vai dar.

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