Debaixo do tapete

Sexta-Feira, 19 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Do Coisas de Idiota, sobre a idéia absurda que é acreditar em teorias de conspiração contra a Globo ou qualquer outra empresa:

Enfim, se você já teve um emprego na vida, mesmo que tenha sido numa fábrica de bigodes falsos, mesmo que tenha sido num rodízio de temakis, você sabe que nenhuma tarefa, nenhum projeto consegue escapar ileso da cultura de má-vontade, burrice, mal-entendidos, desinteresse e fofoca que existe em qualquer empresa, mesmo as que não são um fracasso – e que, portanto, todas as acusações contra a Globo de que ela conspira e manipula até quando transmite vôlei de praia são na verdade o maior elogio que seus funcionários poderiam receber.

Entretanto, tinha de haver uma exceção e, como era de se esperar, ela não está numa empresa e sim numa cidade. Japonesa. A jornalista especializada em cinema, Ana Maria Bahiana, fonte mais do que confiável em se tratando de novidades da indústria cinematográfica comentou em seu blog sobre o impressionante documentário The Cove:

[...] numa cidade do Japão que parecia um paraíso de convivência humanos/espécies marinhas, Psihoyos e O’Barry [diretores do filme; O'Barry é o ex-adestrador de Flipper] descobriram algo medonho: uma enseada oculta, onde massas de golfinhos eram arrebanhados e ou feitos cativos ou massacrados para a indústria de enlatados (mesmo estando contaminados por mercúrio). O esforço para documentar o massacre – acobertado por toda a cidade, inclusive as autoridades – levou a equipe a mudar seu projeto e envolver profissionais tão variados quanto comandos especializados em missões secretas e técnicos em efeitos especiais da ILM, que criaram rochas falsas capazes de acomodar câmeras embutidas.

Assistir ao trailer é uma aula prática de como uma conspiração pode funcionar. Resta-nos torcer para que as grandes empresas sempre acusadas das mais estapafúrdias teorias(alguém aí falou MacDonald’s? Coca-Cola?) não resolvam levá-las a sério contratando os habitantes da tal cidadezinha japonesa – inferno dos golfinhos.

A propósito, vale a pena ler todo o post do blog da Ana Maria Bahiana, sobre o filme The Stoning of Soraya M., que parece mil vezes melhor e mais relevante do que estes livros que viraram moda nos últimos anos – ao melhor estilo Eu Sou o Verdureiro de Cabul.

O exercício da generosidade

Quinta-feira, 18 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Como qualquer um, tenho ambições. Ambição é uma palavra que, aqui, abaixo da linha do Equador brazuca, é sinônimo de palavrão – como capitalismo, cultura clássica e lucro. Quando se menciona esta palavrinha, muita gente  se lembra de vilões de telenovela, invariavelmente empresários ricos ou vilãs dispostas a tudo para subir na vida, esse tipo de bobagem.

Quase são esquecidas as várias formas de ambição: material, intelectual, espiritual. Nenhuma delas é necessariamente ruim, mas as formas de exercê-las é que podem causar problemas tanto a mim quanto às pessoas que me cercam. E, em algum grau, temos todas as formas citadas, sendo que uma ou outra ganham certa prioridade.

A ambição da qual quero falar, no entanto, é outra, talvez a mais complicada, a mais difícil de se exercer e, paradoxalmente, a mais simples e suave. Lembrei-me dela ao ler este post do blog do Hiro contando sua visita ao estúdio-casa da lenda da ilustração Brad Holland. Holland recebeu o desconhecido brasileiro com simpatia e simplicidade, mostrou a casa, seus (belíssimos) trabalhos, conversou, lembrou-se de quando esteve em Florianopólis. Para quem não sabe, é mais ou menos como ser um cineasta iniciante (o Hiro não é um iniciante no mundo da ilustração, pelo contrário, mas mantenho a metáfora assim mesmo) sendo recebido, digamos, por Francis Ford Coppolla; um mergulhador por Jacques Costeau. E ser agraciado com generosidade e simpatia pelo mestre.

É esta generosidade que ambiciono ter, mais do que ser referência em alguma coisa.

Sobre o Nosso Tempo

Sexta-Feira, 12 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Tenho algumas anotações aqui, que esperam ser transformadas em posts, especialmente depois desta pausa de uma semana no blog. Estava com vontade de falar sobre a minha releitura (no sentido de “ler pela segunda vez”, não naquele sentido que artistas e sociólogos dão ao termo) de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, mas percebi que não combinava nem um pouco com a data. Deixemos Conrad para outra hora.

O blog do Polzonoff, que sempre acompanhei, virou um índice para as suas twittadas diárias. E quer saber? Ficou ótimo, tanto que estou até pensando em entrar seriamente para a turma dos twitteiros – ao menos uma vez por dia, e olhe lá. De lá veio o link para um livro cujo título é bastante curioso e está na estante de auto-ajuda da Livraria Cultura: 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo . Sim, todos sabem a aversão que tenho a auto-ajuda, mas, concordo quando ele diz acreditar na sinceridade dos leitores que desejam, simples e naturalmente, melhorar algum aspecto de suas vidas. Mas não foi isso que me atraiu no livro e seu título curioso.

Lembrei-me de um artigo do escritor de ficção científica Isaac Asimov na versão brasileira da revista que leva o seu nome, em que ele narra um encontro com jovens. Um deles teria dito que sua vida seria bem melhor na Grécia ou Roma antigas. O escritor replicou, afirmando que ele teria uma ótima vida como escravo, que era a mais provável “ocupação” que o jovem conseguiria. A saudade por um tempo jamais vivido é uma bobagem, a qual todos sucumbimos, por algum tempo de nossas vidas. Somos bombardeados o tempo todo com afirmações categóricas sobre como tudo era melhor no passado, a vida mais leve e fácil. E não é difícil dar alguma razão a estes argumentos diante das complexidades da nossa existência moderna. O outro lado é igualmente enganoso: acreditar que estamos no melhor dos tempos, o que também é inevitável. A isso gosto de dar o nome de cronocentrismo (termo que tem acepções mais rigorosas na academia, a minha é bem relaxada…), ou seja, a crença de que nossa época é o ápice da suposta evolução da humanidade. Não lembro bem e peço que me corrijam, mas parece-me que Aristóteles teria dito que tudo o que era preciso para facilitar a vida do homem já havia sido inventado e restava-nos a filosofia e o estudo do funcionamento do universo. Do Iluminismo a Revolução Industrial, passando, claro, pelo fim da história pregado por socialistas e liberais (cada um a sua maneira, claro), a ilusão de que o tempo em que vivemos é o último degrau da humanidade é tão comum e perniciosa quanto o saudosismo.

Seja lá qual for a sua opinião sobre nossa era, nem eu ou você podemos escapar a sina de ser um “homem ou mulher de nosso tempo”. Gosto de ler sobre o século XIX, o Renascimento e a Idade Média, mas nada me fará um burguês londrino, um pintor italiano ou um templário. E, como eu não acredito em reencarnação, não fui nenhum destes personagens. Resta-me apenas esta existência, que muita gente diz ser menor e menos interessante do que a maioria das que me precederam. Não concordar com esta postura, parece-me, é o mote deste 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo. Uma lufada de otimismo com olhos céticos.

E as grandes vedetes deste otimismo sem apelação a síndrome de Pollyana são, certamente, as conquistas das quais nem damos conta: tecnologia e ciência e os resultados sociais destas mudanças. Não percebemos, mas talvez estejamos no meio de uma grande revolução no modo como produzimos, consumimos e distribuímos informação. E informação, lembre-se sempre disso, não faz muito tempo, era algo exclusivo de uma parcela quase irrisória da humanidade. Sim, ainda é uma parcela bem raquítica a que tem acesso a tudo isso, mas é o suficiente para criar pressão por liberdades e direitos num ritmo e volume jamais experimentados. É tudo muito confuso? É, bastante, e deixa eu dizer uma coisa: o mundo sempre foi e sempre será uma confusão assustadora.

É preciso ter a consciência do preço que foi pago (em vidas, inclusive e especialmente) para que a humanidade chegasse até aqui; é necessário, sim, conhecer o passado. Mas adorá-lo cegamente nos impede de identificar e usar as gigantescas possibilidades que certos recursos modernos nos oferecem.  Exatamente os recursos tornam a vida hoje tão interessante e excitante – e naturalmente difícil.

Só para citar um exemplo: Desde quando uma pessoa qualquer, como eu, teria leitores de todas as partes graças a um esforço técnico relativamente pequeno? Faz muito pouco tempo que isso se tornou possível – menos de duas décadas.

Começo pela boa ou pela má notícia?

Sexta-Feira, 5 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Duas constatações: Star Trek é um filmaço divertidíssimo, mas falarei dele no quase falecido Todos os Filmes. E o público brasileiro merece um troféu por ter deixado que Kirk e cia. definhassem no cinema, mal suportando duas ou três semanas em cartaz. Verdade que a divulgação foi ruinzinha, verdade também que muita gente acha que Star Trek é ficção científica chata de tiozinho, mas nem isso desculpa a bilheteria muito abaixo da esperada que o filme conseguiu por aqui. Uma pena.

Mas não é só por aqui que o público rejeita, sabe-se lá a razão, produtos pop com um pezinho no fantástico. Apesar do sucesso de Fringe (que bebe com vontade na mesma fonte de Arquivo X), uma das poucas séries que eu acompanhava, Eleventh Hour, foi cancelada logo após uma temporada. Gostava dos seus roteiros, embora alguns fossem meio apressados em sua ambição de amarrar ficção científica com uma certa ligação com a realidade e oferecer uma solução em pouco mais de 40 minutos de drama. Acho que o ator Rufus Sewell (Cidade das Sombras, Tristão e Isolda, O Ilusionista) é bom de serviço e tem a cara de doido meio avoado perfeita para o papel de um consultor científico do FBI. Claro que só o chamavam em casos que envolviam clonagem, radiação, vírus, contaminações, etc. Nada que Fox Mulder também não tivesse de lidar.

O fato é que, mesmo para os produtores que seguem uma cartilha de como não desagradar o público, mais difícil ainda é agradá-lo em cheio. E a indústria de cinema e TV são dependentes, hoje, de sucesso absoluto para se manter de pé. Assim, séries e filmes sofrem uma pressão gigantesca por audiência e acabam cortados sem piedade quando não engolem uma boa fatia de público – ou ibope, como dizemos por aqui.

Felizmente, a bilheteria mundial de Star Trek já autorizou mais um filme da franquia, com (felizmente) a mesma equipe.

Mad World

Sexta-Feira, 5 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Graças ao filme Donnie Darko, de onde vem o nome e a imagem do banner deste blog, conheci a belíssima versão que Gary Jules fez para a música do Tears for Fears, Mad World. O clipe a seguir foi dirigido por Michael Gondry, o mesmo dos filmes Rebobine, Por Favor e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.

Nota: Quem recebe este post por email pode ver o clipe clicando aqui.

All around me are familiar faces
Worn out places
Worn out faces
Bright and early for the daily races
Going no where
Going no where
Their tears are filling up their glasses
No expression
No expression
Hide my head I wanna drown my sorrow
No tomorrow
No tomorrow
And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very very
Mad world
Mad world

Children waiting for the day they feel good
Happy birthday
Happy birthday
And I feel the way that every child should
Sit and listen
Sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me
No one knew me
Hello teacher tell me what’s my lesson
Look right through me
Look right through me
And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very very
Mad world
Mad world
Enlarging your world
Mad world

O cinismo estéril

Quarta-feira, 3 Junho, 2009 por Marcelo Lopes

Confesso ter feito um comentário ridículo sobre a tragédia do vôo 447 com alguns colegas. Pensei a respeito depois e não encontrei boa razão para o que dissera. Talvez eu quisesse fazer parte da turma descolada, que faz piada com qualquer coisa, mesmo que isso signifique ofender tanto a sensibilidade alheia quanto a própria inteligência. Mas há algo ainda mais estranho do que a piada com a tragédia (algo corriqueiro, aliás, do qual não escaparam nem o padre dos balões e Isabella, só para citar fatos recentes): a relativização do horror.

Neste post exemplar, Queda do avião: O cinismo é a nova hipocrisia, Alessandro Martins revela um argumento que muitos estão usando para diminuir a importância do caso e melhorar a imagem que os outros teem deles:

Alguém disse que não faz sentido se sensibilizar pela queda de um avião. Porque, afinal, morrem dúzias de crianças no exato momento em que digito esta frase. De fome, de doença, por violência, por absoluta falta de cuidado. E ninguém diz nada. O que é a queda de um avião diante disso, não é?, dizia esse sujeito e mais uns tantos.

Além de cínica, é uma justificativa francamente canalha porque pretende transformar o sujeito que a anuncia em alguém moralmente superior, ao dar maior atenção às crianças pobres do que a morte de duas dezenas de burgueses. Sim, além de estúpido, é um argumento com um ranço ideológico ultrapassado e cruel, que despreza o direito de indivíduos a vida ao insinuar que algumas mortes são menos desejáveis do que outras, o que equivale a dizer que algumas vidas têm maior valor do que outras. Essa gente insensível, porém considerada culta, avançada e moderna tem sempre uma opinião certeira e sarcástica sobre qualquer assunto, o que pode ser entendido também uma tentativa desesperada de esconder a falta de conhecimento e de cultura com aquela noção vaga e meio adolescente, a tal atitude.

Não é, de forma alguma, um fenômeno brasileiro, mas que viceja por aqui porque nós, nhambiquaras, somos mestres do duplipensar, definido em 1984, de George Orwell, como a capacidade em acreditar em duas coisas contraditórias ao mesmo tempo, ou de agir de forma absolutamente contrária aos próprios princípios e achar formas de conciliá-los sem a menor culpa. Como diria Groucho Marx: “Estes são os meus princípios. Se não gostar, tenho outros que posso lhe apresentar”. Condenamos a corrupção e pagamos para ser liberados de uma multa de trânsito, reclamamos dos impostos mas acreditamos que tudo seria melhor se a imensa carga tributária fosse revertida em serviços para a população. E, finalmente, nos gabamos de nossa sensibilidade e calor humano, mas somos capazes de opiniões cruéis e cínicas sobre vidas alheias. Com toda a tranquilidade do mundo.

O império dos nerds

Quarta-feira, 27 Maio, 2009 por Marcelo Lopes

Voltando ao tema dos nerds, que comemoraram nesta segunda-feira seu dia internacional de orgulho (coincidindo com o Dia da Toalha), descreverei uma ideia bastante herética e (acredito) até mesmo ofensiva a alguns. Somos quase todos nerds. Ao menos, aqui no Bananão, com certeza. Embora, após minha mal-feita defesa, você pode chegar a conclusão de que o nerdismo é uma prática espalhada por quase todos os países.

O que define um nerd ou geek? O consenso geral diz que o sujeito, para ser digno da alcunha de nerd tem que, antes de qualquer outra coisa, ser um especialista apaixonado em alguma área do conhecimento. Não precisa ser algo realmente relevante (embora o seja para ele); pode ser tanto a genealogia dos elfos em O Senhor dos Anéis quanto mecânica quântica. Será considerado mais nerd aquele cidadão cujo traquejo social se resumir a marcar presença muda e quase sempre solitária em algum evento, como uma festa na empresa em que trabalha. Mas, veja bem, esta característica não é essencial a definição nerdística. O importante mesmo é ser um especialista absoluto em alguma coisa, capaz de longas discussões que parecem absurdas a quem observa de fora. E, claro, é preciso ter uma paixão desmedida por este objeto de estudo, a ponto de levá-lo a se reunir em grupos com seus próprios códigos e jargões,  frequentar fóruns e outras searas da internet e, em casos mais extremos, a se vestir de forma padronizada ou até fantasiosa, como se apelasse a uma identificação absoluta com sua obsessão.

Certamente, você está pensando em alguma convenção de trekkers onde desfilam sujeitos barrigudos em uniformes que mal caberiam no William Shatner em sua adolescência ou em uma japonesa vestida de Sailor Moon posando para as câmeras de fãs; talvez num bando de universitários discutindo a teoria das cordas na Caltech ou geeks brigando num fórum, tentando chegar a alguma conclusão sobre qual a melhor distribuição Linux. Você não está enganado, claro. Tudo isso faz parte do universo nerd, e é bem provável que não tenha entendido algumas das coisas que citei. Desculpe-me, mas eu pensei em algo levemente diferente: um bando de torcedores do Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo ou qualquer grande time.

Vejamos. Eles fazem parte de uma turma (imensa, é verdade) com seu próprio código, regras e piadas internas. Assim como os fãs de Star Wars (cujo ícone é o cineasta Kevin Smith) e os de Star Trek, vivem fazendo piada uns com os outros; a maior parte do tempo, amigavelmente, mas conflitos bizarros não são incomuns. Para alguém como eu, afastado do futebol, acompanhar uma calorosa discussão sobre a escalação das seleções brasileiras de 1970 e 1982 é algo tão hermético quanto tentar entender trekkers debatendo as diferenças e semelhanças entre vulcanos e romulanos. Os torcedores também se vestem de forma absurda, exibindo uniformes estranhíssimos em qualquer lugar sem se importar com o que os outros digam ou pensem a seu respeito, exatamente como os fãs que se encontram em eventos vestidos como a Princesa Leia de biquini ou o Alucard de sobretudo e chapéu vermelhos. O grande templo do nerdismo futebolístico é o estádio (e a TV, em segundo lugar); o do nerdismo clássico é a convenção de fãs (e a internet, em segundo lugar).

Agora, abstraia o futebol, já que nós, brasileiros, temos a mania de pensar que o mundo só pensa naquela bolota preta e branca: O basquete nos EUA, o beisebol no Japão, críquete na Índia, surf no Havaí. Ainda antes da cultura pop do século XX, da obsessão pela ciência e/ou pela tecnologia, o esporte foi e é o grande formador de sujeitos obcecados e apaixonados por um estilo, um time, um atleta.

Pois é, talvez você não saiba, mas é um nerd também. Bem-vindo ao clube.

Hoje é o Dia do Orgulho Nerd!

Segunda-feira, 25 Maio, 2009 por Marcelo Lopes

Dessa eu não sabia: inventado na Espanha em 2006 (Dia Del Orgullo Friki), o Dia do Orgulho Nerd espalhou-se obviamente pela internet e agora é comemorado até no Brasil. A data foi escolhida porque há 25 anos estreava o primeiro (que na verdade é o quarto, sejamos nerds) filme de Star Wars nos EUA, o que, de certa forma, é um marco inaugural do nerdismo contemporâneo.  Por isso, tire aquela red shirt de Star Trek do armário, chame os colegas para uma maratona de episódios de The Big Bang Theory e veja este clipe (dica do meu amigo Alex).

Mais TV e menos internet?

Sábado, 23 Maio, 2009 por Marcelo Lopes

“Essa juventude tem que parar de só ficar pendurada na internet. Tem que assistir mais rádio e televisão”

Foi o recado dado pelo ministro das comunicações, Hélio Costa, no 25o. Congresso Brasileiro de Radiodifusão. Pausa para o Dr. Plausível, por favor:

HAHAHAHAHA

É isso: além de governados por gente que viaja o mundo com os cinco meses de salário que pagamos como impostos anuais, eles estão – convenientemente – desconectados da realidade. Enquanto um ministro das comunicações nega a internet, o senador Eduardo Azeredo deseja fazer da mesma rede um big brother e obrigar os provedores a ser cúmplices do estado que a todos vigia.

Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald

Quinta-feira, 21 Maio, 2009 por Marcelo Lopes

Já falei dele aqui, então serei um tanto breve – como aliás e infelizmente têm sido meus últimos posts, cada vez mais raros. É o primeiro livro de Sebald que leio e já estou com Austerlitz na lista das próximas leituras. Mas voltemos a Os Anéis de Saturno. Já virou lugar comum afirmar que o autor implode os limites entre ficção, memória, diário de viagem e reflexão sobre a história da Europa, mas o que faz é ainda mais interessante porque é capaz de criar uma prosa única, deliciosa e melancólica.

Em Os Anéis de Saturno , Sebald passeia por Suffolk, na costa leste da Inglaterra, e, enquanto passeia por lugares conecta-os a Thomas Browne, Joseph Conrad, a imperatriz viúva Tz’u-hsi, a história medonha da colonização do Congo Belga. Descreve a beleza das casas de antigas famílias arruinadas pela guerra, pela ambição ou simplesmente pelo tempo. Fala de cidades cujo auge se esgotou séculos atrás, do qual hoje resta apenas o passado já quase esquecido. Em Os Anéis de Saturno, a História e a vida íntima estão entrelaçados pela calamidade e pela certeza absoluta da transitoriedade. Ao resgatar episódios pouco conhecidos ao lado de eventos já destrinchados pelos historiadores, Sebald os coloca num mesmo patamar e os equipara a aparente inutilidade da nossa existência, a nossa ilusão de eternidade. As fotos que pontuam o livro são fascinantes; algumas completam o texto, outras, parecem contradizê-lo, mas têm uma mesma, digamos, textura, que perpassa toda a obra – em imagens e palavras.

São vários os momentos em que esta amargura conduzida por uma uma prosa belíssima, que justifica a afirmação da quarta capa, retirada do New York Times (“Este livro é como um sonho que você quer que dure para sempre”), nos dá pistas sobre a derrocada inevitável de qualquer pretensão, vida ou civilização. Da paisagem rural de Suffolk a cidade que é devorada lentamente pelas ondas agora libertas do mar à tempestate apocalíptica que devasta a natureza da região em que o autor residia. Mas talvez o episódio mais emblemático (ou o que mais me enterneceu) é o da família Ashbury. Graças a um cartaz pregado numa loja, Sebald vai se hospedar na antiga casa da família. A princípio, eles parecem entregues, todos eles, a alguma forma branda e delicadíssima de loucura, todos envolvidos em projetos que não teriam fim ou objetivo. Mas, depois de convidado a assistir a exibição dos slides com as fotos do passado dos Ashbury (“Gostaria de saber como as coisas eram aqui?”, pergunta-lhe um dos irmãos), entendemos que eles estão presos ao tempo; foram, como se diz aqui em Minas, ficando por aquela casa, sem maiores perspectivas, as posses acuadas pela própria história. O que parecia demência se mostra imediatemnte seu oposto: lucidez tardia, entristecida e resoluta. É de dar um nó na garganta quando o autor diz que vai partir e percebe que, sem notar, alimentou a esperança daquela solitária família de ter alguém mais na casa.

W.G. Sebald faleceu em 2001, num acidente, deixando, entre outros, os livros Os Anéis de Saturno, Os Imigrantes, Vertigo e Austerlitz.