Archive for abril \30\UTC 2007

Sonhos de Einstein

segunda-feira, 30 abril, 2007

Aliar rigor científico e boa literatura é uma tarefa ingrata. Como disse o editor de Stephen Hawking, enquanto ele escrevia Uma Breve História do Tempo, cada equação no texto significaria menos leitores. Geralmente, quando pensamos nesta combinação, nos lembramos de ficção científica (já antevejo a cara de nojo de alguns leitores do blog; paciência) e seus mundos rigorosamente construídos habitados por personagens rasos. Os apreciadores de FC costumam dividi-la em dois sub-gêneros: hard e soft. A ficção hard aposta em antecipações ou especulações cientificamente plausíveis, e boa parte de seu charme, para seus leitores, está no rigor de suas predições. Ao contrário, os livros soft tendem a usar a possibilidade científica como um pano de fundo sobre o qual se movem os personagens. Na verdade, a maior parte da FC que assistimos no cinema está mais próxima desta segunda vertente, por razões óbvias: há menos PHDs em física quântica interessados em ficção do que adolescentes ávidos por efeitos especiais e ação. Esta introdução serve apenas para dizer que Sonhos de Einstein, livro de Alan Lightman, simplesmente não se encaixa em nenhuma das duas categorias. E por isso mesmo é tão bom.

Lightman parte de uma possibilidade: e se Einstein tivesse sonhado com as mais diversas formas possíveis do tempo enquanto elaborava sua Teoria da Relatividade Geral e trabalhava num escritório de patentes, em 1905? Ele teria imaginado as conseqüências das dimensões que seu inconsciente criava sempre sobre as pessoas que ele via no seu dia-a-dia. A mulher que compra queijo no mercado toda sexta-feira, um casal que hesita em se separar, um pai que abraça sua filha desejando que o momento dure para sempre. Este é um exemplo típico da prosa límpida de Lightman,de seus personagens sem nome e sua capacidade de capturar a delicadeza e a tragédia da vida humana. A cada pequeno conto, somos apresentados a uma possibilidade, a um mundo distinto: um em que o tempo corre para trás, outro em que as dimensões de tempo e espaço se inverteram, mais um onde o tempo não flui – salta aos trancos. Nestes universos possíveis, a vida pode ser aterrorizante, complicada, leve ou quase impossível. É inevitável que a qualidade de seus relatos varie bastante; alguns ultrapassam a linha da fragilidade e resvalam na breguice escrita, mas, felizmente, o resultado final é a seu favor.

De qualquer forma, não seria correto dizer que Lightman impregna seu texto de rigor científico; sua prosa flerta com o lado soft da FC, embora, ao mesmo tempo, exija que o leitor tenha uma mínima noção da tão badalada Teoria Geral da Relatividade – nada que a leitura de uma ou duas SuperInteressantes de uns dez anos atrás não resolva. O caráter episódico e ligeiramente repetitivo dos contos pode ser um tanto cansativo. Mas há um remédio para isso: basta lê-los, um ou dois por dia, saboreando cada relato com calma. Na verdade, acredito mesmo que seja esta a forma ideal de ler um livro como Sonhos de Einstein, e provavelmente a que Lightman teria preferido.

A Internet não nos fará melhores

sábado, 28 abril, 2007

Desde os tempos da saudosa revista (impressa) internet.br, acompanho a movimentação em torno da web. Sou da era dos mircs (para pessoas mais jovens parecerá o nome de algum Pokémon), da guerra dos browsers, do Mandic, do Ig e BRFree. Não tenho apego a romantismos saudosistas, então posso afirmar que aquele tempo teve seu lugar e é melhor que não volte de forma alguma. Bolha da internet? Não, obrigado.

Sou um profissional de TI; desenvolvo sites e sistemas que têm na web seu ambiente. Mas sempre tive um certo interesse no impacto do uso da tecnologia na vida das pessoas. Esqueça os sociólogos, gurus, geeks: ninguém entende disso mais do que a Apple. O problema é que ela usa este conhecimento para ganhar dinheiro e, por isso, ninguém lhe dá o crédito devido. Ela produz equipamentos simples, de uso objetivo, bonitos e que todo mundo quer. Em segundo lugar, vem o Google, com um serviço que pode ser resumido a uma área de edição e um botão transformados em portais para todos os dados (não, não a informação, apenas aos dados; explico a seguir) que ele consiga catalogar. Estas empresas (e muitas outras) são bem sucedidas e consideradas um sinônimo de inovação por um motivo incrivelmente simples; elas não acreditam que a internet tenha feito, ou ainda fará, com que sejamos mais inteligentes, mais interessantes ou mais gostosos.

A maior ilusão que os entusiastas da internet e muitos dos seus usuários alimentou e ainda alimenta é esta. Mas a dura verdade é que a rede está submetida às mesmas maravilhas e misérias de qualquer outro empreendimento humano. Diante dela, parecemo-nos com um paranóico maníaco-depressivo: ou a enxergamos como a Canaã intelectual e tecnológica que coroará os milhares de anos de evolução humana ou como um repositório quase infinito de bizarrices e inutilidades. E esta polarização tem sido a mola de quase toda novidade, a oposição entre rejeição e aceitação igualmente cegas. No meio deste embate, as pessoas acabam sempre encontrando os melhores meios de usar aquelas “coisas novas e assombrosas” para tornar sua vidinha cotidiana mais fácil ou confortável. Poucos, pouquíssimos são os que fazem uso da internet para ler mais Shakespeare, entrar em contato com outras culturas e credos, encontrar quem saiba mais e melhor sobre algum assunto que lhe interesse e lê-lo com atenção.

Há duas razões básicas para isso: primeiro, porque, com ou sem internet, sempre foi e será assim. E não há nada de errado nisso, afinal, o que queremos, antes de qualquer outra coisa,é resolver nossos problemas diários, o que vale mesmo para quem estuda grego madrugadas afora. Em segundo lugar, e agora estamos falando especificamente da internet, ela não é, ao contrário do que todos dizem, um gigantesco armazém de informações – informação é um dado com valor.

Um dado é apenas isso: 42, o número 42. Mas se eu digo que 42 é a resposta para a Grande Pergunta Sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais, estou dando-lhe um valor e elevando-o a nobre categoria de informação. Que 42 era o número favorito de Ayrton Senna e que, ao inverter os algarismos, deu munição ao eterno gozador Nelson Piquet para encher-lhe a paciência. Que, em japonês, os algarismos 4 e 2, pronunciados juntamente, formam a palavra “morte”. Que 42% dos blogueiros do Tibete linkaram o vídeo do Joseph Climber em seus blogs no ano de 2006. Na verdade, mesmo estes dados podem não lhe dizer coisa alguma. A menos que você seja um budista conectado na rede, duvido que venha a ter algum interesse nos internautas do Tibete. A tal “informação” nada mais é que um “dado” para você. E é disso que a internet está abarrotada; nosso suposto estresse não vem do excesso de informação, como gostamos de acreditar, mas da nossa incapacidade de distinguir o que realmente tem valor nesta enxurrada de dados a que nos expomos cotidianamente.

As pessoas usam a internet para brigar por motivos fúteis, defender uma celebridade desprezível, pagar suas contas, arrumar um parceiro sexual, se casar, pesquisar sobre física quântica, discutir fetiches bizarros, piratear filmes, comprar um liquidificador. Se nós queremos que a internet sirva ao homem em (quase) todas as suas atividades, é preciso abandonar a pretensão de que somos melhores por causa dela.

Citando o comissário Danilov, personagem de Joseph Fiennes no ótimo Círculo de Fogo (Enemy at the Gates), diante do seu fracasso pessoal e ideológico ao lado da União Soviética que resistia às investidas de Hitler: “Não existe um homem novo”. Por mais impressionantes que sejam nossas conquistas “sócio-tecnológicas”, continuaremos a ser os mesmos. Felizmente.

THX 1138

quarta-feira, 18 abril, 2007

Adaptado de um curta-metragem de sua autoria, THX 1138 foi o primeiro filme produzido pela recém-criada Zoetrope, de Francis Ford Coppola, em 1971. Ele pertence a categoria de produções de FC/Fantasia em que a criatividade supera o orçamento modesto – como Gattaca e La Jetée, que originou Os Doze Macacos. Toda a história é um clichê explorado a exaustão pelo gênero “distopia futurista”: numa sociedade massificada que vive sob o jugo de um estado opressor, alguns indivíduos se rebelam e tentam fugir do seu controle. A grande sacada de Lucas aqui é (pasmem) a sua direção: sempre apostando em ângulos fechados, closes nos atores e pouca ênfase no maquinário, ele transmite perfeitamente a sensação de claustrofobia que o roteiro exige. Ainda abusando da cor branca nas roupas e cenários, transforma um cenário asséptico em uma sala dos horrores contínua. A trama não segue exatamente o padrão Syd Field de história, ela parece se desenvolver aos soluços, permitindo mesmo uma digressão narrativa que revela um pouco mais do mundo de THX, mas pouco acrescenta a sua tentativa de fuga – o momento em que SEN 5241 foge pelo metrô e vai parar no estúdio onde são gravadas as mensagens do “grande irmão”.
É curioso ainda notar que THX 1138 influenciou outros diretores. A perseguição final, envolvendo motos e um fantástico carro de polícia é incrivelmente parecida com a que veríamos dez anos mais tarde no Mad Max de George Miller – incluindo câmeras no nível do asfalto, logo na frente dos veículos. A atmosferia asséptica, perfeitinha, com certeza foi referência para os criadores do pipocão de Michael Bay, A Ilha, de 2005. A cena final, com o típico deslumbramento-pseudo-filosófico da FC também aparece numa animação independente japonesa de 2006, Pale Coccon. Claro, George Lucas não nega suas origens: THX se tornou o nome do sistema de som estéreo que sua equipe criou e espalhou em salas ao redor do mundo. Uma das grandes curiosidades deste filme está na seqüência de fuga: enquanto Robert Duvall dirige o carro de polícia, podemos ouvir no rádio que um “wookie foi atropelado”. Eu nem faço idéia do que Lucas quis dizer com isso em 1971 (acho que nem ele), mas em Guerra nas Estrelas, Chewbacca pertence a espécie wookie. E o afetado C3PO parece uma revisão bondosa dos policiais robóticos de THX 1138.

A versão original de THX não existe mais em DVD; apenas as TVs a cabo ainda o transmitem de vez em quando. Lucas, assim como fez com o seu onipresente Guerra nas Estrelas, resolveu maquiá-lo com os recursos tecnológicos atuais. Em uma entrevista recente (cujo link eu perdi), ele faz uma afirmação provocadora quando lhe perguntam o porquê de tornar seus filmes ainda mais “irreais”, dizendo que nada no cinema é real: história, personagens, cenário. E como ele ainda não concluiu, ou como reza o clichê, abandonou, suas obras, ele tem todo o direito de “mexer nelas”. Para os cinéfilos, como eu, pode parecer uma prática bizarra, mas talvez seja purismo também. Afinal de contas, quantos escritores revisam suas obras e publicam versões anos depois de publicadas pela primeira vez? Este é um debate que ainda vai render muitas noites de bate-boca entre nerds e cinéfilos.
O problema é que o bom-mocismo de George Lucas e de seu comparsa no cinemão dos anos 70-80, Steven Spielberg, acaba mutilando trechos interessantes dos seus filmes: o Han Solo que atira depois em Guerra nas Estrelas e os agentes do FBI desarmados em E.T. Um bom-mocismo que não encontra lugar em THX 1138, o que talvez explique porque este filme de ficção distópica dos anos 70 sobreviveu bem a longa passagem dos anos.

Cotação: ****

Como criar uma história de terror

quinta-feira, 12 abril, 2007

Uma das minhas ambições irrealizadas é escrever uma história de terror das boas; daquelas que te acompanham por muito tempo após ter sido lida, suficientemente perturbadora a ponto de afetar verdadeiramente um adulto – adolescentes fingem se assustar com qualquer bobagem, não valem como referência.

Pois bem: O Elton resumiu tudo num post fascinante. Ele usa o ótimo filme de Polanski, O Bebê de Rosemary, como exemplo. Recentemente, me entreguei novamente a assistir O Iluminado de Kubrick só para ver se o filme ainda conseguiria me perturbar – sim!

De volta para o futuro

quarta-feira, 11 abril, 2007

Reler um livro ou reassistir a um filme que já foi um dos nossos favoritos anos atrás é quase sempre uma experiência assustadora. Geralmente, percebe-se que aquela obra “envelheceu”, o que, na prática, quer dizer que quem ficou velho fomos nós (perdoem o excesso de “quês”…). Um dos livros que lia com mais prazer na adolescência era O Avesso e o Direito, de Albert Camus. Depois de O Estrangeiro ou A Peste, para mim O Avesso e o Direito se transformou no que ele realmente é: um esboço, um livro de notas para avanços futuros. Esta “progressão” é normal e desejável; não se espera que alguém continue eternamente apreciando suas preferências culturais juvenis aos 40.

Há exceções, claro, e nenhum de nós está livre delas. Na verdade, encontramos algum prazer naquilo que nos formou por, antes de mais nada, uma forte ligação afetiva, a memória de eventos e pessoas queridas. A etapa seguinte é a idealização, a capacidade de ignorar todos os aspectos negativos do próprio passado, criando uma história positiva de nossos feitos e erros. Mas não é possível criar uma imagem lisonjeira de si mesmo sem recriar o mundo ao nosso redor; assim, em nosso tempo, tudo era melhor: os desenhos animados, os pais, as meninas, o sabor da comida, o cheiro do pão na padaria da esquina. Justificamos nossa existência perante os mais jovens com a arrogância – por vezes carinhosa, mas quase sempre violenta – presente na afirmação de que “o meu mundo era melhor do que o seu”.

Em uma cultura de juventude prolongada até o limite do ridículo, sofremos de uma patética “síndrome do saudosismo precoce”. É preciso congelar os valores superficiais da nossa experiência o quanto antes. Daí que moleques de trinta anos (sim, é o meu caso) lotam festas dos anos 80, só ouvem Legião Urbana e, se lessem alguma coisa, ainda discutiriam O Rapto do Garoto de Ouro, da coleção Vaga-Lume, com os amigos da mesma geração. Não haveria nada de errado em cultivar nossas experiências formadoras, a cultura que nos cercava, se tivéssemos nos libertado delas – ainda que parcialmente, o que seria natural.

Uma pesquisa recentemente divulgada afirma que perdemos o interesse pelo “novo” a partir dos 20 a 25 anos. Novos sons, livros, imagens, perdem o encanto pouco tempo depois. É uma veia-verdade, claro. Nem é preciso relacionar quantos conhecemos que aprenderam uma nova língua, descobriram escritores que jamais haviam lido, mudaram o rumo de suas carreiras depois dos 40, 50, 60… Talvez a superficialidade das próprias “cobaias” tenha induzido o resultado da pesquisa, que concentrou-se nas habilidades e não nos princípios e valores de cada um.

Como disse o jornalista Reinaldo Azevedo recentemente, e eu tendo a concordar com ele, é quase impossível que alguém possa mudar seus princípios depois de certa idade. Há um tempo limite para isso – que pode variar de indivíduo para indivíduo – , mas os valores são uma base íntima sobre a qual solidificam-se interpretações, atitudes, um modo único de ver e entender o mundo. Renunciar a alguns (ou todos) destes valores significa reconstruir, dolorosamente, um edifício intelectual e espiritual. A maioria das pessoas não tem a menor consciência de que a causa de parte de seu sofrimento está na tentativa inconsciente de se “recriar o mundo”, geralmente após uma perda ou trauma.

Intelectual e espiritualmente falando, há que se rejeitar todo um esquema de idéias anterior, e substituí-lo por outro. É o que ocorre quando alguém adere a uma nova religião, com sua própria mitologia, ou ao se “converter” de marxista a liberal, por exemplo.

No entanto, se a idade já tornava este processo penoso e, depois de algum tempo, quase impossível, o nosso atual culto ao passado está se tornando tão onipresente que, em breve, ninguém com mais de 15 anos vai se permitir a exposição a valores diferentes. Como é de praxe, o que já é ruim no mundo todo, será ainda pior no Brasil, considerando-se o nível ridículo de educação a que um adolescente tupiniquim é submetido.

Apenas para encerrar com uma nota irônica, o nome deste blog é inspirado no filme Donnie Darko, produzido em 2001, mas cuja história se passa em 1988. Há INXS, Echo and the Bunnymen, Joy Division e outros ícones oitentistas na trilha sonora, exatamente o que este moleque de trinta anos ouvia à época.

300

quarta-feira, 4 abril, 2007

Antes de mais nada, o filme é bom sim. Ponto.

300 é a adaptação dos quadrinhos de Frank Miller, orquestrada pelo diretor dos zumbis, Zack Snyder. Tecnicamente, não há nada que não tenhamos visto em Sin City, por exemplo. Ou seja, atmosfera de quadrinhos com a ajuda de computação gráfica. Mas há diferenças: Sin City se passa numa metrópole “cartunesca”, povoada por homens durões e mulheres belas e duronas. A gente sabe que a cidade não existe, ou existiu; no máximo, a vemos como uma versão pervertida de Gotham City em que ninguém usa cueca em cima da calça e sai batendo em vagabundo noite adentro. É naturalmente surreal, caricato e irresistível. Por outro lado, 300 sofre do peso épico; o filme é baseado num fato histórico, mas busca libertar-se dele e tornar-se legítimo acrescentando e retirando elementos que o tornam suficientemente fantasioso para não ser levado a sério. A violência é estilizada, espetáculo de câmeras lentas e detalhes anatômicos de embrulhar o estômago dos mais sensíveis; para completar o clima de irrealidade, a trilha sonora tem guitarras pesadas sobre o tema de batalha típico dos épicos. Vale registrar que o sangue jorra numa imitação quase exata dos desenhos de Frank Miller e das cores pintadas por sua esposa, Lynn Varley, lembrando bastante o efeito no Zatoichi de Takeshi Kitano.

Em 300, tudo é superlativo: Xerxes tem quase 3 metros de altura, os elefantes parecem os mumâkil do Senhor dos Anéis, há guerreiros gigantes e deformados para todos os gostos, um rinocerante tem as dimensões de um microônibus. Os espartanos são capazes de, com a ajuda da inteligência e do uso do terreno, segurar um exército de dezenas, centenas de milhares com força e tenacidade super-humanas. Não há lugar para meio-termo aqui, e o filme flerta com o over o tempo todo, no limite entre o bacana e o brega. Certamente, o ultrapassa uma ou outra vez, mas a narrativa não nos permite pensar muito a respeito (na verdade, até permite; a trama com a rainha Gorgo impõe uma pausa na carnificina), o que acaba contando pontos a seu favor. É também um filme de slogans, não exatamente de diálogos: “flechas cobrirão o céu”, “jantar no inferno”, “não será rápido”. O engraçado é perceber que este tipo de diálogo-slogan-berrado foi explicitado nos cartazes da produção.

O onipresente (na comunidade de quadrinhos brasileira) Jotapê escreveu, uma vez, que o fascínio dos personagens de Miller se apoiava em dois extremos: nas suas capacidades  físicas sobre-humanas e na representação dos seus sentimentos. São sujeitos capazes de saltar grandes altitudes, ser atropelados pelo mesmo carro três vezes e matar dezenas por uma mulher – como o Marv de Sin City. Leônidas é macho até debaixo de uma chuva de flechas, lutando contra um überimortal ou encarando um rei-deus. Há, nesta explicitude, neste exagero, uma identificação imediata com boa parte do público, que vê o filme como uma novela das oito em que o mocinho decapita seus adversários para ficar com a mocinha – que também não faz por menos e estripa seus desafetos antes do final. 300 vai mais ou menos por aí – não surpreende que esteja agradando tanto a homens quanto a mulheres (claro que um bando de sujeitos marombados e de sunga ajuda o público feminino a engolir as toneladas de sangue que dão piruetas no ar a cada espada enfiada num persa).

Cotação: ****

Zerando o contador

segunda-feira, 2 abril, 2007

Alguns anos na net, sem muito afinco, já tive site pessoal no hpg e blog no blogspot. Decidi parar tudo e começar de novo por aqui. Casa nova, livros dentro das caixas, cheiro de tinta nas paredes, apreciando a vista, reconhecendo os vizinhos. Nem preciso dizer que me sinto bem. Ouvindo Mad World na versão de Gary Jules para combinar com o nome do blog. Sejam bem-vindos e espero que eu também aprecie a visita.