300

Antes de mais nada, o filme é bom sim. Ponto.

300 é a adaptação dos quadrinhos de Frank Miller, orquestrada pelo diretor dos zumbis, Zack Snyder. Tecnicamente, não há nada que não tenhamos visto em Sin City, por exemplo. Ou seja, atmosfera de quadrinhos com a ajuda de computação gráfica. Mas há diferenças: Sin City se passa numa metrópole “cartunesca”, povoada por homens durões e mulheres belas e duronas. A gente sabe que a cidade não existe, ou existiu; no máximo, a vemos como uma versão pervertida de Gotham City em que ninguém usa cueca em cima da calça e sai batendo em vagabundo noite adentro. É naturalmente surreal, caricato e irresistível. Por outro lado, 300 sofre do peso épico; o filme é baseado num fato histórico, mas busca libertar-se dele e tornar-se legítimo acrescentando e retirando elementos que o tornam suficientemente fantasioso para não ser levado a sério. A violência é estilizada, espetáculo de câmeras lentas e detalhes anatômicos de embrulhar o estômago dos mais sensíveis; para completar o clima de irrealidade, a trilha sonora tem guitarras pesadas sobre o tema de batalha típico dos épicos. Vale registrar que o sangue jorra numa imitação quase exata dos desenhos de Frank Miller e das cores pintadas por sua esposa, Lynn Varley, lembrando bastante o efeito no Zatoichi de Takeshi Kitano.

Em 300, tudo é superlativo: Xerxes tem quase 3 metros de altura, os elefantes parecem os mumâkil do Senhor dos Anéis, há guerreiros gigantes e deformados para todos os gostos, um rinocerante tem as dimensões de um microônibus. Os espartanos são capazes de, com a ajuda da inteligência e do uso do terreno, segurar um exército de dezenas, centenas de milhares com força e tenacidade super-humanas. Não há lugar para meio-termo aqui, e o filme flerta com o over o tempo todo, no limite entre o bacana e o brega. Certamente, o ultrapassa uma ou outra vez, mas a narrativa não nos permite pensar muito a respeito (na verdade, até permite; a trama com a rainha Gorgo impõe uma pausa na carnificina), o que acaba contando pontos a seu favor. É também um filme de slogans, não exatamente de diálogos: “flechas cobrirão o céu”, “jantar no inferno”, “não será rápido”. O engraçado é perceber que este tipo de diálogo-slogan-berrado foi explicitado nos cartazes da produção.

O onipresente (na comunidade de quadrinhos brasileira) Jotapê escreveu, uma vez, que o fascínio dos personagens de Miller se apoiava em dois extremos: nas suas capacidades  físicas sobre-humanas e na representação dos seus sentimentos. São sujeitos capazes de saltar grandes altitudes, ser atropelados pelo mesmo carro três vezes e matar dezenas por uma mulher – como o Marv de Sin City. Leônidas é macho até debaixo de uma chuva de flechas, lutando contra um überimortal ou encarando um rei-deus. Há, nesta explicitude, neste exagero, uma identificação imediata com boa parte do público, que vê o filme como uma novela das oito em que o mocinho decapita seus adversários para ficar com a mocinha – que também não faz por menos e estripa seus desafetos antes do final. 300 vai mais ou menos por aí – não surpreende que esteja agradando tanto a homens quanto a mulheres (claro que um bando de sujeitos marombados e de sunga ajuda o público feminino a engolir as toneladas de sangue que dão piruetas no ar a cada espada enfiada num persa).

Cotação: ****

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