De volta para o futuro

Reler um livro ou reassistir a um filme que já foi um dos nossos favoritos anos atrás é quase sempre uma experiência assustadora. Geralmente, percebe-se que aquela obra “envelheceu”, o que, na prática, quer dizer que quem ficou velho fomos nós (perdoem o excesso de “quês”…). Um dos livros que lia com mais prazer na adolescência era O Avesso e o Direito, de Albert Camus. Depois de O Estrangeiro ou A Peste, para mim O Avesso e o Direito se transformou no que ele realmente é: um esboço, um livro de notas para avanços futuros. Esta “progressão” é normal e desejável; não se espera que alguém continue eternamente apreciando suas preferências culturais juvenis aos 40.

Há exceções, claro, e nenhum de nós está livre delas. Na verdade, encontramos algum prazer naquilo que nos formou por, antes de mais nada, uma forte ligação afetiva, a memória de eventos e pessoas queridas. A etapa seguinte é a idealização, a capacidade de ignorar todos os aspectos negativos do próprio passado, criando uma história positiva de nossos feitos e erros. Mas não é possível criar uma imagem lisonjeira de si mesmo sem recriar o mundo ao nosso redor; assim, em nosso tempo, tudo era melhor: os desenhos animados, os pais, as meninas, o sabor da comida, o cheiro do pão na padaria da esquina. Justificamos nossa existência perante os mais jovens com a arrogância – por vezes carinhosa, mas quase sempre violenta – presente na afirmação de que “o meu mundo era melhor do que o seu”.

Em uma cultura de juventude prolongada até o limite do ridículo, sofremos de uma patética “síndrome do saudosismo precoce”. É preciso congelar os valores superficiais da nossa experiência o quanto antes. Daí que moleques de trinta anos (sim, é o meu caso) lotam festas dos anos 80, só ouvem Legião Urbana e, se lessem alguma coisa, ainda discutiriam O Rapto do Garoto de Ouro, da coleção Vaga-Lume, com os amigos da mesma geração. Não haveria nada de errado em cultivar nossas experiências formadoras, a cultura que nos cercava, se tivéssemos nos libertado delas – ainda que parcialmente, o que seria natural.

Uma pesquisa recentemente divulgada afirma que perdemos o interesse pelo “novo” a partir dos 20 a 25 anos. Novos sons, livros, imagens, perdem o encanto pouco tempo depois. É uma veia-verdade, claro. Nem é preciso relacionar quantos conhecemos que aprenderam uma nova língua, descobriram escritores que jamais haviam lido, mudaram o rumo de suas carreiras depois dos 40, 50, 60… Talvez a superficialidade das próprias “cobaias” tenha induzido o resultado da pesquisa, que concentrou-se nas habilidades e não nos princípios e valores de cada um.

Como disse o jornalista Reinaldo Azevedo recentemente, e eu tendo a concordar com ele, é quase impossível que alguém possa mudar seus princípios depois de certa idade. Há um tempo limite para isso – que pode variar de indivíduo para indivíduo – , mas os valores são uma base íntima sobre a qual solidificam-se interpretações, atitudes, um modo único de ver e entender o mundo. Renunciar a alguns (ou todos) destes valores significa reconstruir, dolorosamente, um edifício intelectual e espiritual. A maioria das pessoas não tem a menor consciência de que a causa de parte de seu sofrimento está na tentativa inconsciente de se “recriar o mundo”, geralmente após uma perda ou trauma.

Intelectual e espiritualmente falando, há que se rejeitar todo um esquema de idéias anterior, e substituí-lo por outro. É o que ocorre quando alguém adere a uma nova religião, com sua própria mitologia, ou ao se “converter” de marxista a liberal, por exemplo.

No entanto, se a idade já tornava este processo penoso e, depois de algum tempo, quase impossível, o nosso atual culto ao passado está se tornando tão onipresente que, em breve, ninguém com mais de 15 anos vai se permitir a exposição a valores diferentes. Como é de praxe, o que já é ruim no mundo todo, será ainda pior no Brasil, considerando-se o nível ridículo de educação a que um adolescente tupiniquim é submetido.

Apenas para encerrar com uma nota irônica, o nome deste blog é inspirado no filme Donnie Darko, produzido em 2001, mas cuja história se passa em 1988. Há INXS, Echo and the Bunnymen, Joy Division e outros ícones oitentistas na trilha sonora, exatamente o que este moleque de trinta anos ouvia à época.

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Uma resposta to “De volta para o futuro”

  1. Marcio Says:

    Marcelo,

    Mais um post super inteligente e bem colocado! Me identifiquei bastante com o texto, talvez por ja estar na casa do 30…bom na verdade quase na casa dos 40….bem, acho que de certa forma é normal nos apergamos a vários momentos do passado, especialmente os bons, pois afinal de contas somos a soma de tudo que já nos aconteceu…mas o mais legal foi seu alerta sobre não nos fecharmos no nosso “mundinho” de experiências passadas e não nos abrirmos pro novo!
    Valeu, forte abraço !!

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