THX 1138

Adaptado de um curta-metragem de sua autoria, THX 1138 foi o primeiro filme produzido pela recém-criada Zoetrope, de Francis Ford Coppola, em 1971. Ele pertence a categoria de produções de FC/Fantasia em que a criatividade supera o orçamento modesto – como Gattaca e La Jetée, que originou Os Doze Macacos. Toda a história é um clichê explorado a exaustão pelo gênero “distopia futurista”: numa sociedade massificada que vive sob o jugo de um estado opressor, alguns indivíduos se rebelam e tentam fugir do seu controle. A grande sacada de Lucas aqui é (pasmem) a sua direção: sempre apostando em ângulos fechados, closes nos atores e pouca ênfase no maquinário, ele transmite perfeitamente a sensação de claustrofobia que o roteiro exige. Ainda abusando da cor branca nas roupas e cenários, transforma um cenário asséptico em uma sala dos horrores contínua. A trama não segue exatamente o padrão Syd Field de história, ela parece se desenvolver aos soluços, permitindo mesmo uma digressão narrativa que revela um pouco mais do mundo de THX, mas pouco acrescenta a sua tentativa de fuga – o momento em que SEN 5241 foge pelo metrô e vai parar no estúdio onde são gravadas as mensagens do “grande irmão”.
É curioso ainda notar que THX 1138 influenciou outros diretores. A perseguição final, envolvendo motos e um fantástico carro de polícia é incrivelmente parecida com a que veríamos dez anos mais tarde no Mad Max de George Miller – incluindo câmeras no nível do asfalto, logo na frente dos veículos. A atmosferia asséptica, perfeitinha, com certeza foi referência para os criadores do pipocão de Michael Bay, A Ilha, de 2005. A cena final, com o típico deslumbramento-pseudo-filosófico da FC também aparece numa animação independente japonesa de 2006, Pale Coccon. Claro, George Lucas não nega suas origens: THX se tornou o nome do sistema de som estéreo que sua equipe criou e espalhou em salas ao redor do mundo. Uma das grandes curiosidades deste filme está na seqüência de fuga: enquanto Robert Duvall dirige o carro de polícia, podemos ouvir no rádio que um “wookie foi atropelado”. Eu nem faço idéia do que Lucas quis dizer com isso em 1971 (acho que nem ele), mas em Guerra nas Estrelas, Chewbacca pertence a espécie wookie. E o afetado C3PO parece uma revisão bondosa dos policiais robóticos de THX 1138.

A versão original de THX não existe mais em DVD; apenas as TVs a cabo ainda o transmitem de vez em quando. Lucas, assim como fez com o seu onipresente Guerra nas Estrelas, resolveu maquiá-lo com os recursos tecnológicos atuais. Em uma entrevista recente (cujo link eu perdi), ele faz uma afirmação provocadora quando lhe perguntam o porquê de tornar seus filmes ainda mais “irreais”, dizendo que nada no cinema é real: história, personagens, cenário. E como ele ainda não concluiu, ou como reza o clichê, abandonou, suas obras, ele tem todo o direito de “mexer nelas”. Para os cinéfilos, como eu, pode parecer uma prática bizarra, mas talvez seja purismo também. Afinal de contas, quantos escritores revisam suas obras e publicam versões anos depois de publicadas pela primeira vez? Este é um debate que ainda vai render muitas noites de bate-boca entre nerds e cinéfilos.
O problema é que o bom-mocismo de George Lucas e de seu comparsa no cinemão dos anos 70-80, Steven Spielberg, acaba mutilando trechos interessantes dos seus filmes: o Han Solo que atira depois em Guerra nas Estrelas e os agentes do FBI desarmados em E.T. Um bom-mocismo que não encontra lugar em THX 1138, o que talvez explique porque este filme de ficção distópica dos anos 70 sobreviveu bem a longa passagem dos anos.

Cotação: ****

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