A Internet não nos fará melhores

Desde os tempos da saudosa revista (impressa) internet.br, acompanho a movimentação em torno da web. Sou da era dos mircs (para pessoas mais jovens parecerá o nome de algum Pokémon), da guerra dos browsers, do Mandic, do Ig e BRFree. Não tenho apego a romantismos saudosistas, então posso afirmar que aquele tempo teve seu lugar e é melhor que não volte de forma alguma. Bolha da internet? Não, obrigado.

Sou um profissional de TI; desenvolvo sites e sistemas que têm na web seu ambiente. Mas sempre tive um certo interesse no impacto do uso da tecnologia na vida das pessoas. Esqueça os sociólogos, gurus, geeks: ninguém entende disso mais do que a Apple. O problema é que ela usa este conhecimento para ganhar dinheiro e, por isso, ninguém lhe dá o crédito devido. Ela produz equipamentos simples, de uso objetivo, bonitos e que todo mundo quer. Em segundo lugar, vem o Google, com um serviço que pode ser resumido a uma área de edição e um botão transformados em portais para todos os dados (não, não a informação, apenas aos dados; explico a seguir) que ele consiga catalogar. Estas empresas (e muitas outras) são bem sucedidas e consideradas um sinônimo de inovação por um motivo incrivelmente simples; elas não acreditam que a internet tenha feito, ou ainda fará, com que sejamos mais inteligentes, mais interessantes ou mais gostosos.

A maior ilusão que os entusiastas da internet e muitos dos seus usuários alimentou e ainda alimenta é esta. Mas a dura verdade é que a rede está submetida às mesmas maravilhas e misérias de qualquer outro empreendimento humano. Diante dela, parecemo-nos com um paranóico maníaco-depressivo: ou a enxergamos como a Canaã intelectual e tecnológica que coroará os milhares de anos de evolução humana ou como um repositório quase infinito de bizarrices e inutilidades. E esta polarização tem sido a mola de quase toda novidade, a oposição entre rejeição e aceitação igualmente cegas. No meio deste embate, as pessoas acabam sempre encontrando os melhores meios de usar aquelas “coisas novas e assombrosas” para tornar sua vidinha cotidiana mais fácil ou confortável. Poucos, pouquíssimos são os que fazem uso da internet para ler mais Shakespeare, entrar em contato com outras culturas e credos, encontrar quem saiba mais e melhor sobre algum assunto que lhe interesse e lê-lo com atenção.

Há duas razões básicas para isso: primeiro, porque, com ou sem internet, sempre foi e será assim. E não há nada de errado nisso, afinal, o que queremos, antes de qualquer outra coisa,é resolver nossos problemas diários, o que vale mesmo para quem estuda grego madrugadas afora. Em segundo lugar, e agora estamos falando especificamente da internet, ela não é, ao contrário do que todos dizem, um gigantesco armazém de informações – informação é um dado com valor.

Um dado é apenas isso: 42, o número 42. Mas se eu digo que 42 é a resposta para a Grande Pergunta Sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais, estou dando-lhe um valor e elevando-o a nobre categoria de informação. Que 42 era o número favorito de Ayrton Senna e que, ao inverter os algarismos, deu munição ao eterno gozador Nelson Piquet para encher-lhe a paciência. Que, em japonês, os algarismos 4 e 2, pronunciados juntamente, formam a palavra “morte”. Que 42% dos blogueiros do Tibete linkaram o vídeo do Joseph Climber em seus blogs no ano de 2006. Na verdade, mesmo estes dados podem não lhe dizer coisa alguma. A menos que você seja um budista conectado na rede, duvido que venha a ter algum interesse nos internautas do Tibete. A tal “informação” nada mais é que um “dado” para você. E é disso que a internet está abarrotada; nosso suposto estresse não vem do excesso de informação, como gostamos de acreditar, mas da nossa incapacidade de distinguir o que realmente tem valor nesta enxurrada de dados a que nos expomos cotidianamente.

As pessoas usam a internet para brigar por motivos fúteis, defender uma celebridade desprezível, pagar suas contas, arrumar um parceiro sexual, se casar, pesquisar sobre física quântica, discutir fetiches bizarros, piratear filmes, comprar um liquidificador. Se nós queremos que a internet sirva ao homem em (quase) todas as suas atividades, é preciso abandonar a pretensão de que somos melhores por causa dela.

Citando o comissário Danilov, personagem de Joseph Fiennes no ótimo Círculo de Fogo (Enemy at the Gates), diante do seu fracasso pessoal e ideológico ao lado da União Soviética que resistia às investidas de Hitler: “Não existe um homem novo”. Por mais impressionantes que sejam nossas conquistas “sócio-tecnológicas”, continuaremos a ser os mesmos. Felizmente.

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