Sonhos de Einstein

Aliar rigor científico e boa literatura é uma tarefa ingrata. Como disse o editor de Stephen Hawking, enquanto ele escrevia Uma Breve História do Tempo, cada equação no texto significaria menos leitores. Geralmente, quando pensamos nesta combinação, nos lembramos de ficção científica (já antevejo a cara de nojo de alguns leitores do blog; paciência) e seus mundos rigorosamente construídos habitados por personagens rasos. Os apreciadores de FC costumam dividi-la em dois sub-gêneros: hard e soft. A ficção hard aposta em antecipações ou especulações cientificamente plausíveis, e boa parte de seu charme, para seus leitores, está no rigor de suas predições. Ao contrário, os livros soft tendem a usar a possibilidade científica como um pano de fundo sobre o qual se movem os personagens. Na verdade, a maior parte da FC que assistimos no cinema está mais próxima desta segunda vertente, por razões óbvias: há menos PHDs em física quântica interessados em ficção do que adolescentes ávidos por efeitos especiais e ação. Esta introdução serve apenas para dizer que Sonhos de Einstein, livro de Alan Lightman, simplesmente não se encaixa em nenhuma das duas categorias. E por isso mesmo é tão bom.

Lightman parte de uma possibilidade: e se Einstein tivesse sonhado com as mais diversas formas possíveis do tempo enquanto elaborava sua Teoria da Relatividade Geral e trabalhava num escritório de patentes, em 1905? Ele teria imaginado as conseqüências das dimensões que seu inconsciente criava sempre sobre as pessoas que ele via no seu dia-a-dia. A mulher que compra queijo no mercado toda sexta-feira, um casal que hesita em se separar, um pai que abraça sua filha desejando que o momento dure para sempre. Este é um exemplo típico da prosa límpida de Lightman,de seus personagens sem nome e sua capacidade de capturar a delicadeza e a tragédia da vida humana. A cada pequeno conto, somos apresentados a uma possibilidade, a um mundo distinto: um em que o tempo corre para trás, outro em que as dimensões de tempo e espaço se inverteram, mais um onde o tempo não flui – salta aos trancos. Nestes universos possíveis, a vida pode ser aterrorizante, complicada, leve ou quase impossível. É inevitável que a qualidade de seus relatos varie bastante; alguns ultrapassam a linha da fragilidade e resvalam na breguice escrita, mas, felizmente, o resultado final é a seu favor.

De qualquer forma, não seria correto dizer que Lightman impregna seu texto de rigor científico; sua prosa flerta com o lado soft da FC, embora, ao mesmo tempo, exija que o leitor tenha uma mínima noção da tão badalada Teoria Geral da Relatividade – nada que a leitura de uma ou duas SuperInteressantes de uns dez anos atrás não resolva. O caráter episódico e ligeiramente repetitivo dos contos pode ser um tanto cansativo. Mas há um remédio para isso: basta lê-los, um ou dois por dia, saboreando cada relato com calma. Na verdade, acredito mesmo que seja esta a forma ideal de ler um livro como Sonhos de Einstein, e provavelmente a que Lightman teria preferido.

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