Archive for julho \31\UTC 2007

Os 17 livros de autores nascidos em Guiné-Bissau mais bacanas publicados em 1973 no Panamá

terça-feira, 31 julho, 2007

Sim, sim, as listas. Inevitáveis e simples, fizeram a fama de Nick Hornby e são uma deliciosa parte do blog do Paulo, que gosta do número 13. Então, faço a minha primeira, registrando o que penso ser um dos meus grandes defeitos: a lista de livros que estou lendo ao mesmo tempo.

1. A Busca, de John Battelle;
2. Os Intelectuais, de Paul Johnsohn;
3. Oppenheimer – O Pai da Bomba Atômica, de Peter Goodchild;
4. The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling.

Estou sofrendo para passar das primeiras páginas de A Busca, não por falta de qualidades do texto, mas por quase sempre me lembrar dele na hora de dormir. O problema é que só vou para a cama quando Morfeu aparece na minha frente com um porrete na mão, como se tivesse saído de um episódio de Pernalonga, e acabo consumindo uma ou duas páginas antes de começar a roncar. O livro é bom, muito. Battelle é um dos fundadores da Wired e sabe do que está falando – não apenas do Google, mas de toda a cultura ao redor do conceito de “busca”.

Os Intelectuais é um livro cruel e saboroso. É bastante comum que eu simplesmente escolha um dos capítulos de forma aleatória e o leia novamente. Deveria ser um livro obrigatório para quem ainda acredita na “missão divina” dos nossos intelectuais e prostra-se diante de qualquer asneira dita por estas figuras. Menos: bastaria, se houvesse algum genuíno interesse na verdade, ler as biografias de Rousseau e Marx dissecadas por Johnson neste livro.

Toda vez que leio o nome de Peter Goodchild, na capa de Oppenheimer, lembro-me de Trevor Goodchild, personagem bizarro do desenho animado Aeon Flux (por Deus, jamais assista ao filme). É uma biografia interessantíssima de um personagem que esteve bem no meio de alguns dos eventos mais importantes do século XX. Oppenheimer foi um homem incapaz de mostrar interesse por qualquer frivolidade intelectual – e isso era particularmente verdadeiro em relação às pessoas que conviveram com ele. Vistos hoje, empreendimentos gigantescos como o Projeto Manhattan e Apolo parecem-se mais com ficção científica steampunk (mais a respeito no próximo livro da lista) e não com algo que realmente aconteceu; parte do fascínio desta biografia vem exatamente desta sensação. A partir da metade, o livro, que foi escrito em conseqüência de um documentário da BBC no início dos anos 80, debruça-se as investigações sobre suas supostas atividades comunistas na juventude. É onde estou parado.

The Difference Engine é uma ficção científica steampunk, que cria uma “realidade alternativa” envolvendo o século XIX e a tecnologia das máquinas a vapor. Neste livro, Gibson e Sterling exploram a possibilidade de Charles Babbage obter sucesso na construção do primeiro computador analógico por volta de 1850. Mal comecei a leitura, motivada especialmente por um projeto pessoal do qual falarei apenas quando ele ficar interessante. Por enquanto, poupo qualquer leitor eventual deste blog da chateação de aturar descrições de histórias ainda não escritas.

Parte essencial deste pobre mundo

terça-feira, 31 julho, 2007

Na turbulenta Europa dos anos 40, o escritor Italo Calvino (1923-1985) achava que a realidade era um enredo mal escrito que precisava ser urgentemente mudado – e que a literatura era um instrumento para isso.

Na dúvida entre arte e política, Calvino optou pelas duas, passando a militar tanto nos quadros do Partido Comunista italiano quanto através de livros ëngajados”como Il sentiero dei nidi di ragno (O atalho dos ninhos de aranha, 1947) e Ultimo viene il corvo (Por último vem o corvo, 1949), sua estréia na ficção.

Mas Calvino não demorou muito a descobrir que o mundo não era aquela equação exata que alguns filósofos teimavam em transformar, mais do que em entender.

Para o homem e para o artista, isso representou um ritual da “perda da inocência”: o militante que queria mudar o mundo acabou mudado. Calvino trocou a ingenuidade da política pelas sutilezas do verbo, e seu realismo à italiana pela literatura universal.

Deixou de lado a arrogância de pretender forjar um mundo perfeito, e acabou preferindo a sabedoria de tentar aperfeiçoar a literatura – que é, no fim das contas, parte tão essencial deste pobre mundo.

Do blog de Antônio Fernando Borges.

Do Saudosismo Cinematográfico – I

domingo, 29 julho, 2007

Já falei a respeito do saudosismo. Não sou exatamente o sujeito mais apegado ao passado que conheço; tendo sempre a acreditar que minha vida hoje é melhor do que era anos atrás. Por trás desta idéia, está a convicção de que sou diferente de antes (é mesmo? puxa, que observação genial!) e tentar aplicar os valores daquele tempo ao Marcelo de hoje seria uma bizarrice cujo único resultado prático seria me infantilizar um pouco mais. Fico espantado com quem diz ter saudades da infância; ao contrário, eu não desejo ser criança novamente, minhas memórias têm seu valor exatamente onde estão, cultivadas com afeto e cuidado. A mais leve melancolia é assim: um sentimento acridoce pelo que já fomos, mesmo quando reside alguma vergonha nisso.

Estou numa fase de rever filmes que, de alguma forma, fazem parte das minhas memórias. É óbvio dizer que enquanto uns resistem ao teste do tempo, outros acabam se tornando referências um tanto embaraçosas. Curiosamente, descobri que as memórias mais persistentes são daquelas produções badaladas como independentes dos anos 80 e 90, tanto européias quanto norte-americanas. É coisa de gente como Win Wenders, Patrice Leconte, Jim Jarmusch, David Lynch, Giuseppe Tornatore, Krzystztof Kielowski, Hugh Hudson, Roland Joffé, Percy Adlon e até mesmo Jean-Luc Besson. E a maioria deles vi primeiro na televisão (sim, por um curtíssimo período de tempo havia bons filmes na TV aberta) e depois em VHS, quase nunca no cinema. Começo falando rapidamente dos filmes que ainda não revi – ou seja, tento refazer nesta série, as impressões que eles me passaram à época.

De Win Wenders, lembro-me especialmente de Paris, Texas. Aliás, ainda acho que é o último filme realmente bom dele. É engraçado porque eu li bastante a respeito deste filme e muitos criticam seus aspectos estéticos “excessivamente pensados” e louvam sua visão do mundo norte-americano – aqui, na botocúndia, qualquer um que pareça criticar os EUA é logo elevado a categoria de Deus. Na época, pareceu-me um filme pequeno, triste e delicado, com um roteiro profundamente apaixonado pelos seus personagens. Acabou como um de meus favoritos. Depois ainda vi Até o Fim do Mundo, que achei tão pretensioso quanto chato e agora sei que é graças a ele que até hoje não encarei o tão elogiado Asas do Desejo.

Na mesma época, vi duas produções de Patrice Leconte. Primeiro, Um Homem Meio Esquisito, um filme gélido, distante, em que uma sucessão de acontecimentos na vida de um sujeito solitário acabam levando-o a uma tragédia; gostei, mas não muito. Depois, o badalado O Marido da Cabelereira me fez pensar mais em Leconte. A infância, obsessão, um toque incrivelmente sutil de uma sexualidade um tanto pervertida, a beleza da atriz Anna Galiena, o tom que começava na comédia e terminava num ato dramático e incompreensível, acabaram me marcando. Recentemente, assisti a L’Homme du train, cujo título em português é algo como Segunda Vida ou Segunda Chance, com o mesmo Jean Rochefort e um surpreendente Johnny Hallyday. Ainda falo mais deste em outro post.

E, claro, Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore. Poucos, pouquíssimos, são os filmes capazes de me emocionar tanto quanto esta homenagem delicada e romântica ao cinema. A conexão que Tornatore estabeleceu entre o fim de um tipo de cultura do cinema (espaço mítico, pré-televisão, tão essencial a uma comunidade quanto a Igreja da praça) e o fim da infância de Toto pode parecer um tanto óbvia hoje, mas ele se entrega ao filme de uma forma tão intensa que acaba ganhando a platéia com alguns poucos minutos de exibição. Exemplar raro de um tipo de produção em que tudo se encaixa perfeitamente (direção, roteiro, atuação e a trilha sonora inesquecível de Morricone), o filme termina num ápice emocional único, que me ganhou para sempre. Graças a este post do Paulo, pude revê-lo no YouTube.

Nota final: Quase sempre,em dramas comuns, o desfecho emotivo da história é embaraçoso e forçado, acabando por nos desligar do filme. Cinema Paradido e o recente Big Fish são exatamente o contrário desta regra. Já o ótimo Diário de uma Paixão por pouco não se estrepa totalmente num final desastrado. Escreverei sobre ambos em breve.

Na próxima sessão de saudosismo, pretendo falar de A Dupla Vida de Verónique e Não Amarás, além de um filme argentino cujo nome me escapa agora.

Olha, mãe: Sem as mãos!

domingo, 29 julho, 2007

Em 1947 a Life Magazine chamou alguns dos principais autores de tiras de jornais dos EUA para desenhar de olhos vendados seus personagens. O resultado é fantástico.

Via Na Cara do Gol.

Welcome to Congo

domingo, 22 julho, 2007

Quando migrei para o WordPress, imaginava também poder escrever sobre o que mais me interessa – cinema e literatura, especialmente. Mas eu me esqueci de que vivo no Brasil. Moro num país que me proíbe de ter uma vida banal; ele está sempre a esfregar na minha cara sua estupidez habilmente depurada por décadas de decisões equivocadas e valores bizarros, quase(?) beirando a demência coletiva. De vez em quando a gente acorda com um barulho lá fora, na rua, e depois volta a dormir. E a sonhar com praias, bundas e cerveja – que são o máximo de valores que a mente média brasileira consegue apreender do mundo.

Mas anda difícil para o brasileiro votar a este deplorável estado de indiferença diante dos últimos acontecimentos – um menino arrastado na rua até se tranformar num tronco mutilado, uma doméstica espancada até quase a morte por pura diversão, dois desastres aéreos que custaram mais de 300 vidas e, finalmente, um governo inepto que anda em círculos e comemora de forma obscena quando pensa que o desastre nacional parecer não ser de sua conta.

Chamem o gerente de imprensa da delegação norte-americana do (superfaturado) Pan de volta; ele está certo: Welcome to Congo.

Saudade do universo

segunda-feira, 16 julho, 2007

Agora, na HBO, está passando os créditos finais de The Life Aquatic e eu parei de escrever agora pouco pra ver, de novo, o tubarão-jaguar. Filmes bons fazem isso: Você pára de fazer o que está fazendo e opta por aquele universo. Quando você opta pela sua própria sala, sua própria unha, seu próprio cachorro, algo está obviamente errado.

Lady SnowBlood acerta na mosca neste post. Uma das coisas que me atrai especialmente numa obra é quando ela se esmera em construir o seu “universo”: o conjunto de seres, conceitos, frases, personagens, regras. Recentemente, pude revisitar dois universos que me agradam profundamente e estavam esquecidos, por anos de descuido. O primeiro é Star Trek. Isso mesmo, Kirk, Spock, McCoy e cia. fazem parte do meu imaginário de ficção científica infanto-juvenil, alimentado pelas incontáveis reprises na televisão brasileira. Verdade seja dita: herança também de meus pais, fãs da série original. Felizmente, este universo sobreviveu a meu amadurecimento (ou, na verdade, eu não amadureci grande coisa… isto é assunto para outro post) e consegui apreciar as séries seguintes, à óbvia exceção de Voyager e da maior parte de Enterprise. Vi o último cinefilme da série, Nemesis. Não é grande coisa; o roteiro tem furos, a história parece uma colagem requentada de episódios antigos e, para completar, um personagem querido bate as botas. Mas a verdade é que eu adoro aquele universo, aqueles sujeitos equilibrando-se entre o comportamento certinho-militarista e o ímpeto adolescente da exploração.

O outro, e nisso eu e Snowblood concordamos plenamente, é o anime Cowboy Bebop, que finalmente consegui baixar pela internet depois de assistir, fascinado, aos episódios no extinto canal Locomotion. É outro caso de amor a personagens: Spike, Jet, Faye, Ein e Ed movem-se num universo de ficção científica completamente diferente de Star Trek. É um mundo sujo, meio faroeste (no que lembra outro desenho animado bacaninha, Galaxy Rangers) meio tecnológico, habitado por bandidos, policiais, caçadores de recompensas, mafiosos e uma miríade de pobres coitados. Para completar, a trilha sonora tem identidade própria, executada por uma banda de blues/jazz japonesa, Seatbelts.

Não nego; sonho em criar um universo também. Um que faça alguém parar o que está fazendo para observar, sei lá, um castor-falante-voador. Ainda chego lá.

À Procura da Felicidade

sábado, 14 julho, 2007

Não me importo nem um pouco com o rótulo “baseado em fatos reais”; sua existência, no cartaz ou capa de DVD, não determina minha escolha. Minto; tenho certa tendência a desprezar este tipo de alerta, por uma razão muito simples – tudo é ficção. Há a adequação do material original a expectativas de público, truques de roteiro, escolhas de atores, piruetas estéticas de diretores, todas as questões tipicamente industriais do cinema. Cobrar uma suposta fidelidade ao mundo real é uma bobagem sobre a qual não deveríamos perder tempo, sequer em reconstituições históricas, pois sempre há alguma margem de manobra para o roteiro brincar com situações e personagens. É com isto em mente que devemos assistir ao belo À Procura da Felicidade, do diretor italiano Gabrielle Mucino.

A história de Chris Gardner é bem conhecida dos norte-americanos, por encarnar exemplarmente o self-made-man, o sujeito que vem do nada e que, com trabalho duro e determinação, consegue “chegar lá” – leia-se: ganha respeito e dinheiro. O astro Will Smith encarou o projeto e exigiu que ele fosse dirigido pelo italiano. Uma decisão incrivelmente sábia.

À Procura da Felicidade garante o seu lugar de destaque entre os quase sempre equivocados e irritantes “filmes de crescimento e superação” graças a economia de recursos sensoriais como suporte ao apelo emocional de fácil comunicação com o público, mérito de três vértices: o roteiro enxuto, a direção segura e a interpretação de Smith.

O roteiro é direto, sem gorduras, consegue criar situações tão plausíveis quanto quase insolúveis para o personagem principal (a exemplo de Hotel Ruanda), que conta apenas com sua inteligência e alguma sorte para resolvê-las. E não apela para soluções mágicas nos momentos mais extremos – Gardner perde várias de suas lutas e não somos poupados de ver seus esforços, por vezes bem-intencionados e outras vezes destrambelhados, falharem miseravelmente. Por outro lado, há algumas coincidências irritantes, mas não é algo que se compare a um roteiro inteiramente construído sobre este tipo de artifício como, digamos, Homem-Arannha 3. Há ainda uma voz narrativa dispensável em pelo menos dois momentos do filme.

Acompanhando este roteiro, Mucino decide expurgar quase todo o melodrama de suas escolhas de planos e seqüências. Quando Gardner abraça seu filho na creche inepta que pode pagar para ele, a câmera fica do lado de fora, vendo tudo pela janela, quase em silêncio. Não há câmera lenta ou solo de violino num crescendo desajeitado; sentimos a cena porque ela é o ápice de uma série de eventos emotivos. Em vários momentos, o cuidado com a fotografia nos dá a impressão de ver aquela luz típica dos filmes do final dos anos 70 e início dos 80 (quando se passa a história), antes da estética publicitária ao estilo dos irmãos Scott se impor.

E, finalmente, Will Smith constrói seu personagem com um esmero quase absoluto. Geralmente, quando mencionamos uma atuação exemplar, nos lembramos de personagens superlativos (o Coringa de Jack Nicholson) ou “diferentes” (Sean Penn, que parece possuído no equivocado I am Sam). A criação de um homem comum, crível, é um desafio que poucos atores conseguem superar sem se deixar seduzir pelo excesso ou pela inexpressividade. O Gardner de Smith deixa-nos entrever, em cada olhar, uma luta interna entre sua capacidade de ação e otimismo e a sua profunda decepção consigo mesmo. Em momento algum, ele lamenta em voz alta – ainda que se ressinta pela sua situação atual – ou cede ao racismo velado de seu superior, que o humilha ao pedir que lhe compre cafés e estacione seu carro. É um trabalho delicadíssimo, superior até ao que Smith apresentou em Ali, de Michael Mann.

Enfim, um filme que consegue fugir da famigerada “auto-ajuda cinematográfica” (gênero em que, infelizmente, Robin Williams parece ter fincado o pé), baseado num material que tinha tudo para dar errado, merece ser visto com cuidado, mesmo com alguns defeitos aqui e ali.

Cotação: ****