Do Saudosismo Cinematográfico – I

Já falei a respeito do saudosismo. Não sou exatamente o sujeito mais apegado ao passado que conheço; tendo sempre a acreditar que minha vida hoje é melhor do que era anos atrás. Por trás desta idéia, está a convicção de que sou diferente de antes (é mesmo? puxa, que observação genial!) e tentar aplicar os valores daquele tempo ao Marcelo de hoje seria uma bizarrice cujo único resultado prático seria me infantilizar um pouco mais. Fico espantado com quem diz ter saudades da infância; ao contrário, eu não desejo ser criança novamente, minhas memórias têm seu valor exatamente onde estão, cultivadas com afeto e cuidado. A mais leve melancolia é assim: um sentimento acridoce pelo que já fomos, mesmo quando reside alguma vergonha nisso.

Estou numa fase de rever filmes que, de alguma forma, fazem parte das minhas memórias. É óbvio dizer que enquanto uns resistem ao teste do tempo, outros acabam se tornando referências um tanto embaraçosas. Curiosamente, descobri que as memórias mais persistentes são daquelas produções badaladas como independentes dos anos 80 e 90, tanto européias quanto norte-americanas. É coisa de gente como Win Wenders, Patrice Leconte, Jim Jarmusch, David Lynch, Giuseppe Tornatore, Krzystztof Kielowski, Hugh Hudson, Roland Joffé, Percy Adlon e até mesmo Jean-Luc Besson. E a maioria deles vi primeiro na televisão (sim, por um curtíssimo período de tempo havia bons filmes na TV aberta) e depois em VHS, quase nunca no cinema. Começo falando rapidamente dos filmes que ainda não revi – ou seja, tento refazer nesta série, as impressões que eles me passaram à época.

De Win Wenders, lembro-me especialmente de Paris, Texas. Aliás, ainda acho que é o último filme realmente bom dele. É engraçado porque eu li bastante a respeito deste filme e muitos criticam seus aspectos estéticos “excessivamente pensados” e louvam sua visão do mundo norte-americano – aqui, na botocúndia, qualquer um que pareça criticar os EUA é logo elevado a categoria de Deus. Na época, pareceu-me um filme pequeno, triste e delicado, com um roteiro profundamente apaixonado pelos seus personagens. Acabou como um de meus favoritos. Depois ainda vi Até o Fim do Mundo, que achei tão pretensioso quanto chato e agora sei que é graças a ele que até hoje não encarei o tão elogiado Asas do Desejo.

Na mesma época, vi duas produções de Patrice Leconte. Primeiro, Um Homem Meio Esquisito, um filme gélido, distante, em que uma sucessão de acontecimentos na vida de um sujeito solitário acabam levando-o a uma tragédia; gostei, mas não muito. Depois, o badalado O Marido da Cabelereira me fez pensar mais em Leconte. A infância, obsessão, um toque incrivelmente sutil de uma sexualidade um tanto pervertida, a beleza da atriz Anna Galiena, o tom que começava na comédia e terminava num ato dramático e incompreensível, acabaram me marcando. Recentemente, assisti a L’Homme du train, cujo título em português é algo como Segunda Vida ou Segunda Chance, com o mesmo Jean Rochefort e um surpreendente Johnny Hallyday. Ainda falo mais deste em outro post.

E, claro, Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore. Poucos, pouquíssimos, são os filmes capazes de me emocionar tanto quanto esta homenagem delicada e romântica ao cinema. A conexão que Tornatore estabeleceu entre o fim de um tipo de cultura do cinema (espaço mítico, pré-televisão, tão essencial a uma comunidade quanto a Igreja da praça) e o fim da infância de Toto pode parecer um tanto óbvia hoje, mas ele se entrega ao filme de uma forma tão intensa que acaba ganhando a platéia com alguns poucos minutos de exibição. Exemplar raro de um tipo de produção em que tudo se encaixa perfeitamente (direção, roteiro, atuação e a trilha sonora inesquecível de Morricone), o filme termina num ápice emocional único, que me ganhou para sempre. Graças a este post do Paulo, pude revê-lo no YouTube.

Nota final: Quase sempre,em dramas comuns, o desfecho emotivo da história é embaraçoso e forçado, acabando por nos desligar do filme. Cinema Paradido e o recente Big Fish são exatamente o contrário desta regra. Já o ótimo Diário de uma Paixão por pouco não se estrepa totalmente num final desastrado. Escreverei sobre ambos em breve.

Na próxima sessão de saudosismo, pretendo falar de A Dupla Vida de Verónique e Não Amarás, além de um filme argentino cujo nome me escapa agora.

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