Archive for agosto \26\UTC 2007

Ao Sr. Santiago

domingo, 26 agosto, 2007

Depois de ler isto e isto aqui, preciso urgentemente ver Santiago, de João Moreira Salles. Transcrevo o último parágrafo da crítica publicada no Omelete:

Esse exame sem auto-complacência diz muito não só da disposição do cineasta em expor suas fraquezas, como diz das armadilhas do gênero em si. Documentar é saber observar o mundo que se abre diante dos olhos, e não enquadrar esse mundo a um ponto de vista pré-concebido – parecem duas coisas inconfundíveis, mas, nos tempos atuais, em que panfletos de Michael Moore ganham Oscar de documentário, é urgente repisar essa dissociação.

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Escrever é reescrever

sábado, 25 agosto, 2007

Acabei perdendo o link para uma entrevista com Jorge Luís Borges, então reproduzo aqui o que consigo lembrar, ou melhor, o que acabou por me dizer respeito. O escritor argentino confessava que, quando mais jovem, acreditava piamente que escrever consistia em descrever de forma diferente qualquer coisa, evento, objeto, ação. E ainda dizia que é um equívoco comum. Sou obrigado a assinar embaixo e ainda rubricar em todas as vias.

Quando achava que sabia escrever umas duas ou três páginas seguidas, eu as enchia com descrições absurdas, voleios e floreios absolutamente inúteis para as ações mais ínfimas. É uma pena que eu não tenha mais o caderno em que iniciei meu primeiro romance (sim, pode rir) para ilustrar o grau de indigência intelectual que eu acreditava ser sinônimo de literatura. O tal livro tinha o título (prepare-se para rir de novo) Todas as Noites da Eternidade (certo, certo, já parou de rir? ok, podemos continuar) e narrava o relacionamento de dois jovens que acabavam parando numa cidadezinha condenada para desaparecer debaixo das águas de uma hidrelétrica. Até acredito que seria possível tirar uma boa história dali, mas, unindo a minha pretensão adolescente a falta de leituras, o resultado não poderia ser mais desastroso. Felizmente, o projeto ficou pelo meio do caminho. Na verdade, eu estava quase replicando o personagem de Michael Douglas em Garotos Incríveis, que escrevia o mesmo romance sem conseguir chegar a um final. Mas, isso, bom, aconteceh há uns quinze anos.

Depois desta experiência, passei muito tempo sem me arriscar na escrita de qualquer coisa mais complexa do que uma redação de 180 toques. Para minha sorte, li bastante, embora de forma (muito) desorganizada. Mas logo depois, também passei por um hiato de leituras bem duradouro, que só quebrei aos 20 anos, com o Leviatã de Paul Auster. Logo estava devorando toda e qualquer coisa que caísse no meu colo. E, por conseqüência, acabei voltando a escrever narrativas curtas.

Foi então que, de alguma forma, toda aquela leitura fez algum efeito; percebi que era dramática a distância entre o que eu lia e as páginas que eu conseguia produzir. Passei a burilar a escrita, as páginas, parágrafos, aprendi que escrever é reescrever, como já havia dito Drummond, e passei a rever meus textos sempre e sempre, quase com crueldade. Lembro-me de que uma vez mostrei um conto a uma amiga e depois pedi para que era lesse outra versão, fruto da revisão furiosa de alguns dias depois. Eram terrivelmente diferentes e ela ainda disse que trechos dos quais ela gostara foram parar no lixo.

Não sei dizer se consegui me livrar totalmente da mania ridícula do meu suposto primeiro romance, mas aprendi que a reescrita é a minha ferramenta preferida para melhorar meu texto. Mas posso dizer que substituí a pretensão pela ambição sincera. Como diz o desenhista de quadrinhos Adriano Batista (minhas referências são as mais variadas possíveis, já deveria estar acostumado), deve-se descartar as dez primeiras idéias sobre qualquer coisa. Mas, e aí vai o mais importante, elas devem ir para o papel, porque vê-las “impressas” nos ajuda a melhorá-las, a tirar delas o que há de interessante e jogar o resto fora. É isso que a reescrita proporciona.

“Escrever é traduzir idéias em palavras. Escrever bem é conseguir traduzir essas idéias nas palavras mais exatas, verdadeiras e belas possíveis.Eis aí uma boa definição da chamada arte da escrita.”
Antônio Fernando Borges

Poderosa Afrodite / Mighty Aphrodite

sábado, 25 agosto, 2007

Woody Allen é um tipo de clube. Quem está do lado de dentro acha tudo muito interessante e curioso; já aqueles que ficam olhando por cima do muro não conseguem entender qual a graça que a turminha vê nas mesmas caras e piadas. Pois é, eu estou dentro dos muros. E mesmo assim, o último Allen que vi numa sala de cinema foi o ótimo Poucas e Boas, com Sean Penn, em 2000 – eu e outros três sujeitos solitários numa sessão vespertina em plena terça-feira. Dito isso, nada explica o porquê de eu ter demorado tanto tempo para assistir a Poderosa Afrodite.

Na verdade, entendo a razão. Sempre achei que havia uma fórmula ali: um mané enfrenta o casamento em crise procurando a mãe biológica de seu filho adotivo e acaba encontrando uma prostituta espirituosa. Para a coisa ficar ainda mais interessante, há um coro de teatro grego acompanhando a história. Ignorei os elogios à época e fiquei preso a esta idéia idiota de que o filme seria apenas um Allen genérico e pouco inspirado (mais ou menos como Celebridades). Para variar, eu não poderia estar mais equivocado.

Acredito realmente que é um erro de muita gente querer enxergar em Allen um diretor excessivamente intelectualizado – é uma verdade parcial. Woody Allen é Jerry Seinfeld depois de ler a coleção Os Pensadores, da Editora Abril. Para apreciá-lo, você não precisa ter lido Schopenhauer no original, basta ter um pingo de curiosidade pelo repertório básico de filosofia, história, literatura e cinema escrito e referenciado no século XX. Ou seja, eu, você, um sujeito comum com algum gosto por piadas cheias de referências está pronto para, quem sabe, gostar de um filme típico de Allen. E Poderosa Afrodite tem o peso pena do delicioso Todos Dizem Eu te Amo, apenas é bem mais boca suja.

Vista hoje, a interpretação da Mira Sorvino, que causou furor na época do lançamento, continua muito boa, o que só faz aumentar o estranhamento diantes de suas bizarras escolhas de carreira pós-Afrodite. Ela cria uma prostituta ao mesmo tempo resistente a ordens de terceiros e frágil em seus momentos mais íntimos. Não, ela não é ingênua. Felizmente, o filme foge deste clichê, ela apenas leva sua vida da melhor forma que seu intelecto sinceramente forrestgumpiano permite. Desta vez, o personagem de Allen não é um escritor ou crítico; é um cronista esportivo, casado com uma artista disposta a fazer todos os possíveis contatos para abrir sua própria galeria – o que aborrece terrivelmente o sempre irascível baixinho.

Mas eu havia afirmado que o filme é peso-pena. De fato, todo o roteiro caminha para um final doce, leve, quase familiar. Tudo dará certo para os personagens, num deus ex-machina coletivo. E, claro, há o coro grego, liderado pelo fenomenal F. Murray Abraham. Aliás, o anacronismo do tal coro é perfeito (há apenas uma piada óbvia demais, envolvendo Zeus), encerrando o filme ao som de “When you’re smiling” (hum, posso estar enganado, espero que seja esta música mesmo). Imperdível.

A Herança / The Overture

quarta-feira, 22 agosto, 2007

Sim, eu já assisti a filmes iranianos, belgas, macedônios e (“oh, o horror, o horror…”) brasileiros, mas jamais havia visto um filme tailandês. Graças ao canal Cinemax pude conferir A Herança (The Overture / Home Romg), uma produção de 2004 vinda diretamente da Tailândia. Antes de qualquer coisa, não tenho nenhum interesse antropológico no cinema. Não sou daqueles cinéfilos que correm a sala de projeção mais obscura possível para ver uma produção independente de Papua Nova Guiné; na verdade, confesso em parte concordar com aquela piada corrente na web brasileira de “não ver filmes de países que não possuem saneamento básico”. Por outro lado, sei que nada impede uma boa surpresa vinda de algum lugar cuja producao cultural desconhecíamos até pouco tempo – boas histórias são universais e independem de local de nascimento, claro.

É um filme muito simples, direto e honesto, e são estas qualidades que o tornam interessante, da mesma forma que, digamos, o superior Encantadora de Baleias. É verdade que o diretor escolhe planos que flertam o tempo todo com os mais difundidos clichês narrativos do cinemão ocidental. Lembra-se da câmera que se aproxima por baixo do personagem até enquadrar seu rosto num momento de tensão tipicamente spielberguiana? Está lá. A câmera que gira sobre um ponto fixo, posicionada no alto? Também. O travelling a bordo da grua sobre veículos e construções, depois fixando-se nos personagens? Pois é. E estas escolhas acabam por ser irônicas, já que o roteiro enfoca também a Revolução Cultural Tailandesa da década de 1940, quando o governo militar quis fazer uma modernização de costumes com a delicadeza de um parto auxiliado por fórceps. Por outro lado, um dos trunfos do filme é a boa construção de seqüências em tempos distintos, contando a história do músico Sorn em dois momentos: sua formação e crescimento artístico e sua vida como mestre, já perto de seus últimos dias. Esta dinâmica simples faz o interesse do filme se manter, já que a história sobre um estilo musical quase esquecido poderia rapidamente cansar o público.

A Herança sofreu com as primeiras semanas de exibição com números ridículos nas bilheterias. Logo, o boca a boca e a propaganda da mídia, que abraçou o filme como um (argh) libelo nacionalista, chamaram a atenção até da família real tailandesa e a película cresceu em popularidade. Curiosamente, a ótima cena do duelo musical entre Sorn e o idolatrado e temido Kuhn In lembra muito a de outro bom filme relativamente desconhecido, o belga O Mestre da Música – não disponível no Brasil.

Bem-vindo ao deserto do real

terça-feira, 21 agosto, 2007

Uma das coisas que sempre me causaram espanto é a inacreditável seriedade com que cabecas pensantes do mundo da TI nerd encaram algumas teorias de ficção científica. Primeiro foi Bill Joy, da Sun Microsystems, alarmado com a possibilidade de o mundo ficar soterrado por trilhões de trilhões de nanomáquinas auto-replicantes, um conceito que ganhou o nome bacana de “gosma cinzenta” – curiosamente, quando adolescente, li um conto de Stephen King de mesmo nome em que um sujeito ia se transformando num monstrengo disforme e cinza depois de beber muita cerveja… nem preciso dizer que parei de ler King eras atrás. Agora é um filósofo de Oxford que diz haver 20% de chance de a nossa realidade ser um tipo de Second Life vitaminado e bem-sucedido do futuro.

Ele se baseia na progressão do poder de processamento dos computadores e na capacidade que seria necessária para simular cada aspecto da realidade como a conhecemos. Em outras palavras, para Nick Bostrom, somos avatares complexos dos seres humanos do futuro. A teoria é uma furada, claro. Até porque ela não explica porque o meu “senhor” me criou desta forma e não com a cara do Brad Pitt, por exemplo. Que graça há num mundo tão parecido com o “real” é o que o grande professor que deve ter assistido a Matrix enquanto consumia alguma droga pesada – Fanta Uva, provavelmente – não explica. Ou talvez o tal mundo do futuro seja tão perfeito, talvez uma versão radical da Federação dos Planetas, que eles se divertem observando um mundo virtual em que a regra básica é a Lei de Murphy.

Claro que estou apenas fazendo algumas digressões sem graça sobre a notícia. Como eu já havia mencionado, há algo de estranhamente “religioso” na comunidade geek e sua relação com os computadores e a tecnologia. A maioria dos profissionais de TI assumidamente nerds que conheço declara-se cétido ou ateu, mas, no entanto, adora acreditar nestas idéias fragéis sobre um “Grande Irmão Tecnológico”, sejam máquinas ou seres do futuro. Versões mais sofisticadas e igualmente absurdas destas teorias de conspiração incluem seres extra-terrestres ou de outras dimensões no papel de puppet masters de toda a humanidade. Na verdade, é apenas mais um capítulo da longa tentativa do homem para colocar alguma coisa, qualquer coisa, no lugar de Deus. A tecnologia apresenta-se agora para tentar ocupar o trono divino. Vai se estrepar, obviamente. Mas, ao menos, vai deixar algumas boas idéias disponíveis pelo caminho.
Fiquei fora por culpa de uma ridícula garanta inflamada. Se eu usasse Twitter, os dois leitores e meio deste blog saberiam disso antes de hoje, mas, por Deus, eu não tenho paciência para posts de uma linha.

Assistam a 13o. Andar, um filminho honesto que brinca com esta teoria, se tiverem paciência para tanto.

Minha primeira sessão de cinema

quarta-feira, 15 agosto, 2007

A primeira mesmo, eu devia ter uns 6 ou 7 anos, e foi com uma de minhas tias. O filme era Meu Amigo, o Dragão, que andava fazendo sucesso na época de seu lançamento no Bananão (a produção era de 1977, mas por aqui saiu em 1981, acredito). Não consigo me lembrar muito bem de qual foi a sala (Acaiaca, Palladium, ArtPalácio?), todas extintas na Belo Horizonte de hoje, mas me recordo de que estava relativamente cheia – crianças e seus adultos a tiracolo. Para quem não conhece, este filme é uma produção Disney, avô de Uma Cilada Para Roger Rabbit, em que um moleque faz amizade com um dragão em forma de desenho animado. Hoje sei que fazer este tipo de filme dava um trabalho anormal para os artistas: era preciso imprimir cada fotograma da película e colocar a folha de acetato por cima, onde era pintado o desenho. O quadro era, então, fotografado à maneira dos desenhos animados e o filme era, digamos, reconstruído. O fantástico Roger Rabbit, já em 1988, ainda foi feito da mesma forma, o que exigia cuidados especiais nas filmagens para diminuir os custos na inserção dos desenhos.

Mas, voltando a sessão, eu me comportei no cinema exatamente como faço hoje: acabo absorvido pelo filme, esqueço o ambiente e as pessoas a minha volta. Lembro que gostei muito e por algum motivo achei alguns trechos do filme um tanto tristes – para um moleque de sete anos, qualquer cachorrinho manco na Sessão da Tarde pode ser meio triste. Por outro lado, costumo dizer que eu era um psicopata infantil, porque nunca liguei muito para a famosa cena da morte da mãe do Bambi. E, na verdade, já naquela época, achava Bambi uma chatice (para não usar outra palavra, politicamente incorreta, e que levaria este post sem graça para a terra das piadas infames dispensáveis) sem fim.

E foi também a primeira vez em que voltei para casa à noite, saindo do centro de Belo Horizonte. A noite é um mistério para os meninos muito novos, uma fronteira demarcada pelos gritos da mãe nos obrigando a voltar para casa pouco depois da Ave-Maria tocar em alguma rádio AM. Bom, assim era no início dos anos 80. Antes que eu ceda a tentação de fazer alguma comparação descabida com o nosso tempo, é melhor encerrar o texto. Afinal, eu não tenho filhos, logo, nenhuma autoridade para dar pitaco neste assunto.

Mas, se eu os tivesse hoje, talvez eles achassem Meu Amigo, o Dragão tão chato quanto o babaquinha do Bambi.

Grotesco e vil

sábado, 11 agosto, 2007

Agradeço a Deus todos os dias por ter amigos normais. Gente com neuras, barriguinha, chatices, impaciência, lapsos, pequenos egoísmos, ausências, espinhas, birras, opiniões ridículas. Espero jamais ter que conviver com um destes tipos perfeitos que encontramos dando entrevistas nas revistas e na TV. Essa gente certa, equilibrada, que faz dieta, exercício, ioga, cuida do corpo e acredita cuidar de sua mente. Pessoas sem falhas que, na sua humildade calculada, arrogam-se o direito de criar regras para mim, me orientando no meu modo de viver, o que devo comer e como devo pensar. Esta raça robótica de sujeitos equilibrados, certos, seguros, que pensam positivo todo o tempo e ainda querem que eu leia os seus livros, veja os seus filmes e me converta a sua religião sem deidades.

Pensei em escrever aqui o quanto sempre me impressionaram os diálogos ouvidos por acaso e, os piores, os nos quais fui obrigado a participar. Na versão pessoal deles, são superiores ao mundo, às dores e traições e a sua própria insignificância. Não estivessem tão intoxicados de auto-estima, saberiam rir de si mesmos como às vezes sou tentado a fazer por ter de ouvi-los – por sorte, ou azar, sou educado demais para gargalhar disso. Mas lembrei-me de que é melhor, muito melhor, deixar que Fernando Pessoa, em um de meus poemas preferido, resuma tudo.

Poema em linha recta

Nunca conhecí quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que hà gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Mas o que você gosta de ler mesmo?

quinta-feira, 9 agosto, 2007

Eu sofria de uma dificuldade ridícula em responder a esta pergunta; temia parecer arrogante. Mas descobri que a maioria das pessoas que me indagavam não fazia a menor idéia de quem eram os autores que eu citava – na melhor das hipóteses, associavam Machado de Assis às leituras obrigatórias dos tempos de escola. Ou seja, eu acabava com a fama de não ter passado da fase literária juvenil.

Não que eu realmente me importe com isso hoje em dia. Na verdade, pouco me importa também se as pessoas lêem, em sua maioria esmagadora, J.K. Rowling e Paulo Coelho. O fato é que, em algum momento da minha precária e auto-didata formação, inclinei-me para o que receio chamar de grande literatura e abandonei quase totalmente os livros menos ambiciosos (o mesmo não aconteceu com o cinema; ainda assisto a Bergman e blockbusters indiscriminadamente, mas isso é assunto para outro post). E é curioso, porque você passa a fazer parte de um tipo de “clube” invisível e proporcionalmente quase deserto. Quem está do lado de fora não entende qual a graça daquelas obras que quase ninguém conhece e, mesmo que você seja o mais pateticamente humilde dos leitores, passa a vê-lo como representante de uma forma incompreensível de elite. Como elite é um palavrão aqui no Bananão, nem é preciso dizer a imagem que será feita de você.

Por isso, para encurtar a história, digo logo que leio o que os críticos gostam. Sim, é uma semi-mentirinha inocente, mas evita que eu tenha que explicar porquê diabos Thomas Bernhard é superior a Dan Brown.

E o Second Life…

quinta-feira, 9 agosto, 2007

Via Eduardo Carvalho, uma matéria na Wired afirmando que o Second Life está se transformando num deserto. Eu sou profissional de TI e já houve, na empresa em que trabalho, alguma especulação sobre uma suposta necessidade de fincar uma bandeirinha lá no mundo virtual. Confesso que ainda não entendi muito bem o porquê do sucesso do Second Life – na verdade, sem querer fazer papel de Mãe Dinah, já imaginava que a coisa começaria a declinar logo. E por uma razão muito simples: uma vida apenas já é suficientemente complicada; manter duas é algo sobre-humano.

E veja que eu me cadastrei e acabei reencarnando por lá, para saber como funciona. É um lugar inóspito, onde quase ninguém conversa com você, que no início não passa de um avatar vetorial básico e sem atrativos. Alguns minutos mais andando e voando de um lado para outro e fiquei entediado, menos pelas tais possibilidades de um mundo virtual e mais pela chatice das pessoas (desculpe, avatares) que encontrei por lá. É a solidão informatizada, como sempre, mas desta vez com gráficos melhores.

E ainda há a exigência bizarra de hardware gráfico potente para gráficos vetoriais que parecem saídos de um jogo do início do século. Meu desktop não tem uma placa de vídeo apropriada, então usei o notebook mesmo, que se saiu razoavelmente bem – não, eu não tenho o hábito de jogar, por mais bizarro que isso possa parecer para alguns.

O Second Life parece a mistura do antigo The Palace (um chat gráfico dos anos 90) e do jogo The Sims, mas com pretensões comerciais bem avançadas. A IBM usa o ambiente para treinar funcionários e realizar reuniões com gente de todo o mundo, a Dell criou uma loja virtual em forma de computador, o Bradesco espalhou seus relógios de rua pelas ilhas brasileiras. Resumindo: o Second Life vai se transformando, aos poucos, num espaço de negócios incrivelmente caro e desnecessariamente sofisticado. É apenas questão de tempo para que as empresas percebam que gastaram muito dinheiro para fazer o que já faziam antes, de forma mais direta e simples: vender, comprar, recrutar e treinar. As pessoas comuns? Bom, vão cuidar de sua primeira vida, que já é bem complicada.

Nota final: Um amigo me lembrou de um detalhe curioso. O Second Life é um “mundo perfeito”; não dá para entrar lá com uma turba de amigos, gritar “Os Pirata!” no pior estilo Renato Aragão e sair distribuindo sopapos aleatórios nos pedestres – infelizmente. No filme Matrix, o agente Smith diz que a primeira versão do universo virtual no qual estavam imersos quase todos os humanos era perfeito demais; logo foi rejeitado pelas pessoas. A solução foi criar uma nova versão, idêntica ao nosso mundinho, com fome, miséria, violência e Domingão do Faustão. Se a Linden Labs, criadora do Second Life, seguir por este caminho, é melhor comprar algumas pílulas vermelhas.

Eu e meus posts

sábado, 4 agosto, 2007

Acabo de editar meu post anteior. Goste disto ou não, quase sempre acabo descobrindo um ou mais erros horas ou até dias depois do texto escrito. Percebi que geralmente estes erros se devem a (perdoe a oposição involuntária) correções de estilo que faço a medida em que escrevo. O resultado são rastros, palavras perdidas que não se encaixam mais na versão final do post. Talvez eu seja inconscientemente desleixado pelo fato de estar escrevendo na internet. Ou, o que é bem mais provável, a frase anterior não passa de bobagem da grossa.