A Utopia Burocrática de Máximo Modesto

Publicado em 2001, A Utopia Burocrática de Máximo Modesto, de Dionísio Jacob, é um romance pervertidamente epistolar, em que as cartas são substituídas por memorandos, redigidos com patética sinceridade pelo personagem-título, Máximo Modesto. Após passar num concurso público, ele é enviado para a gerência do departamento de “assuntos relacionados”, habitada por funcionários incompetentes e que parecem viver ao largo de suas supostas obrigações. Tomando para si a missão de organizar aquele espaço, Modesto narra suas tentativas a um chefe que jamais responde, tenta trazer seus funcionários de volta, modernizar o departamento e lhe dar alguma relevância – tudo, obviamente, em vão.

Estão em guerra dentro de Máximo Modesto um tanto de Jeca Tatu e outro tanto de Policarpo Quaresma. Intelectualmente, Modesto é um pobre coitado: suas leituras de livros diversos, sempre adquiridos num sebo próximo a repartição, se misturam miseravelmente com lições de auto-ajuda, enciclopédias chinfrins e “sabedoria popular”, produzindo citações desastradas. Sobra bobagem especialmente para Shakespeare. Ainda assim, como bom brasileiro, é um mestre do auto-engano. Acredita piamente que está progredindo e ainda que admita, vez ou outra, sua mediocridade, permanece firme em seus propósitos, lendo livros que não compreende até o final. Como não entende nada do poder (e orgulha-se de sua “ingenuidade”), prostra-se diante dele, repetindo o “complexo de nhonhô” brasileiro, aquele mesmo citado constantamente pelo Reinaldo Azevedo. Modesto idolatra o indiferente chefe como se seu silêncio guardasse algo de grandioso, crê na burocracia estatal, tenta ser personagem ativo de sua construção, esmera-se em ser um “líder” e não apenas um gerente. Tudo isso para nada.

Os memorandos oscilam do ridículo ao humor, da ironia ao sarcasmo e da ingenuidade inicial ao desastre anunciado nas primeiras páginas em um segundo; li A Utopia Burocrática de Máximo Modesto rapidamente e com prazer. Ainda não tenho o segundo livro de Jacob, Assombros Urbanos, mas pretendo adquiri-lo assim que terminar pelo menos um dos quatro títulos da minha lista abaixo.

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