Grotesco e vil

Agradeço a Deus todos os dias por ter amigos normais. Gente com neuras, barriguinha, chatices, impaciência, lapsos, pequenos egoísmos, ausências, espinhas, birras, opiniões ridículas. Espero jamais ter que conviver com um destes tipos perfeitos que encontramos dando entrevistas nas revistas e na TV. Essa gente certa, equilibrada, que faz dieta, exercício, ioga, cuida do corpo e acredita cuidar de sua mente. Pessoas sem falhas que, na sua humildade calculada, arrogam-se o direito de criar regras para mim, me orientando no meu modo de viver, o que devo comer e como devo pensar. Esta raça robótica de sujeitos equilibrados, certos, seguros, que pensam positivo todo o tempo e ainda querem que eu leia os seus livros, veja os seus filmes e me converta a sua religião sem deidades.

Pensei em escrever aqui o quanto sempre me impressionaram os diálogos ouvidos por acaso e, os piores, os nos quais fui obrigado a participar. Na versão pessoal deles, são superiores ao mundo, às dores e traições e a sua própria insignificância. Não estivessem tão intoxicados de auto-estima, saberiam rir de si mesmos como às vezes sou tentado a fazer por ter de ouvi-los – por sorte, ou azar, sou educado demais para gargalhar disso. Mas lembrei-me de que é melhor, muito melhor, deixar que Fernando Pessoa, em um de meus poemas preferido, resuma tudo.

Poema em linha recta

Nunca conhecí quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que hà gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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2 Respostas to “Grotesco e vil”

  1. Lia Winter Says:

    😉

  2. marcelopes Says:

    Lia, gostei do seu blog. E continuemos imperfeitos!

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