A Herança / The Overture

Sim, eu já assisti a filmes iranianos, belgas, macedônios e (“oh, o horror, o horror…”) brasileiros, mas jamais havia visto um filme tailandês. Graças ao canal Cinemax pude conferir A Herança (The Overture / Home Romg), uma produção de 2004 vinda diretamente da Tailândia. Antes de qualquer coisa, não tenho nenhum interesse antropológico no cinema. Não sou daqueles cinéfilos que correm a sala de projeção mais obscura possível para ver uma produção independente de Papua Nova Guiné; na verdade, confesso em parte concordar com aquela piada corrente na web brasileira de “não ver filmes de países que não possuem saneamento básico”. Por outro lado, sei que nada impede uma boa surpresa vinda de algum lugar cuja producao cultural desconhecíamos até pouco tempo – boas histórias são universais e independem de local de nascimento, claro.

É um filme muito simples, direto e honesto, e são estas qualidades que o tornam interessante, da mesma forma que, digamos, o superior Encantadora de Baleias. É verdade que o diretor escolhe planos que flertam o tempo todo com os mais difundidos clichês narrativos do cinemão ocidental. Lembra-se da câmera que se aproxima por baixo do personagem até enquadrar seu rosto num momento de tensão tipicamente spielberguiana? Está lá. A câmera que gira sobre um ponto fixo, posicionada no alto? Também. O travelling a bordo da grua sobre veículos e construções, depois fixando-se nos personagens? Pois é. E estas escolhas acabam por ser irônicas, já que o roteiro enfoca também a Revolução Cultural Tailandesa da década de 1940, quando o governo militar quis fazer uma modernização de costumes com a delicadeza de um parto auxiliado por fórceps. Por outro lado, um dos trunfos do filme é a boa construção de seqüências em tempos distintos, contando a história do músico Sorn em dois momentos: sua formação e crescimento artístico e sua vida como mestre, já perto de seus últimos dias. Esta dinâmica simples faz o interesse do filme se manter, já que a história sobre um estilo musical quase esquecido poderia rapidamente cansar o público.

A Herança sofreu com as primeiras semanas de exibição com números ridículos nas bilheterias. Logo, o boca a boca e a propaganda da mídia, que abraçou o filme como um (argh) libelo nacionalista, chamaram a atenção até da família real tailandesa e a película cresceu em popularidade. Curiosamente, a ótima cena do duelo musical entre Sorn e o idolatrado e temido Kuhn In lembra muito a de outro bom filme relativamente desconhecido, o belga O Mestre da Música – não disponível no Brasil.

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2 Respostas to “A Herança / The Overture”

  1. atmj Says:

    Sempre é bom assistir coisas novas, filmes independentes ou de países que não estejam no circuito comercial.
    Um abraço!

  2. marcelopes Says:

    atmj, eu sou um cinéfilo bem bizarro, capaz de assistir Duro de Matar 4 e, sei lá, Um Lugar na Platéia no mesmo dia. Mas costumo experimentar muitos sabores diferentes de cinema tb e acabo descobrindo boas surpresas.

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