Escrever é reescrever

Acabei perdendo o link para uma entrevista com Jorge Luís Borges, então reproduzo aqui o que consigo lembrar, ou melhor, o que acabou por me dizer respeito. O escritor argentino confessava que, quando mais jovem, acreditava piamente que escrever consistia em descrever de forma diferente qualquer coisa, evento, objeto, ação. E ainda dizia que é um equívoco comum. Sou obrigado a assinar embaixo e ainda rubricar em todas as vias.

Quando achava que sabia escrever umas duas ou três páginas seguidas, eu as enchia com descrições absurdas, voleios e floreios absolutamente inúteis para as ações mais ínfimas. É uma pena que eu não tenha mais o caderno em que iniciei meu primeiro romance (sim, pode rir) para ilustrar o grau de indigência intelectual que eu acreditava ser sinônimo de literatura. O tal livro tinha o título (prepare-se para rir de novo) Todas as Noites da Eternidade (certo, certo, já parou de rir? ok, podemos continuar) e narrava o relacionamento de dois jovens que acabavam parando numa cidadezinha condenada para desaparecer debaixo das águas de uma hidrelétrica. Até acredito que seria possível tirar uma boa história dali, mas, unindo a minha pretensão adolescente a falta de leituras, o resultado não poderia ser mais desastroso. Felizmente, o projeto ficou pelo meio do caminho. Na verdade, eu estava quase replicando o personagem de Michael Douglas em Garotos Incríveis, que escrevia o mesmo romance sem conseguir chegar a um final. Mas, isso, bom, aconteceh há uns quinze anos.

Depois desta experiência, passei muito tempo sem me arriscar na escrita de qualquer coisa mais complexa do que uma redação de 180 toques. Para minha sorte, li bastante, embora de forma (muito) desorganizada. Mas logo depois, também passei por um hiato de leituras bem duradouro, que só quebrei aos 20 anos, com o Leviatã de Paul Auster. Logo estava devorando toda e qualquer coisa que caísse no meu colo. E, por conseqüência, acabei voltando a escrever narrativas curtas.

Foi então que, de alguma forma, toda aquela leitura fez algum efeito; percebi que era dramática a distância entre o que eu lia e as páginas que eu conseguia produzir. Passei a burilar a escrita, as páginas, parágrafos, aprendi que escrever é reescrever, como já havia dito Drummond, e passei a rever meus textos sempre e sempre, quase com crueldade. Lembro-me de que uma vez mostrei um conto a uma amiga e depois pedi para que era lesse outra versão, fruto da revisão furiosa de alguns dias depois. Eram terrivelmente diferentes e ela ainda disse que trechos dos quais ela gostara foram parar no lixo.

Não sei dizer se consegui me livrar totalmente da mania ridícula do meu suposto primeiro romance, mas aprendi que a reescrita é a minha ferramenta preferida para melhorar meu texto. Mas posso dizer que substituí a pretensão pela ambição sincera. Como diz o desenhista de quadrinhos Adriano Batista (minhas referências são as mais variadas possíveis, já deveria estar acostumado), deve-se descartar as dez primeiras idéias sobre qualquer coisa. Mas, e aí vai o mais importante, elas devem ir para o papel, porque vê-las “impressas” nos ajuda a melhorá-las, a tirar delas o que há de interessante e jogar o resto fora. É isso que a reescrita proporciona.

“Escrever é traduzir idéias em palavras. Escrever bem é conseguir traduzir essas idéias nas palavras mais exatas, verdadeiras e belas possíveis.Eis aí uma boa definição da chamada arte da escrita.”
Antônio Fernando Borges

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6 Respostas to “Escrever é reescrever”

  1. Julia Says:

    Ao colega escritor,
    um breve poema de Borges.

    “As coisas

    A bengala, as moedas, o chaveiro,
    A dócil fechadura, as tardias
    Notas que não lerão os poucos dias
    Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
    Um livro e em suas páginas a seca
    Violeta, monumento de uma tarde
    Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
    O rubro espelho ocidental em que arde
    Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
    Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
    Nos servem como tácitos escravos,
    Cegas e estranhamente sigilosas!
    Durarão para além de nosso esquecimento;
    Nunca saberão que nos fomos num momento.”

    Abraços,

    ah… aproveito para dizer que gostei bastante dos teus escritos.

  2. osrevni Says:

    Compreendo perfeitamente a tragetória que você descreve. Passei, e continuo passando, pela mesma parábola pretensão-ambição. É uma pena que a pretensão ainda seja a característica mais disseminada entre os escritores…

  3. Os Títulos e os Mortos « Universo Tangente Says:

    […] estava ligada a vontade tola de dizer tudo de forma “diferente”, como eu descrevi neste post. Não entendia que a função do título não é adornar, sobressair-se ou ficar mais famoso do que […]

  4. marcelopes Says:

    Julia, obrigado pelo poema. A companhia de Borges é sempre grandiosa.

  5. marcelopes Says:

    osrevni, concordo plenamente. É difícil admitir que ainda é preciso um bom tempo de maturação, de trabalho duro.
    Cito o Bruno Garschagen, de quem sempre leio o blog: “Por que não tentar escrever bem, lapidar o que escreve, esperar o tempo de maturação, guardar textos na gaveta, voltar a eles tempos depois, analisá-lo de novo, lapidá-lo, reescrevê-lo de se for preciso. Por que essa sanha de querer ser publicado? De querer ser o mais jovem escritor da literatura pátria? Se houve um tempo no qual escritores transformavam suas doenças do corpo, mentais e psíquicas em boa literatura, vemos hoje escritores adoecendo a literatura para conseguir celebração, coquetéis, viagens, resenhas nos jornais, quem sabe até uma foto em Caras.”

  6. As vozes de ontem « Universo Tangente Says:

    […] minha primeira tentativa de escrever um romance, aproximadamente quinze anos atrás (já falei nele aqui). O título besta só serve mesmo para esconder um fato bastante simples que vou […]

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