Poderosa Afrodite / Mighty Aphrodite

Woody Allen é um tipo de clube. Quem está do lado de dentro acha tudo muito interessante e curioso; já aqueles que ficam olhando por cima do muro não conseguem entender qual a graça que a turminha vê nas mesmas caras e piadas. Pois é, eu estou dentro dos muros. E mesmo assim, o último Allen que vi numa sala de cinema foi o ótimo Poucas e Boas, com Sean Penn, em 2000 – eu e outros três sujeitos solitários numa sessão vespertina em plena terça-feira. Dito isso, nada explica o porquê de eu ter demorado tanto tempo para assistir a Poderosa Afrodite.

Na verdade, entendo a razão. Sempre achei que havia uma fórmula ali: um mané enfrenta o casamento em crise procurando a mãe biológica de seu filho adotivo e acaba encontrando uma prostituta espirituosa. Para a coisa ficar ainda mais interessante, há um coro de teatro grego acompanhando a história. Ignorei os elogios à época e fiquei preso a esta idéia idiota de que o filme seria apenas um Allen genérico e pouco inspirado (mais ou menos como Celebridades). Para variar, eu não poderia estar mais equivocado.

Acredito realmente que é um erro de muita gente querer enxergar em Allen um diretor excessivamente intelectualizado – é uma verdade parcial. Woody Allen é Jerry Seinfeld depois de ler a coleção Os Pensadores, da Editora Abril. Para apreciá-lo, você não precisa ter lido Schopenhauer no original, basta ter um pingo de curiosidade pelo repertório básico de filosofia, história, literatura e cinema escrito e referenciado no século XX. Ou seja, eu, você, um sujeito comum com algum gosto por piadas cheias de referências está pronto para, quem sabe, gostar de um filme típico de Allen. E Poderosa Afrodite tem o peso pena do delicioso Todos Dizem Eu te Amo, apenas é bem mais boca suja.

Vista hoje, a interpretação da Mira Sorvino, que causou furor na época do lançamento, continua muito boa, o que só faz aumentar o estranhamento diantes de suas bizarras escolhas de carreira pós-Afrodite. Ela cria uma prostituta ao mesmo tempo resistente a ordens de terceiros e frágil em seus momentos mais íntimos. Não, ela não é ingênua. Felizmente, o filme foge deste clichê, ela apenas leva sua vida da melhor forma que seu intelecto sinceramente forrestgumpiano permite. Desta vez, o personagem de Allen não é um escritor ou crítico; é um cronista esportivo, casado com uma artista disposta a fazer todos os possíveis contatos para abrir sua própria galeria – o que aborrece terrivelmente o sempre irascível baixinho.

Mas eu havia afirmado que o filme é peso-pena. De fato, todo o roteiro caminha para um final doce, leve, quase familiar. Tudo dará certo para os personagens, num deus ex-machina coletivo. E, claro, há o coro grego, liderado pelo fenomenal F. Murray Abraham. Aliás, o anacronismo do tal coro é perfeito (há apenas uma piada óbvia demais, envolvendo Zeus), encerrando o filme ao som de “When you’re smiling” (hum, posso estar enganado, espero que seja esta música mesmo). Imperdível.

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