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Barbárie – Parte 2

sábado, 22 setembro, 2007

Continuando a série de posts desenterrados do limbo, republico um pequeno texto que foi ao ar no meu antigo blog, há mais de 4 anos – e o tal post já incluía a republicação de outro texto de minha autoria. Se você já trabalhou com programação de computadores, como eu, sabe que estou ficando recursivo. Se você não trabalhou com isso e não entendeu a minha tentativa de ser engraçado, não se preocupe: a piadinha é ruim mesmo.

Publico aqui por duas razões: estava pensando no assunto dias atrás e meu antiquíssimo blog recebeu um visitante anônimo que deixou um comentário para este post. Como o texto em si tem quase 8 (!!!) anos, por favor relevem algumas coisas das quais eu me envergonharia hoje – “Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade” parece frase de crítico de música da extinta Bizz. E o final do texto é meio ridículo. Mas mantenho a tese.

Barbárie

Os irmãos Chapman, parte da chamada nova geração de artistas britânicos – aqueles da exposição “Sensations” – ,resolveram pintar rostos de macacos e palhaços sobre ilustrações originais de Goya. Não, você não leu errado; eles pintaram por cima da série “Desastres de Guerra”, de Goya, que está, agora, permanentemente arruinada. Ao redor deste ato de estupidez “artística”, voam os críticos idiotas que abaixam as suas cabeças para qualquer artistazinho “novo” que resolve “chocar o mercado”, os empresários da área, ansiosos por patrocinarem nomes “quentes” e os que fingem entender alguma coisa, entupindo as galerias com seus comentários vazios. Toda esta gente pode gostar de se enganar. Eu não.
Artistas e empresários do meio se esquivam da questão, evocando a discussão sobre a propriedade das obras de arte (sim, os Chapman são os donos da série “Desastres de Guerra”), que não me interessa aqui. O que é realmente importante, ninguém tem coragem de admitir: a obra destes dois irmãos é pobre, ruim, burra. Ponto final.
Quase quatro anos atrás, escrevi uma carta-artigo que mandei a alguns amigos. Reproduzo trechos dela abaixo, e não mudo uma vírgula sequer:

Elogio da Banalidade
Ouvi, tempos atrás, o álbum Outsider, de David Bowie. Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade, o disco era acompanhado pelo diário de um certo Nathan Astler, detetive particular do século XXI. Especialista em casos escabrosos – rapto e assassinato de pessoas visando ao tráfico de seus órgãos para artistas plásticos. Ora, o que isso tem a ver com o artigo do caderno Pensar do Estado de Minas de um sábado modorrento, 24 de julho de 1999, intitulado Tempo de Ser Banal, de autoria do arquiteto e designer Paulo Laender?
O artigo trata do estado atual da arte, ou de sua ausência. Para tanto, outros três artigos são citados: Escândalos Artísticos, de Vargas Llosa, Chute Logo um Artista, de Diogo Mainardi e Fome de Bienal, dos articulistas do caderno. Vejamos as citações de citações. O que viu Llosa? “Chris Offil, de 29 anos, aluno do Royal College of Art, mostra suas obras sobre uma base de excremento de elefante solidificado… Outro escultor atulhou suas urnas de cristal com ossos humanos e até resíduos de um feto… Outra, intitulada ‘Aceleração Zigótica’, apresenta um leque de meninos andróginos cujos rostos são, na verdade, pênis eretos…” Diogo Mainardi:”Depois de visitar as obras dos 102 artistas de 59 países você sai com a certeza de que aquilo é puro charlatanismo(…) A americana Ann Hamilton resolveu apresentar um pozinho vermelho que cai das paredes. E daí? O francês Jean Pierre Bertrand enfileira cedros numa prateleira. E daí? A sensação predominante é de que os artistas gastam dez minutos para pensar suas obras e seis meses na tentativa de justificá-las, em vez de fazer o contrário…”
Eu continuo… Basta uma patética e falsa postura, gestos afetados, uma ou outra frase, mais ou menos elaborada, e nosso candidato torna-se um artista na mãos de marchands ávidos por divulgação e aparição. Arte? Ah, isso… faça uma instalação. Misture materiais rústicos com atuais, chame a tal intervenção do público. Não gostou? Justifique a incompletude como metáfora da existência humana, é simples, todos gostam da frase, até alguns críticos. Soa bem. Quer chocar? Decepe, decapite, exiba órgãos putrefatos, fetos em decomposição, cavalos empalhados, close-ups de genitálias. Simples. Arte, não?
Não. Esses sujeitos, com algumas exceções, ou são pobres coitados que se iludem com o que fazem ou estão muito conscientes do papel ridículo a que prestam. Mas quem vai lhes cobrar? Que público? Este que vai a Bienal como se fosse a exposição de fotos do casamento de alguma celebridade? Duvido. Assim vamos. Antes a arte era inacessível a população por ser considerada complexa – mentira. Agora, acessível, está diluída. A arte está falindo, perdeu seu significado – e não há nada de grave nisso, desde que alguém se proponha a enfrentá-la, novamente. Não é a toa que os poucos que estão conscientes disso colocaram chimpanzés para pintar.
Nesse mundinho de bárbarie de final de milênio, diríamos que a matéria-prima é a violência. Se tais artistas realmente se preocupassem em criar, pensar, elaborar, testar, discutir, encenar esta violência, eu até concordaria. Mas o andamento que dão é o de publicitários de si mesmos, de simples expositores do caos. Nada mais. Daí tanta escatologia que não chega a lugar algum, nada, esta tentativa de reaproximação com o sexo em imagens cruas, desprovidas até de estética, tão precárias que são suas propaladas instalações. Além do mal-estar, que passam? Nada. E até o mal-estar, caros artistas, passa, logo na esquina às vezes. Sem mal-estar, o que sobra destas obras? Nada. Nem sobrará, estejam certos. Por quê? Porque Mainardi está com a razão – porque estes artistas gastaram dez minutos para pensar e fazer sua obra e seis meses para justificar!
Então, quem diria, correto estava um roqueiro inglês de cinquenta anos, para quem a arte virou um painel vazio exibindo horrores banais.

Medo e Delírio no Segundo Grau

sábado, 22 setembro, 2007

Eu escrevi este post umas duas semanas atrás e decidi não publicar, não sei bem a razão. Mas acabei reeditando o texto, depois das recentes discussões sobre a baixíssima qualidade do material didático brasileiro e sua contaminação por uma visão de mundo que deveria estar esquecida em algum manual maoísta dos anos 60.  

Sempre que eu falo “segundo grau” no lugar de “ensino médio”, alguém percebe que não sou tão novinho assim – claro que ela teria ignorado também as minhas entradas capilares temporais – e que a escola do meu tempo não é a mesma de hoje. Ao ler as questões do Enen 2007, infelizmente, percebo que a escola brasileira não mudou nada em 10, 20 ou 30 anos. Minto: mudou para pior. O que continua igual é aquele marxismozinho xumbrega, que se espalha por todas as questões do exame nacional do ensino médio.

O que me faz lembrar meu segundo grau (olha ele aí de novo) num CEFET de 15 anos atrás. Tínhamos história e geografia apenas no primeiro ano e os professores faziam questão de enfiar todo o século XX nas nossas cabeças contando com pouco mais de 2 horas de aulas semanais – No sistema de ensino do Bananão, a história começa mais ou menos no século XVIII, e ninguém sabe quem foram Alexandre o Grande, Dario, Ricardo Coração de Leão, Henrique VIII, Shakespeare, etc. Para completar a bagunça, meu curso instantâneo de história do século passado teve duas fases.

A primeira foi a de um professor francamente liberal. Não, ele não não autorizava o bundalelê (infelizmente) na sala de aula, era um capitalista-democrata-liberal. Andava de um lado para outro com um bizarríssimo cigarro marrom na boca (como fumavam os professores àquele tempo!), fazendo algumas observações e orientando a leitura dos textos. Na verdade, parecia sofrer de uma óbvia impaciência para com aquele bando de moleques, o que elevava as aulas a um estado superior de tédio absoluto. Lembro-me de um colega que reclamava do sujeito que seria “liberal demais”, naquele tom arrogante, apaixonado e ridículo de um adolescente que se considera (argh) politizado.

A segunda fase veio com uma professora que, lembrada hoje, parecia-se fisicamente com a Heloísa Helena, versão com o pivô incluído. E intelectualmente também. Não havia uma aula em que a dita cuja não elogiasse Fidel Castro, Guevara, Mao e patota. Por outro lado, as aulas rendiam: debates, argüições orais (e vexatórias, como diria outro colega), trabalhos longos que se espalhavam por semanas. No final das contas, todo mundo, sem exceções, concordava com ela e ainda nos sentíamos maduros e independentes.

Recentemente, descobri que o livro-texto de então continua por aí, serelepe e cheio das estatísticas fraudulentas que deveriam provar o poderio e superioridade da então URSS – o que fica ainda mais ridículo depois que se lê uma determinada historinha sobre porcos, cavalos, cachorros e galinhas se rebelando contra seus patrões, ops, fazendeiros. O livro no qual fui obrigado a estudar é este aqui.

O CEFET tem uma vantagem sobre as escolas de hoje: matemática e português a gente aprendia e muito bem. Porque, atualmente

Duas leituras tortas

quinta-feira, 20 setembro, 2007

Na minha adolescência, lia com alguma freqüência as colunas de Joel Silveira e Paulo Francis nos jornais de Minas Gerais. Na verdade, nem me lembro de muita coisa, mas aqueles textos me atraíam porque eram diferentes do restante do jornal. Eu acreditava que os jornalistas eram todos possuídos pelo espírito de Herbert Ritchers quando se sentavam às suas máquinas de escrever, produzindo textos de estilo padronizado. Logo, os colunistas, cronistas e pitaqueiros chamaram a minha atenção.

Minha família comprava o Diário da Tarde quase sempre e o Estado de Minas aos domingos. O Diário era ruim de doer e por um bom tempo quase se igualou ao Notícias Populares na inacreditável capacidade de comprimir litros e litros de sangue em tão poucas páginas. Aos sábados, saía uma tal Revista Nacional (posso estar enganado) em que Silveira tinha uma página. Eram notas curtas, diretas, um mau humor bem humorado, se me perdoam a obviedade. Eu praticamente só lia aquela página e lamentei que o tablóide tenha parado de vir no meio das páginas de sábado alguns anos depois. Só fui lei mais do Joel Silveira muito mais tarde, e confesso que sua morte recente me pegou de surpresa. Se é que vale o registro deste tipo de bobagem, falou-se mais do aniversário da Diana do que da perda de Silveira.

Já o Paulo Francis escrevia textos algo caudalosos, tinha a última página do caderno de cultura para o seu Diário da Corte só para ele. Francamente, eu não entendia a maior parte das referências culturais que ele despejava com uma naturalidade de causar inveja eterna em qualquer aspirante a escritor. Ainda era o Francis-personagem, que fazia parte do repertório de imitações de todo comediante vagabundo, falando mal de democratas e republicanos no Jornal da Globo, sempre direto de Nova Iorque. Eu via os textos como o verdadeiro Francis, divertido, culto e interessante, ao mesmo tempo integrado e distindo do personagem da TV. Confesso que não voltei a lê-lo, até hoje. Guardei os Diários da Corte por algum tempo, depois os perdi sei lá onde. Mas o ASS teve uma ótima idéia; vale a pena acompanhar.

Aqui o Polzonoff fala do fantástico O Inverno da Guerra, de Joel Silveira; e aqui, narra um encontro com o próprio. Mais: A última entrevista de Silveira, no Resende Agora.

Para encerrar, um texto belo, curto e doloroso sobre Francis.

Reforma ortográfica para quê?

domingo, 16 setembro, 2007

Eu tenho uma lista relativamente extensa de assuntos capazes de despertar toneladas de tédio armazenadas – e a danada cresce dia após dia. Nem preciso dizer que esta “reforma ortográfica” é um deles. Sim, sim, há especialistas que sabem explicar, detalhe por detalhe, a razão para a reforma, suas vantagens e o que supostamente ganhamos com ela. Eu não sou lingüista ou professor de português, falo apenas como um sujeito comum que se esforça um pouco para escrever com clareza e correção. Vi a lista das alterações sugeridas e não consegui imaginar em quê grafar “heroico” no lugar de “heróico” vai ajudar a consolidar a língua portuguesa no panteão dos idiomas de relações internacionais – um dos objetivos da reforma.

Perdoem-me os que possuem maior conhecimento sobre as diferenças entre o português de Portugal, Brasil e Moçambique, mas a idéia toda me parece fruto de reuniões de burocratas e sua obsessão em ordenar a natureza até certo ponto caótica da sociedade. À exceção dos lusitanos, os demais países desta comunidade de 250 milhões de falantes ainda não chegaram perto de diminuir suas taxas de analfabetismo – real e funcional. A ironia de toda esta história é que adequação às novas normas da língua vai exigir investimentos estatais e privados de bom porte. Tudo em nome de uma ilusão de grandeza e padronização cultural na base da canetada tipicamente brasileira.

A propósito, Portugal não ratificou o acordo. Apenas o Bananão e dois bananinhas, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe disseram sim. Logo, ele não deve sair tão cedo.

De Volta

sexta-feira, 14 setembro, 2007

Enrolado em trabalhos, compromissos e as confusões diárias, acabei ausente por um tempo razoável. Mas pensei muito sobre muita coisa e logo começo a escrever. Reforma ortográfica, 7 de setembro, Piratas do Tietê. Mas não se preocupe: nada de Renan Calheiros. Eles não merecem.

Da aventura à pobreza do realismo

quinta-feira, 6 setembro, 2007

Não acredito em gêneros. Ou, melhor dizendo, não me importo com eles. Conheço quem não assiste a filmes de ação, melodramas ou não lê obras de mistério ou ficção científica – o que é perfeitamente normal. Eu apenas tento me convencer de que não me falta personalidade para rejeitar enfaticamente alguma, digamos, categoria cultural, mas que este meu (detesto a palavra seguinte, mas como estou mesmo a revelar certo traço ridículo de minhas afinidades, deixo como está) ecletismo permite-me a exposição a múltiplas influências. Mas o fato é que tendo a ignorar limites de gêneros e tentar encontrar boas obras em todo lugar. No fundo, talvez seja apenas imaturidade. Ou ingenuidade.

Confesso que já tive, quando adolescente, alguma predileção especial por ficção científica, embora tenha lido relativamente pouco. E, sem medo do clichê, entendo que sempre foi a construção de um mundo baseado em uma ou algumas possibilidades destoantes do real o que me atraía. As narrativas de aventuras também contrubuíram bastante: Gosto tanto de Tintin e Indiana Jones quanto de Moby Dick e O Coração das Trevas. Na verdade, a ficção científica tornou-se o bastião em que a literatura de aventura foi se abrigar da arrogância contemporânea do realismo. Daí que alguns órfãos de aventuras acabam por ingressar no circuito nerd da FC.

A literatura está farta de “naturalismo pornográfico”, como bem disse Antônio Fernando Borges, o que é especialmente verdade aqui no Bananão, em que ainda vigora o que Alex Castro chamou “escola urbana”. Em resumo, é uma confraria habitada por imitadores de Rubem Fonseca e leitores do Notícias Populares (ainda existe?) com pretensões literárias. Como escritores que decidiram “mostrar o mundo como ele é”, são apenas adolescentes que leram Bukowski e jamais conseguiram superar esta fase. O fôlego da proposta é muito, muito curto, mas sempre aparece alguém disposto a fazer um boca-a-boca na moribunda e a tal escola volta a nos assombrar. Esta bizarríssima tara pelo realismo é, também, uma muleta para a mediocridade do escritor que abdica de seu papel de construtor de universos e o troca pela sua suposta representação.

Por outro lado, há coisas como O Código daVinci, que partem de um universo mítico e o demolem, a cada página com a precisão calculada de romance policial mediano. Sua intenção assumida é fazer o leitor se acreditar mais esperto do que realmente é a medida em que a trama revela que o mundo do leitor é o único real. Neste tipo de livro, não há lugar para Mistério com M maiúsculo; a obra adula quem o lê e oferece a crença no realismo como uma atitude superior. O Código daVinci apenas nos diminui. Eu não consegui atravessar a décima página, mas sabia exatamente o que viria dali para frente; bastou-me meia hora de conversa com um fã de Dan Brown para descobrir que estava certo.

Os idiotas da objetividade argumentarão que defendo o escapismo, ou coisa parecida. Tenho pena destes sujeitos que jamais conseguiram enxergar a fantástica capacidade de criar elaborados universos com habitantes terrivelmente humanos que faz de Machado de Assis, apenas para citar o exemplo mais óbvio, quem é.

Num artigo sensacional, Meu problema com a literatura de viagem, Alexandre Soares Silva diz que precisamos devolver a dignidade à África. Ele não fala da África equivocada de Bono Vox, mas da literária, mítica, digna e misteriosa:

O que houve com o Mistério que abandonou o mundo? É possível recuperá-lo? Algum dia a mera menção a África vai voltar a causar-nos um frisson de adolescente lendo As Minas do Rei Salomão?[…] Onde está o escritor de viagens, ou mesmo de ficção, capaz de trazer o mistério e a dignidade de volta para África? E para o mundo? Porque o mundo inteiro precisa disso, mistério e dignidade – as ruas de Estocolmo e Boston, Lisboa e Brasília, tanto quanto as savanas onde Allan Quartermain caçava.

Os Títulos e os Mortos

terça-feira, 4 setembro, 2007

Quando eu era (ainda) mais novo, mantinha uma lista de títulos futuros para contos e/ou romances. Eram premissas, anotações, impressões jamais realizadas. Para alguns eu já tinha personagens e histórias, mas a maioria eram apenas pistas mal ajambradas que não se encaixavam em crime algum – porque só poderia ser mesmo um crime escrever um livro com algum daqueles títulos.

Não sei dizer exatamente o porquê, mas a construção destes títulos me fascinava. Eu os encarava como entidades quase distintas da futura obra, uma espécie de marketing tosco a que o escritor se obrigava. No final das contas, a maioria absoluta era muito ruim; construções do tipo “Artigo + Substantivo + Preposição + Substantivo”. Coisas como O Baile dos Caramujos, A Alma dos Ateus ou algo mais sofisticado como A Vida Secreta dos Replicantes. Bom, estes três os inventei agora, mas servem de amostra do nível da minha brincadeira àquela época.

Na verdade, esta fixação juvenil por títulos estava ligada a vontade tola de dizer tudo de forma “diferente”, como eu descrevi neste post. Não entendia que a função do título não é adornar, sobressair-se ou ficar mais famoso do que o conteúdo do livro (meu Deus), mas integrar-se a ele, fazer parte de todo um projeto, uma certa ambição que é função do texto e não do escritor. Ou, melhor dizendo: este artesanato imaturo do título é apenas uma questão de vaidade, um sintoma claro daquele equívoco tão comum de querer ser maior do que a obra (geralmente medíocre), de ostentar o (geralmente medíocre) estilo de vida dos artistas ao invés de trabalhar duro sobre as páginas.

Imaginemos o que seria de Anna Karenina, Crime e Castigo e A Divina Comédia caso tivessem seus títulos alterados por, digamos, Sidney Sheldon, J.M. Simmel e Paulo Coelho? A Amante Russa, Redenção de um Assassino e Do Mais Negro Inferno Ao Mais Puro dos Céus? Aceito sugestões.

E leia este post do Bruno.

E, sim, a minha lista está perdida em algum canto da casa, felizmente.

Precisa-se de um exorcista

sábado, 1 setembro, 2007

Sim, preciso de um exorcista urgentemente. Preciso exorcisar este brasileiro que ainda insiste em viver dentro de mim. Explico-me.

Sem nada para fazer e sem sono (por que não fui ler um livro, meu Deus?), cometi o erro de passear pelos 1952 canais da TV por assinatura. Antes de ver (mais) um leão comendo (mais) um gnu no Discovery Channel, minha atenção foi capturada por um curta que era exibido no Canal Brasil. Era uma coisa bizarra, cuja descrição foge a minha capacidade de chocar os leitores. Os tais curtas eram alternados por entrevistas com quatro artistas que fingiam discutir a liberalização das drogas, em especial da maconha. Fingiam porque eram todos favoráveis, e os curtas serviam de suporte a seus (na falta de palavra melhor, vai esta mesmo) argumentos, que não iam além do que já nos acostumamos a ouvir nestes debates da turma a favor.

Mas a cerejinha do bolo viria ao final: um último vídeo, em que um sujeito, vestido como um guerrilheiro, defendia o tráfico de drogas como um bastião de resistência a ordem burguesa e foco da revolução que iria superar o capitalismo.

Chego a duvidar que eu tenha escrito o parágrafo anterior. Definitivamente, eu não pertenço a esta cambada que pensa assim. Não, não é possível, não posso ser o mesmo brasileiro que estes cidadãos a defender ruidosamente idéias que deveriam jazer no caixão das idiotices intelectualóides do milênio passado. Por isso, preciso de um exorcista, para arrancar de mim este brasileiro-caveira, esta criatura atrasada, ignorante e medíocre que, vez ou outra, vem à tona. Certamente, eu estava possuído quando usei o controle remoto naquela madrugada de sono de agosto de 2007.