Da aventura à pobreza do realismo

Não acredito em gêneros. Ou, melhor dizendo, não me importo com eles. Conheço quem não assiste a filmes de ação, melodramas ou não lê obras de mistério ou ficção científica – o que é perfeitamente normal. Eu apenas tento me convencer de que não me falta personalidade para rejeitar enfaticamente alguma, digamos, categoria cultural, mas que este meu (detesto a palavra seguinte, mas como estou mesmo a revelar certo traço ridículo de minhas afinidades, deixo como está) ecletismo permite-me a exposição a múltiplas influências. Mas o fato é que tendo a ignorar limites de gêneros e tentar encontrar boas obras em todo lugar. No fundo, talvez seja apenas imaturidade. Ou ingenuidade.

Confesso que já tive, quando adolescente, alguma predileção especial por ficção científica, embora tenha lido relativamente pouco. E, sem medo do clichê, entendo que sempre foi a construção de um mundo baseado em uma ou algumas possibilidades destoantes do real o que me atraía. As narrativas de aventuras também contrubuíram bastante: Gosto tanto de Tintin e Indiana Jones quanto de Moby Dick e O Coração das Trevas. Na verdade, a ficção científica tornou-se o bastião em que a literatura de aventura foi se abrigar da arrogância contemporânea do realismo. Daí que alguns órfãos de aventuras acabam por ingressar no circuito nerd da FC.

A literatura está farta de “naturalismo pornográfico”, como bem disse Antônio Fernando Borges, o que é especialmente verdade aqui no Bananão, em que ainda vigora o que Alex Castro chamou “escola urbana”. Em resumo, é uma confraria habitada por imitadores de Rubem Fonseca e leitores do Notícias Populares (ainda existe?) com pretensões literárias. Como escritores que decidiram “mostrar o mundo como ele é”, são apenas adolescentes que leram Bukowski e jamais conseguiram superar esta fase. O fôlego da proposta é muito, muito curto, mas sempre aparece alguém disposto a fazer um boca-a-boca na moribunda e a tal escola volta a nos assombrar. Esta bizarríssima tara pelo realismo é, também, uma muleta para a mediocridade do escritor que abdica de seu papel de construtor de universos e o troca pela sua suposta representação.

Por outro lado, há coisas como O Código daVinci, que partem de um universo mítico e o demolem, a cada página com a precisão calculada de romance policial mediano. Sua intenção assumida é fazer o leitor se acreditar mais esperto do que realmente é a medida em que a trama revela que o mundo do leitor é o único real. Neste tipo de livro, não há lugar para Mistério com M maiúsculo; a obra adula quem o lê e oferece a crença no realismo como uma atitude superior. O Código daVinci apenas nos diminui. Eu não consegui atravessar a décima página, mas sabia exatamente o que viria dali para frente; bastou-me meia hora de conversa com um fã de Dan Brown para descobrir que estava certo.

Os idiotas da objetividade argumentarão que defendo o escapismo, ou coisa parecida. Tenho pena destes sujeitos que jamais conseguiram enxergar a fantástica capacidade de criar elaborados universos com habitantes terrivelmente humanos que faz de Machado de Assis, apenas para citar o exemplo mais óbvio, quem é.

Num artigo sensacional, Meu problema com a literatura de viagem, Alexandre Soares Silva diz que precisamos devolver a dignidade à África. Ele não fala da África equivocada de Bono Vox, mas da literária, mítica, digna e misteriosa:

O que houve com o Mistério que abandonou o mundo? É possível recuperá-lo? Algum dia a mera menção a África vai voltar a causar-nos um frisson de adolescente lendo As Minas do Rei Salomão?[…] Onde está o escritor de viagens, ou mesmo de ficção, capaz de trazer o mistério e a dignidade de volta para África? E para o mundo? Porque o mundo inteiro precisa disso, mistério e dignidade – as ruas de Estocolmo e Boston, Lisboa e Brasília, tanto quanto as savanas onde Allan Quartermain caçava.

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4 Respostas to “Da aventura à pobreza do realismo”

  1. Renata Miloni Says:

    Como o post é ótimo, resolvi deixar meu primeiro comentário.

    Não sei se falo isso por concordar (e, se for, não será muito humilde de minha parte), mas eu acho que uma pessoa que não se importa com gêneros tem é mais personalidade do que as que se importam. A mente aberta vem primeiro e depois a seleção. Gênero é só para o ser humano continuar com a mania de categorização. Não serve para qualquer coisa.

    Você tocou num ponto que eu sempre concordei: a tara pelo realismo dos escritores. Você descreveu melhor, eu costumo dizer que é preguiça mental mesmo. Que esse tipo de “escritor” escreve porque não encontrou algo que pudesse chamar de hobby, então se disfarça na profissão.

    E o ASS está certo: o mundo precisa disso. Mas não tenho muita esperança de que teremos num futuro próximo.

  2. marcelopes Says:

    Renata, eu tb não acredito que teremos isso tão cedo, infelizmente. E confesso que não conhecia ainda o seu blog, mas já está nos meus favoritos agora.

  3. Renata Miloni Says:

    Marcelo, obrigada pelo link. Mas o Literorragia está bastante tempo sem atualização (e vai ficar um pouco mais), se achar melhor deixar o link do blog mesmo… 🙂

  4. Dois desejos literários (e um pop) – Parte 1 « Universo Tangente Says:

    […] a tensão entre homem e natureza, ou melhor do que isso, o eterno conflito da natureza, e tentar devolver a dignidade à África. Neste caso, os leões de Tsavo são quase personagens coadjuvantes de um conflito que não será […]

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