Barbárie – Parte 2

Continuando a série de posts desenterrados do limbo, republico um pequeno texto que foi ao ar no meu antigo blog, há mais de 4 anos – e o tal post já incluía a republicação de outro texto de minha autoria. Se você já trabalhou com programação de computadores, como eu, sabe que estou ficando recursivo. Se você não trabalhou com isso e não entendeu a minha tentativa de ser engraçado, não se preocupe: a piadinha é ruim mesmo.

Publico aqui por duas razões: estava pensando no assunto dias atrás e meu antiquíssimo blog recebeu um visitante anônimo que deixou um comentário para este post. Como o texto em si tem quase 8 (!!!) anos, por favor relevem algumas coisas das quais eu me envergonharia hoje – “Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade” parece frase de crítico de música da extinta Bizz. E o final do texto é meio ridículo. Mas mantenho a tese.

Barbárie

Os irmãos Chapman, parte da chamada nova geração de artistas britânicos – aqueles da exposição “Sensations” – ,resolveram pintar rostos de macacos e palhaços sobre ilustrações originais de Goya. Não, você não leu errado; eles pintaram por cima da série “Desastres de Guerra”, de Goya, que está, agora, permanentemente arruinada. Ao redor deste ato de estupidez “artística”, voam os críticos idiotas que abaixam as suas cabeças para qualquer artistazinho “novo” que resolve “chocar o mercado”, os empresários da área, ansiosos por patrocinarem nomes “quentes” e os que fingem entender alguma coisa, entupindo as galerias com seus comentários vazios. Toda esta gente pode gostar de se enganar. Eu não.
Artistas e empresários do meio se esquivam da questão, evocando a discussão sobre a propriedade das obras de arte (sim, os Chapman são os donos da série “Desastres de Guerra”), que não me interessa aqui. O que é realmente importante, ninguém tem coragem de admitir: a obra destes dois irmãos é pobre, ruim, burra. Ponto final.
Quase quatro anos atrás, escrevi uma carta-artigo que mandei a alguns amigos. Reproduzo trechos dela abaixo, e não mudo uma vírgula sequer:

Elogio da Banalidade
Ouvi, tempos atrás, o álbum Outsider, de David Bowie. Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade, o disco era acompanhado pelo diário de um certo Nathan Astler, detetive particular do século XXI. Especialista em casos escabrosos – rapto e assassinato de pessoas visando ao tráfico de seus órgãos para artistas plásticos. Ora, o que isso tem a ver com o artigo do caderno Pensar do Estado de Minas de um sábado modorrento, 24 de julho de 1999, intitulado Tempo de Ser Banal, de autoria do arquiteto e designer Paulo Laender?
O artigo trata do estado atual da arte, ou de sua ausência. Para tanto, outros três artigos são citados: Escândalos Artísticos, de Vargas Llosa, Chute Logo um Artista, de Diogo Mainardi e Fome de Bienal, dos articulistas do caderno. Vejamos as citações de citações. O que viu Llosa? “Chris Offil, de 29 anos, aluno do Royal College of Art, mostra suas obras sobre uma base de excremento de elefante solidificado… Outro escultor atulhou suas urnas de cristal com ossos humanos e até resíduos de um feto… Outra, intitulada ‘Aceleração Zigótica’, apresenta um leque de meninos andróginos cujos rostos são, na verdade, pênis eretos…” Diogo Mainardi:”Depois de visitar as obras dos 102 artistas de 59 países você sai com a certeza de que aquilo é puro charlatanismo(…) A americana Ann Hamilton resolveu apresentar um pozinho vermelho que cai das paredes. E daí? O francês Jean Pierre Bertrand enfileira cedros numa prateleira. E daí? A sensação predominante é de que os artistas gastam dez minutos para pensar suas obras e seis meses na tentativa de justificá-las, em vez de fazer o contrário…”
Eu continuo… Basta uma patética e falsa postura, gestos afetados, uma ou outra frase, mais ou menos elaborada, e nosso candidato torna-se um artista na mãos de marchands ávidos por divulgação e aparição. Arte? Ah, isso… faça uma instalação. Misture materiais rústicos com atuais, chame a tal intervenção do público. Não gostou? Justifique a incompletude como metáfora da existência humana, é simples, todos gostam da frase, até alguns críticos. Soa bem. Quer chocar? Decepe, decapite, exiba órgãos putrefatos, fetos em decomposição, cavalos empalhados, close-ups de genitálias. Simples. Arte, não?
Não. Esses sujeitos, com algumas exceções, ou são pobres coitados que se iludem com o que fazem ou estão muito conscientes do papel ridículo a que prestam. Mas quem vai lhes cobrar? Que público? Este que vai a Bienal como se fosse a exposição de fotos do casamento de alguma celebridade? Duvido. Assim vamos. Antes a arte era inacessível a população por ser considerada complexa – mentira. Agora, acessível, está diluída. A arte está falindo, perdeu seu significado – e não há nada de grave nisso, desde que alguém se proponha a enfrentá-la, novamente. Não é a toa que os poucos que estão conscientes disso colocaram chimpanzés para pintar.
Nesse mundinho de bárbarie de final de milênio, diríamos que a matéria-prima é a violência. Se tais artistas realmente se preocupassem em criar, pensar, elaborar, testar, discutir, encenar esta violência, eu até concordaria. Mas o andamento que dão é o de publicitários de si mesmos, de simples expositores do caos. Nada mais. Daí tanta escatologia que não chega a lugar algum, nada, esta tentativa de reaproximação com o sexo em imagens cruas, desprovidas até de estética, tão precárias que são suas propaladas instalações. Além do mal-estar, que passam? Nada. E até o mal-estar, caros artistas, passa, logo na esquina às vezes. Sem mal-estar, o que sobra destas obras? Nada. Nem sobrará, estejam certos. Por quê? Porque Mainardi está com a razão – porque estes artistas gastaram dez minutos para pensar e fazer sua obra e seis meses para justificar!
Então, quem diria, correto estava um roqueiro inglês de cinquenta anos, para quem a arte virou um painel vazio exibindo horrores banais.

Anúncios

5 Respostas to “Barbárie – Parte 2”

  1. Edson Junior Lain Says:

    Concordo, mas faço duas ressalvas: a) a escatologia, em seu significado mais profundo, quer dizer ‘aquilo que é íntimo, próximo de nós’ e b) não creio que a arte tenha que nos levar ou levar-se a algum lugar, e nisso estou com o senhor Wilde quando ele diz que ‘toda arte é eséril’, etc.

    O texto está muito bom.

  2. marcelopes Says:

    Sim, sim. Eu não faço idéia de quando e como “escatologia” virou sinônimo de alguma coisa capaz de causar asco. Na teologia cristã, também significa “o estudo dos últimos dias”…
    Na verdade, eu também estou com o Wilde, mas confesso que este meu texto dava a entender levemente e nas entrelinhas que eu seria um destes sujeitos que procuram por uma “mensagem” na arte, nas obras de arte. Nada disso.
    E seu blog está ótimo.

  3. Topifaive obras de arte ridículas, idiotas ou grotescas « Universo Tangente Says:

    […] eu sei, há falei sobre eles duas vezes e acho que o texto complementa este post – se você já não tiver lido, […]

  4. Andruchak Says:

    1. Marcelopes, assine seus textos…
    2. Faz um tempo que a arte vem sendo destruída por uma “arte” que se diz contemporânea. Basta despejar um caminhão de entulho numa sala e “justificar” como você mesmo disse. Existe uma busca pelo “diferente” e logo atrás uma série de oportunistas que fazem qualquer coisa que possa chamar a atenção, sob o rótulo “arte”, independente da atocidade que possa representar. E quem apóia isso??? Todos aqueles interessados em aparecer junto. É literalmente pendurar melancia no pescoço. O engraçado é que muitos se retraem em vez de criticar. Há quem deixe animais morrerem de fome em bienal e não entendo como não vão direto para a cadeia. Ao contrário, são convidados a repetir o abuso. Bem, depois de um sujeito defecar em potes e chamar de arte o que mais podemos esperar? O nome destes sujeitos? Faço questão de não lembrar pois é isso mesmo que querem, chamar a atenção pelo absurdo.
    3. Exposição: http://www.andruchak.com.br/mostra/timlopes
    ____________________________
    Andruchak é artista plástico e professor de arte e arte digital nas Universidades UMC, UNIP e UNIVAP. É doutor pela ECA-USP e Coordenador do Espaço Cultural UMC [Opção Brasil – Minc].
    http://andruchak.blogspot.com/

  5. Marcelo Lopes Says:

    Andruchak,

    1. Tem toda razão.
    2. Concordo plenamente com vc. Aliás, parece-me que a cada dia há mais e mais pessoas pensando assim; logo, estes artistas e seus agentes estarão confinados num mundinho à parte, preso as suas próprias referências e vivendo de auto-engano e uma boa dose de cinismo. A propósito, há um bom romance do austríaco Thomas Bernhard chamado Árvores Abatidas que trata exatamente deste assunto.
    3. Só hoje voltei de um retiro forçado e estou conhecendo sua obra agora. Gostei tanto que vou escrever um post falando disso.

    Abs!,
    Marcelo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: