Archive for outubro \26\UTC 2007

Hoje eu acordei com vontade de falar mal do capitalismo

sexta-feira, 26 outubro, 2007

Minto, claro. Não é nada disso. O fato é que tenho o hábito um tanto irritante de evitar falar de assuntos “da moda” aqui no blog. Por quê? Porque tem tanta gente falando, e tanto ao mesmo tempo sobre a mesmíssima coisa que mais um berrando obviedades, desesperado para ser ouvido, francamente, não faz diferença alguma. Talvez por isso eu jamais seria jornalista de verdade. Alia-se a esta minha natural preguiça o desinteresse por determinados assuntos populares: Che Guevara, por exemplo. Enquanto a maior parte glorificava o assassino com cheiro de rim fervido, uma galerinha animada por uma matéria na Veja celebrava o óbvio – que Che é o exemplo de tudo que deu e dá errado nesta joça de América Latina e de Brasil. O que eu teria a acrescentar a este debate amalucado? Só para citar Wittgenstein de forma torta e fora do contexto, me passando por um sujeito esperto: “Sobre aquilo que não se pode falar é melhor calarmo-nos”.
Muitas vezes penso em escrever sobre algo aqui no Universo Tangente e descubro, um minuto depois, que além do alívio pessoal de descarregar a idéia no Word, ninguém se interessaria pelo que eu acabaria escrevendo. Com isso, tenho passado períodos relativamente longos sem novos posts por absoluto desinteresse no que eu mesmo ando pensando. O título ridículo deste post eu chupinhei, sem dó, de outro blog, que visitei uma única vez. Ele já era levemente irônico por lá (embora o autor tivesse vontade legítima de falar mal do capitalismo), aqui ficou parecendo o nome de algum conto de autor brasileiro que não tem coisa alguma a ver com a história contada.
Culpo, em parte, as minhas poucas leituras neste mês; na verdade, o pouco que reli. Narrativas do Espólio e Morte em Veneza, para ser mais exato, Kafka e Thomas Mann. Ainda mais grave, estou com uma vontade danada de ler Wikinomics e A Cauda Longa. Na verdade, até desisti de perguntar se este último livro estava disponível numa livraria daqui de Belo Horizonte porque a funcionária que me atendeu parecia ilustrar de forma drástica e dramática o tal título. Provavelmente ela acharia que eu estava rindo da cara (ou da… deixa pra lá) dela e eu acabaria expulso da loja por um meganha.
É meio ridículo admitir que aquelas divagações típícas de trintões ainda calouros sobre carreira e rumos pessoais estão ocupando minuitos demais do meu tempo disponível. Preciso me concentrar naqueles pequenos prazeres para os neurônios – ler e desenhar, assistir a bons filmes e ver os amigos, especialmente – algumas das ações que fazem os dias valerem a pena. Talvez seja mesmo a proximidade do aniversário (hoje é véspera) que esteja embaralhando as minhas idéias e produzindo um post confuso como este.

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Notas rápidas: Folheei apressado a adaptação para os quadrinhos que os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá fizeram para O Alienista. Sim, eu gosto de algumas HQs, mas há poucos, pouquíssimos, autores capazes de fazer uso das ferramentas que os quadrinhos oferecem. E adaptações serão sempre adaptações – sua sina é ser inferiores aos originais. Mas gostei muito, muito mesmo do Alienista de Moon e Bá. Preciso, com ótimos enquadramentos que reforçam a dramaticidade das cenas com elegência. Preciso comprar e ler com calma para confirmar esta primeira impressão.

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Se um filme deprimente, sobre um tema terrível e ainda assim um belíssimo retrato de um personagem, te interessa, assista a O Lavador de Almas – não, não é uma comédia sobre uma sauna no inferno, culpe a distribuidora brasileira. O título original é apenas Pierrepoint e narra a vida do famoso carrasco inglês, responsável pelo enforcamento de condenados a morte. Duro, elegante, é também um estudo da impessoalidade do estado (eu havia escrito com “e” maiúsculo, é nisso que dá ser brasileiro) e seu confronto com as paixões humanas.

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Quando eu achava que Begnini jamais conseguiria fazer um filme pior do que A Vida é Bela, o cidadão surpreende com O Tigre e a Neve. Como é que o Tom Waits aceitou participar deste troço? O hiperativo italiano ainda quer nos emocionar a todo momento, e insere pelo menos uns cinco ganchos dramáticos unindo o início a conclusão do filme. “Agora vem a cena dramática, lembra do que ele contou no início do filme? Isso, olha aí, ó! Viu? Não chorou? Espera aí, agora tem outro, ó,ó, que legal, essa cena… Não chorou? Agora vai, agora vai, chora, neném!!! Chora, cáspita!!! Se emociona, porca miséria!!! Mas não se preocupe, esperaí que tem mais…”. Pior do que sofrer um porre melodramático é não sofrê-lo mesmo depois de duas garrafas cheias goela abaixo.

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E Ratatouille é genial. A seqüência em que o fascinante crítico gastronômico Anton Ego prova o prato criado pelo ratinho Remy foi certamente escrita por algum leitor de Marcel Proust. Imperdível.

A banalidade da vida e as ambições da literatura

sábado, 20 outubro, 2007

Em post recente, Antônio Fernando Borges comentou a banalidade do amor e acabou atraindo a ira de algumas leitoras. Não estou muito interessado em discutir as razões femininas para os comentários agressivos que ele recebeu, o que me importa aqui é a questão da banalidade do amor e/ou da vida.

A quizumba toda começou porque um amigo de Antônio comentou que a história dele (do amigo) poderia inspirar alguma literatura (do Antônio). Não, não poderia, ele respondeu – e eu concordo. Um de nossos equívocos mais comuns é imaginar que nossas vidas são interessantes a ponto de se transformar em matéria de obras de arte. Pode ser duro para alguns aceitar isto, mas, acredite em mim: nossas vidas são, via de regra, inacreditavelmente banais. Isto não significa que sejam vidas ruins ou – meu Jesus, perdoe-me pelo que vem a seguir – que não mereçam ser vividas; mas sim que observadas de fora são indistinguíveis da maioria das outras. Por mais penosas que sejam nossas próprias experiências, sentimentos e neuras, o que nos acontece e como lidamos com nossa existência não é algo tão importante assim, a não ser para nossos amigos próximos, parentes e amores.

É preciso um talento excepcional para enxergar, sob o que há de banal, algo que realmente mereça ser contado a toda a humanidade – quando existe este algo mais. E, ainda assim, é necessário um talento ainda maior para contar esta história num tom acima, para transformá-la em algo único. Veja que basta tentar resumir a trama de algumas grandes obras como se tivéssemos o cérebro de um idiota da objetividade para ver esta regra em ação: um príncipe que busca vingança pela morte do pai, um homem que desconfia da traição de sua mulher, uma família que carrega o caixão da matriarca morta, um filho que acompanha o pai-médico durante um dia. E o quanto estes resumos ridículos nos falam da grandiosidade atingida pelos seus autores? Absolutamente nada. Quando alguém acredita que “sua vida daria um livro”, está pensando apenas no resumo, ou melhor dizendo, no argumento da obra, que ela julga interessante.

Ainda voltando ao tema do início deste post, freqüentemente (e as mulheres, com mais ênafse do que a maioria dos homens) julgamos o amor importantíssimo, com i maiúsculo e algumas borboletas infantis voando ao redor da palavra. E certamente o é, para quem o vive. Ter de ouvir ou ler alguém narrá-lo, com todas suas as idas e voltas, decepções e delicadas felicidades é um porre – porque não passa de uma história igual a milhares de histórias já conhecidas, reais ou imaginárias. E quem narra, com quase toda a certeza, não é nenhuma Jane Austen, mas apenas um de nós.

Por outro lado, como se contrariando o suposto romantismo que nega a natureza comum do amor, é preciso lembrar que a banalidade anda de mãos dadas com o, digamos, realismo. Ela é um porto seguro para muitos leitores: se eu acredito que aquela prosinha meia-boca é literatura de primeira, logo minha vida também é. Trata-se de um auto-engano melancólico, além de uma compreensão equivocada do que seja boa literatura, que para este leitor, passa a ser uma espécie de carimbo, um aval que eleva a banalidade à grandeza apenas por estar escrita. Não consigo afastar a conclusão de que, se tanta gente realmente acredita nisso, talvez esteja aí a explicação para a literatura brasileira andar tão rasteira.

Quando escreveu para a Copa de Literatura Brasileira, Eduardo Carvalho resumiu admiravelmente esta questão, ao falar do romance Bóris e Dóris, de Luiz Vilela (não,  não li o livro ainda):

Bóris é um homem fácil de encontrar mas um personagem difícil de compor. Seria fácil para Luiz Vilela escrever um livro — ou criar um mesmo diálogo — ridicularizando ou menosprezando a vida e os sentimentos de um burocrata comum. Mas não: a mediocridade do Bóris é comovente. Bóris é medíocre como todos nós.

Apocalypto

sexta-feira, 12 outubro, 2007

Talvez não seja exagero dizer que Mel Gibson entende bastante de cinema; daquelas qualidades absurdamente populares e também dos subtextos mais elaborados. Vejamos os 3 filmes que valem a pena ser vistos dele: Coração Valente é uma história de luta e resistência de um homem e seu povo, A Paixão de Cristo dispensa explicações e Apocalypto centra seu foco num sujeito que tenta sobreviver a toda provação possível para voltar à sua família. São histórias incrivelmente simples, de identificação quase imediata (ao menos para um ocidental), o que permite a Gibson se concentrar em suas taras estéticas: a reconstituição histórica e a violência.

Em Apocalypto, ambas estão em grau elevadíssimo, e são colocadas a serviço de uma história escrita com cuidado, alternando momentos, digamos, intimistas (o velho que conta histórias míticas para a tribo ao redor da aldeia), charlesbronsonianos (sim, há aquele inimigo especialmente malvado que tomará uma surra no final) e épicos, claro. E é desta combinação que o filme extrai sua força, obviamente selvagem. É cinema com tudo o que pedimos para duas horas de completa imersão: uma boa dose de clichês, alguma ousadia, um personagem principal com uma missão quase impossível a cumprir.

Tenho uma imensa preguiça para comentar as chatíssimas polêmicas envolvendo os filmes de Gibson; fiquem com Apocalypto, seus jorros de sangue, (dizem alguns especialistas) imprecisões históricas e atores desconhecidos e bacanas.

De certa forma, Apocalypto é o contrário do O Novo Mundo, de Terrence Mallick, que também é ótimo por outras razões – sim, eu assumo que gostei dos filmes do Mallick. Ainda preciso falar deste último.

Meu primeiro meme!

quinta-feira, 11 outubro, 2007

A Evelyn (obrigado!) me convidou a participar de um meme bacana:

1) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2) Abra-o na página 161;
3) Procurar a 5ª frase completa;
4) Postar essa frase em seu blog;
5) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6) Repassar para outros 5 blogs.

Aí está:

Eram portanto as minhas perguntas que os divertiam, que consideravam particularmente espertas?

Investigações de um cão, em Narrativas do Espólio, Franz Kafka, Companhia das Letras, tradução de Modesto Carone (Por sorte este era realmente o livro mais próximo, e não uma gramática de inglês logo abaixo do Kafka).

E passo este meme para o Edson Junior (Baterbly Etc.), Paulo (Los Olvidados), Renata (Literorragia), Ricardo (Desculpe a Poeira) e Jean-Philip Albert Struck (Canaca).

Momento Zeca Bordoada

quarta-feira, 3 outubro, 2007

Convenhamos: vivemos numa era de frescuras. Veja o caso do comercial de um determinado higienizante bucal em que um mané calado mostra cartazes que explicam suas razões para não abrir a boquita: ele está com mau hálito porque o higienizador bucal arde, coitado; logo, ele não o usa. Que mundo é este em que um adulto reclama de dorzinha na boca na hora de limpar a dita cuja? Nem faz muito tempo, o ardor desta categoria de produtos era destacado em propagandas de forma, digamos, bem-humorada – com aquele bom humor saído da cabeça de publicitário, claro. Agora, me aparece um cidadão com cara de adultescente reclamando de ardor na língua?
Ele deve ter sido criado a base de Merthiolate que não arde também. Mais uma vez apelo ao “convenhamos”: De que serve um Merthiolate que não arde? Quando eu era moleque e me machucava, sabia que sofreria mais com aquele líquido vermelho-rosado nojento do que com a pancada em si. Um psicólogo de botequim diria que era um aprendizado, uma forma instantânea de amadurecimento ou alguma besteira do gênero. Não interessa: O Merthiolate que ardia fez parte de uma certa mitologia infantil, junto aos carrinhos de rolimã que nunca quebravam, a loira do banheiro o e o boneco infernal do Fofão.
Para encerrar, vamos desenterrar aquela história de Clodovil, em um de seus delicadíssimos momentos de gentleman, chamando uma deputada federal de feia – é, ele usou uns subterfúgios de péssimo gosto aqui e ali, mas no final chamou a cidadã de feiosa mesmo. A deputada chorou, foi amparada pelos coleguinhas e, se não me engano, esboçou até uma ameaça de processo contra o deputado-costureiro. Frescura, pura e simples. Em outro país bem menos fresco (a França, por exemplo), a deputada riria da suposta ofensa, desarmaria o comentário indelicado e seguiria em frente. Mas não aqui.
A coisa anda tão feia (não, não estou me referindo à deputada) que há propaganda tentando provar aos pais que deixar suas crianças se sujar faz um bem danado a suas alminhas inocentes e encapetadas. Não demora muito para algum zeloso genitor entrar com um processo pedindo a retirada da campanha por oferecer risco a seu pupilo. E será criado mais um bananinha no Bananão.
Ah, quem é Zeca Bordoada? Cliquem aqui.

Obs.: Eu sei que o Merthiolate continha mercúrio e por isso sua fórmula foi modificada, não precisam me alertar.