A banalidade da vida e as ambições da literatura

Em post recente, Antônio Fernando Borges comentou a banalidade do amor e acabou atraindo a ira de algumas leitoras. Não estou muito interessado em discutir as razões femininas para os comentários agressivos que ele recebeu, o que me importa aqui é a questão da banalidade do amor e/ou da vida.

A quizumba toda começou porque um amigo de Antônio comentou que a história dele (do amigo) poderia inspirar alguma literatura (do Antônio). Não, não poderia, ele respondeu – e eu concordo. Um de nossos equívocos mais comuns é imaginar que nossas vidas são interessantes a ponto de se transformar em matéria de obras de arte. Pode ser duro para alguns aceitar isto, mas, acredite em mim: nossas vidas são, via de regra, inacreditavelmente banais. Isto não significa que sejam vidas ruins ou – meu Jesus, perdoe-me pelo que vem a seguir – que não mereçam ser vividas; mas sim que observadas de fora são indistinguíveis da maioria das outras. Por mais penosas que sejam nossas próprias experiências, sentimentos e neuras, o que nos acontece e como lidamos com nossa existência não é algo tão importante assim, a não ser para nossos amigos próximos, parentes e amores.

É preciso um talento excepcional para enxergar, sob o que há de banal, algo que realmente mereça ser contado a toda a humanidade – quando existe este algo mais. E, ainda assim, é necessário um talento ainda maior para contar esta história num tom acima, para transformá-la em algo único. Veja que basta tentar resumir a trama de algumas grandes obras como se tivéssemos o cérebro de um idiota da objetividade para ver esta regra em ação: um príncipe que busca vingança pela morte do pai, um homem que desconfia da traição de sua mulher, uma família que carrega o caixão da matriarca morta, um filho que acompanha o pai-médico durante um dia. E o quanto estes resumos ridículos nos falam da grandiosidade atingida pelos seus autores? Absolutamente nada. Quando alguém acredita que “sua vida daria um livro”, está pensando apenas no resumo, ou melhor dizendo, no argumento da obra, que ela julga interessante.

Ainda voltando ao tema do início deste post, freqüentemente (e as mulheres, com mais ênafse do que a maioria dos homens) julgamos o amor importantíssimo, com i maiúsculo e algumas borboletas infantis voando ao redor da palavra. E certamente o é, para quem o vive. Ter de ouvir ou ler alguém narrá-lo, com todas suas as idas e voltas, decepções e delicadas felicidades é um porre – porque não passa de uma história igual a milhares de histórias já conhecidas, reais ou imaginárias. E quem narra, com quase toda a certeza, não é nenhuma Jane Austen, mas apenas um de nós.

Por outro lado, como se contrariando o suposto romantismo que nega a natureza comum do amor, é preciso lembrar que a banalidade anda de mãos dadas com o, digamos, realismo. Ela é um porto seguro para muitos leitores: se eu acredito que aquela prosinha meia-boca é literatura de primeira, logo minha vida também é. Trata-se de um auto-engano melancólico, além de uma compreensão equivocada do que seja boa literatura, que para este leitor, passa a ser uma espécie de carimbo, um aval que eleva a banalidade à grandeza apenas por estar escrita. Não consigo afastar a conclusão de que, se tanta gente realmente acredita nisso, talvez esteja aí a explicação para a literatura brasileira andar tão rasteira.

Quando escreveu para a Copa de Literatura Brasileira, Eduardo Carvalho resumiu admiravelmente esta questão, ao falar do romance Bóris e Dóris, de Luiz Vilela (não,  não li o livro ainda):

Bóris é um homem fácil de encontrar mas um personagem difícil de compor. Seria fácil para Luiz Vilela escrever um livro — ou criar um mesmo diálogo — ridicularizando ou menosprezando a vida e os sentimentos de um burocrata comum. Mas não: a mediocridade do Bóris é comovente. Bóris é medíocre como todos nós.

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Uma resposta to “A banalidade da vida e as ambições da literatura”

  1. Ed Says:

    Olá.

    Creio estar meio bêbado, so..desconsidere se eu disser alguma besteira.
    Concordo com muito do que diz; o post do senhor Antônio tratou do tema admiravelmente, com uma sinceridade que assola, aflige.

    Lendo este post lembrei da simplicidade do que nos ensinou Wittgenstein quanto a tratar um assunto: ao contar uma história, compor um romance etc., o tema, ainda que de relevância indizível, é secundário. Noutras palavras: o modo como contamos, e não o que se conta, é mais relevante. Claro, sim, tudo isso dentro de um certo limite do aceitável — mas, ó, lembrei-me dum exemplo ideal: Machado de Assis em seus livros trata de assuntos prosaicos, quotidianos, que, sob qualquer outra pena, careceria de interesse, de atractivo. Ao ler Machado tem-se a impressão de estar lendo um europeu. Por que? Ele soube muito bem e como ninguém escolher as palavras.

    Um abraço.

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