Hoje eu acordei com vontade de falar mal do capitalismo

Minto, claro. Não é nada disso. O fato é que tenho o hábito um tanto irritante de evitar falar de assuntos “da moda” aqui no blog. Por quê? Porque tem tanta gente falando, e tanto ao mesmo tempo sobre a mesmíssima coisa que mais um berrando obviedades, desesperado para ser ouvido, francamente, não faz diferença alguma. Talvez por isso eu jamais seria jornalista de verdade. Alia-se a esta minha natural preguiça o desinteresse por determinados assuntos populares: Che Guevara, por exemplo. Enquanto a maior parte glorificava o assassino com cheiro de rim fervido, uma galerinha animada por uma matéria na Veja celebrava o óbvio – que Che é o exemplo de tudo que deu e dá errado nesta joça de América Latina e de Brasil. O que eu teria a acrescentar a este debate amalucado? Só para citar Wittgenstein de forma torta e fora do contexto, me passando por um sujeito esperto: “Sobre aquilo que não se pode falar é melhor calarmo-nos”.
Muitas vezes penso em escrever sobre algo aqui no Universo Tangente e descubro, um minuto depois, que além do alívio pessoal de descarregar a idéia no Word, ninguém se interessaria pelo que eu acabaria escrevendo. Com isso, tenho passado períodos relativamente longos sem novos posts por absoluto desinteresse no que eu mesmo ando pensando. O título ridículo deste post eu chupinhei, sem dó, de outro blog, que visitei uma única vez. Ele já era levemente irônico por lá (embora o autor tivesse vontade legítima de falar mal do capitalismo), aqui ficou parecendo o nome de algum conto de autor brasileiro que não tem coisa alguma a ver com a história contada.
Culpo, em parte, as minhas poucas leituras neste mês; na verdade, o pouco que reli. Narrativas do Espólio e Morte em Veneza, para ser mais exato, Kafka e Thomas Mann. Ainda mais grave, estou com uma vontade danada de ler Wikinomics e A Cauda Longa. Na verdade, até desisti de perguntar se este último livro estava disponível numa livraria daqui de Belo Horizonte porque a funcionária que me atendeu parecia ilustrar de forma drástica e dramática o tal título. Provavelmente ela acharia que eu estava rindo da cara (ou da… deixa pra lá) dela e eu acabaria expulso da loja por um meganha.
É meio ridículo admitir que aquelas divagações típícas de trintões ainda calouros sobre carreira e rumos pessoais estão ocupando minuitos demais do meu tempo disponível. Preciso me concentrar naqueles pequenos prazeres para os neurônios – ler e desenhar, assistir a bons filmes e ver os amigos, especialmente – algumas das ações que fazem os dias valerem a pena. Talvez seja mesmo a proximidade do aniversário (hoje é véspera) que esteja embaralhando as minhas idéias e produzindo um post confuso como este.

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Notas rápidas: Folheei apressado a adaptação para os quadrinhos que os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá fizeram para O Alienista. Sim, eu gosto de algumas HQs, mas há poucos, pouquíssimos, autores capazes de fazer uso das ferramentas que os quadrinhos oferecem. E adaptações serão sempre adaptações – sua sina é ser inferiores aos originais. Mas gostei muito, muito mesmo do Alienista de Moon e Bá. Preciso, com ótimos enquadramentos que reforçam a dramaticidade das cenas com elegência. Preciso comprar e ler com calma para confirmar esta primeira impressão.

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Se um filme deprimente, sobre um tema terrível e ainda assim um belíssimo retrato de um personagem, te interessa, assista a O Lavador de Almas – não, não é uma comédia sobre uma sauna no inferno, culpe a distribuidora brasileira. O título original é apenas Pierrepoint e narra a vida do famoso carrasco inglês, responsável pelo enforcamento de condenados a morte. Duro, elegante, é também um estudo da impessoalidade do estado (eu havia escrito com “e” maiúsculo, é nisso que dá ser brasileiro) e seu confronto com as paixões humanas.

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Quando eu achava que Begnini jamais conseguiria fazer um filme pior do que A Vida é Bela, o cidadão surpreende com O Tigre e a Neve. Como é que o Tom Waits aceitou participar deste troço? O hiperativo italiano ainda quer nos emocionar a todo momento, e insere pelo menos uns cinco ganchos dramáticos unindo o início a conclusão do filme. “Agora vem a cena dramática, lembra do que ele contou no início do filme? Isso, olha aí, ó! Viu? Não chorou? Espera aí, agora tem outro, ó,ó, que legal, essa cena… Não chorou? Agora vai, agora vai, chora, neném!!! Chora, cáspita!!! Se emociona, porca miséria!!! Mas não se preocupe, esperaí que tem mais…”. Pior do que sofrer um porre melodramático é não sofrê-lo mesmo depois de duas garrafas cheias goela abaixo.

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E Ratatouille é genial. A seqüência em que o fascinante crítico gastronômico Anton Ego prova o prato criado pelo ratinho Remy foi certamente escrita por algum leitor de Marcel Proust. Imperdível.

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