Archive for novembro \23\UTC 2007

Coisas que eu gostaria de ter dito

sexta-feira, 23 novembro, 2007

Tenho cá para mim que perdemos a noção da importância da fantasia e da alienação em nossas vidas. Tudo se tornou motivo para uma tese, seja ela escrita na faculdade ou apenas rascunhada por duas horas, numa sala de cinema. Nossos heróis deixaram de ser apenas símbolos meio ridículos (com aquela cueca por cima da calça) de um poder extraterreno e se tornaram representantes de alguma força oculta. A mesma coisa aconteceu com os vilões, que deixaram de ter carecas reluzentes e de querer conquistar o mundo; eles se tornaram meros traficantes, vítimas do “sistema”, quixotes de causas para lá de duvidosas. – Paulo Polzonoff 

Por uma caixa de chocolates suiços eu seria até capaz de gostar de Al Gore.evelyn

Primeiro, não sei quanto a vocês, mas eu não consigo mais me interessar pela questão da identidade nacional brasileira: o Brasil já é um fato, não é um projeto; você pode até questionar a idéia de “identidade nacional” (como eu questiono), mas, por favor, pode parar de escrever poemas e ensaios e romances querendo definir ou medir a maldita brasilidade? Acho impossível não perceber que essa preocupação impede a preocupação com outras coisas, digamos, mais importantes. Colocar a identidade nacional como valor supremo da literatura não passa de um ato de politização arbitrária.Pedro Sette Câmara

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Dois desejos literários (e um pop) – Parte 3

domingo, 18 novembro, 2007

Encerrando esta série de posts sem interesse a não ser para seu próprio autor, confesso uma vontade ridícula de criar um universo. Sim, eu sei que toda obra é um universo próprio, que a pretensão de se recriar ou retratar o mundo como ele é não passa de uma ilusão bem ridícula – e que parece a base de boa parte da literatura brasileira dos últimos tempos. Quando eu falo em universo, estou falando muito, muito sério.

Bom, na verdade, não falo nada sério. É isso: gosto também de me divertir escrevendo – o que sempre foi a principal razão para a existência deste blog. Não é fácil; ando revisando a primeira versão de uma idéia para uma narrativa nada original, e o trabalho está me dando uma dor de cabeça inacreditável. Eu implico com toda palavra, com o modo como a coisa começa e termina, com as falas dos personagens, com o perigo constante de tudo parecer artificial. E, neste caso, estou falando de um universo bem restrito – uma fazenda apenas. Por isso é paradoxal dizer que criar um universo inteiro é o que desejo para relaxar. A diversão está no fato de eu sempre pensar nisso da forma mais pop possível: Star Trek, Senhor dos Anéis, Star Wars, até Harry Potter serve de exemplo.

O projeto até já tem umas quatro histórias escritas na forma de roteiros, construídos a princípio para quadrinhos, bem curtos. Consegui imaginar alguns arcos, tentando mostrar mais dos personagens e do tal mundo que estou inventando. Talvez inventar seja uma palavra exagerada; digamos que aplico a Teoria de Tarantino mesmo sem ter o seu talento para juntar referencias dispares e construir algo novo. Basta dizer que para construir o personagem principal, penso em outros quatro: Spike Spiegel, Han Solo, Corto Maltese e até Arthur Dent. Na verdade, a história toda poderia até ser um spin-off de Cowboy Bebop, eu confesso.

Penso nele um pouco como um pobre-coitado com alguma reputação a zelar e uma vida pregressa marcada por decisões irritantemente erradas. De certa forma, ele quer consertar algumas burradas, mas nao consegue e se mete em bagunças ainda piores. Claro que sua fonte de renda não ajuda em nada: o sujeito é uma especie de entregador espacial, numa nave capenga (alguem aí falou Millenium Falcon?) com uma tripulação esquisita, e ainda por cima orgulhoso por não recusar trabalho nem deixar de fazer uma entrega. O sistema solar desta história é uma salada bem capitalista de empresas disputando territórios e mercados – ele trabalha como um free-lancer e sofre na pele os problemas deste estilo de vida, embora o adore. Nas primeiras versões da história, ele se chamava ligeiramente diferente, e seu novo nome foi uma sugestão bem-vinda de uma amiga. Assim como outra amiga também sugeriu que este lado um tanto mané seria interessante – embora ele nao esteja no nível rasteiro de um Fry, jamais terá a patente de um Kirk.

Não consigo me levar a sério o tempo todo, e escrever esta mistureba de ficção científica me distrai e diverte bastante, mesmo quando preciso fazer idéias absurdas funcionarem. Recomendo enfaticamente este pequeno exercício a todo mundo que deseja escrever uma ou duas histórias interessantes: escolha um tema, algo bem descompromissado, crie um universo e divirta-se. Acho que foi isso que Douglas Adams fez e deu muito, muito certo. Na pior das hipóteses, servirá para relaxar no meio de trabalhos mais exaustivos.

Nunca escrevi um post com tantos links para a Wikipedia; isso não é bom sinal. Só para ser diferente, tente clicar no link para o Capitão Kirk e ganhe de presente, ao final do texto do Inagaki, o pior cover dos Beatles já cometido pela humanidade. Não me responsabilizo pela perda das funções motoras e cerebrais após assistir a aquilo.

Dois desejos literários (e um pop) – Parte 2

sexta-feira, 16 novembro, 2007

A grande vantagem de escrever estes três posts auto-referentes, auto-indulgentes e auto-inócuos é que estamos num feriado prolongado e quase ninguém vai ler isso aqui. Então, passo ao meu segundo desejo literário: narrar a trágica viagem de Scott a Antártida.

É, basicamente, uma repetição do tema anterior, mas sem feras transformando gente em marmita do dia: a violência da natureza e a tentativa do homem de voltar à ela, sem sucesso. Este aspecto passou em branco no primeiro post: sou obrigado a rir da idéia absurda do ser humano integrado à natureza. Toda vez que esta harmonização é tentada, fracassa exatamente porque não conseguimos abrir mão de nossa própria natureza singular. Abdicar da humanidade em prol da suposta integração com o mundo natural significaria aceitar a violência intrínseca da natureza. Claro, entre muitas outras coisas, esta aceitação incompleta está na raiz da loucura experimentada tanto por Scott e sua tripulação quanto por Kurtz no Coração das Trevas. E, talvez, surja também de uma certa inadequação social e, pelo menos no caso do Homem-Urso de Herzog, de um desejo inconsciente de auto-destruição – aqui um excelente texto sobre o documentário. Não pode ser coincidência que vemos prosperar grupos que pregam até a extinção da raça humana como suposta estratégia para salvar o planeta.

No caso da viagem de Scott, há ainda equívocos que chegam a ser comoventes de tão trágicos – e que não explicam totalmente o fracasso da missão. O que não se esperava era a transformação da última grande aventura do império britânico numa excursão insuportável, que perdia o sentido a medida em que os sobreviventes avançavam rumo ao Pólo Sul. E, mesmo rumo a própria morte, o Scott personagem é ainda mais fascinante do que sua história; é dele que quero falar, em primeiríssimo plano.

Amanhã a parte pop. Depois, voltamos a nossa programação normal. Paciência.

Dois desejos literários (e um pop) – Parte 1

quinta-feira, 15 novembro, 2007

Desde muito tempo, tenho vontade de abordar certos temas, personagens e fatos em algum romance. Ainda não me preparei para eles; faltam-me leituras e treino. Sempre imaginei que o escritor deve se submeter a exercícios constantes, tanto quanto um pianista ou um cantor. Assim, considero o que faço atualmente apenas exercícios que, obviamente, ainda não estão suficientemente bons para exposição. Mesmo assim,  trabalho atualmente na pesquisa para um romance, um projetinho pessoal do qual não falarei porque seria mais ridículo  do que postar fotos minhas de sunga na praia. Em ambos os casos, meus dois leitores e meio cancelariam a assinatura do meu feed RSS no mesmo instante. Por outro lado, me permita falar sobre dois momentos históricos que me fascinam e gostaria de transformar em romances e as idéias mal ajambradas que tenho para eles .

Primeiro, o caso dos leões de Tsavo . Este episódio ficou conhecido graças ao competente filme de Stephen Hopkins (Vida e Morte de Peter Sellers) , A Sombra e a Escuridão, uma legítima produção de aventura na África sem chateações sobre colonialismo e slogans politicamente corretos. Claro que o filme não é historicamente correto, mas, diabos, que obrigação ele teria com isso? O que me interessa nesta história não são os esforços para a captura das feras, o império britânico ou as tensas relações entre os africanos e hindus obrigados a construir uma ponte no meio do nada. Quero escrever sobre a luta, a beleza e a violência inevitáveis da natureza. Como naquela belíssima seqüência de Além da Linha Vermelha, citada pelo Paulo, em que as gotas da chuva atingem as folhas não com delicadeza, mas com uma violência incrível. Terrence Mallick eleva esta observação da natureza a outro nível no fantástico O Novo Mundo, por meio de uma elaboradíssima  fotografia que aproveita a luz do dia (como em Barry Lindon, de Kubrick), os sons das folhas, pássaros, e dos corpos dos homens roçando na grama alta. Não sou ecochato ou antropólogo de boteco, não vou dar liçãozinha de moral babaca (“olha como o colonialismo inglês foi cruel”) nem escrever tratados (algo como “Leões Devoradores de Homens: Acomodamento, Tolerância e Violência na Relação entre Colonizados Hindus e Africanos no Caso da Ponte sobre o Rio Tsavo” – argh!). Gostaria de retratar a tensão entre homem e natureza, ou melhor do que isso, o eterno conflito da natureza, e tentar devolver a dignidade à África. Neste caso, os leões de Tsavo são quase personagens coadjuvantes de um conflito que não será encerrado nem respondido e que oscila da beleza a violência quase indescritíveis.

Diálogos terceirizados

segunda-feira, 12 novembro, 2007

Três rápidas conversas, ouvidas em livrarias daqui de BH; não menciono nomes ou estabelecimentos para não comprometer pessoas que não conheço e provavelmente jamais voltarei a ver na vida.
Primeiro, uma aula no meio da livraria. Se entendi bem, uma professora do curso de Pedagogia usava a Antígona de Sófocles para falar de política, de motivações e obrigações públicas e privadas. Perdi o interesse por volta da estante de dicionários e voltei a ouvi-la na estante de ficção estrangeira, folheando um livro que me chamou a atenção pelo título, imediatamente esquecido e descartado. Agora ela falava com empolgação de Hannah Arendt e seu Eichmann em Jerusalém; nada de novo aqui, a banalidade monstruosa do mal e assim por diante. E tome mais política como salvação do mundo. Com certeza, falta-me estofo intelectual para discutir minúcias com ela, mas toda vez em que ouço alguém pregar (não parecia uma aula) que a política é a tábua de salvação universal, tenho a certeza de que alguma coisa se perdeu no meio do caminho, mais especificamente de Rousseau para cá.
Logo depois, em outra livraria, menor e mais simpática, sou obrigado a concordar com o funcionário, que discutia com um amigo. Dizia não suportar a atitude vegan, algo como “sou ambientalmente responsável e intelectualmente superior a você”. Bingo! Tenho especial desprezo por este narizinho empinado dos discípulos radicais de Al Gore, tão certinhos e bacanas em suas aspirações ecológicas e tão dipostos a exigir que o estado limite a liberdade individual em nome de vacas, alfaces e riachos. Apenas para confirmar o inferno instaurado pela ditadura da política citada no parágrafo anterior, hoje em dia todo grupinho acredita que precisa vender sua causa particular como lei e decreto para todo mundo. E, infelizmente, alguns acabam vencendo. Lembrei-me dos pais britânicos que queimaram livros infantis com finais infelizes. Antes, quando se falava de queima de livros, pensávamos logo num estado totalitário; agora, um bando de papais e mamães preocupados com seus filhinhos resolve brincar de nazistinhas do jardim de infância. Apostem comigo: quanto tempo levarão para tentar transformar a fogueira do bem num projeto de lei? Eu aposto em menos de um ano.
A terceira foi mais leve, na grande livraria de BH, tomada por fãs de Harry Potter. Fui à seção de quadrinhos para ver se havia chegado o primeiro volume da coletânea dos Piratas do Tietê, do Laerte – o livro estava lá, mas meu bolso, vazio. Um sujeito começa a conversar animadamente comigo sobre os quadrinhos de Angeli, Glauco e Laerte. Diz ter as edições originais da Chiclete com Banana (inveja…) e boa parte dos trabalhos mais recentes deles. Ele sumiu tão rapidamente quanto apareceu, enquanto eu folheava uma edição de bolso da L&PM.
Então decidi que já havia tido o suficiente por um dia. Agora eu precisava de uma dose generosa de observações afiadas sobre todos os problemas do mundo, do terrorismo ao trânsito caótico das grandes cidades, sempre terminadas pela indefectível “o governo tem que tomar uma providência”: tomei um táxi e fui para casa.

Orgulho do jeca

sábado, 10 novembro, 2007

Foi preciso algum tempo para me recuperar do choque, mas ainda vale o registro: por Deus, como somos jecas! O anúncio da tal Copa 2014 foi tudo o que temos de mais clichê: meninos jogando bola na favela, um presidente fazendo gracinhas e um escritor-piadista soltando a pérola do ano. Como se não bastasse, ainda ficaram irritados quando um jornalista perguntou sobre a violência no Brasil – apenas por acaso, o país em que o assassinato puro e simples mata mais jovens do que câncer, AIDS e infarto do micárdio. Definitivamente, o maldito “orgulho nacional” cega a inteligência. Não é irrelevante o fato de meu interesse em futebol, que já não era grande coisa, ter decaído a próximo do zero nos últimos tempos; eu não consigo imaginar uma mísera vantagem para que esta terra sedie a Copa do Mundo.

Provavelmente sou apenas eu, que não passo de um chato da pior estirpe, mas às vezes você não tem a sensação de que esta história de futebol pentacampeão, país de chuteiras,  não passa de um imenso prêmio de auto-consolação, de auto-engano? Em 2014, estaremos ainda mais na rabeira do mundo supostamente globalizado, mas o que importa é que teremos a Copa do Mundo.

Espero ter dinheiro até lá. Vou assistir aos jogos, sei lá, de um hotel numa ilha do Pacífico.

O quê que há, velhinho?

terça-feira, 6 novembro, 2007

Carta para o Pólo Norte, renas puxando um trenó enferrujado, um bando de duendes produzinho brinquedos de madeira… Se Papai Noel for tão esperto quanto os filmes que começam a infestar a TV mostram, o velhaco já aderiu a web 2.0, internet colaborativa, geração pessoal de conteúdo, iPhone, Google Earth e, claro, lê alguns blogs. Por isso, torço para que ele veja a seguinte foto:

War

O senhor pode comprar aqui ó.

Ah, mais uma coisa: Não confie no que diz o seu sistema de CRM, eu fui um bom menino este ano, ok?

Se eu fosse revisor…

terça-feira, 6 novembro, 2007

… estaria no olho da rua neste exato instante. Só depois de 1 semana e meia de publicado, corrijo alguns erros irritantes no último post. Meu Deus.