Diálogos terceirizados

Três rápidas conversas, ouvidas em livrarias daqui de BH; não menciono nomes ou estabelecimentos para não comprometer pessoas que não conheço e provavelmente jamais voltarei a ver na vida.
Primeiro, uma aula no meio da livraria. Se entendi bem, uma professora do curso de Pedagogia usava a Antígona de Sófocles para falar de política, de motivações e obrigações públicas e privadas. Perdi o interesse por volta da estante de dicionários e voltei a ouvi-la na estante de ficção estrangeira, folheando um livro que me chamou a atenção pelo título, imediatamente esquecido e descartado. Agora ela falava com empolgação de Hannah Arendt e seu Eichmann em Jerusalém; nada de novo aqui, a banalidade monstruosa do mal e assim por diante. E tome mais política como salvação do mundo. Com certeza, falta-me estofo intelectual para discutir minúcias com ela, mas toda vez em que ouço alguém pregar (não parecia uma aula) que a política é a tábua de salvação universal, tenho a certeza de que alguma coisa se perdeu no meio do caminho, mais especificamente de Rousseau para cá.
Logo depois, em outra livraria, menor e mais simpática, sou obrigado a concordar com o funcionário, que discutia com um amigo. Dizia não suportar a atitude vegan, algo como “sou ambientalmente responsável e intelectualmente superior a você”. Bingo! Tenho especial desprezo por este narizinho empinado dos discípulos radicais de Al Gore, tão certinhos e bacanas em suas aspirações ecológicas e tão dipostos a exigir que o estado limite a liberdade individual em nome de vacas, alfaces e riachos. Apenas para confirmar o inferno instaurado pela ditadura da política citada no parágrafo anterior, hoje em dia todo grupinho acredita que precisa vender sua causa particular como lei e decreto para todo mundo. E, infelizmente, alguns acabam vencendo. Lembrei-me dos pais britânicos que queimaram livros infantis com finais infelizes. Antes, quando se falava de queima de livros, pensávamos logo num estado totalitário; agora, um bando de papais e mamães preocupados com seus filhinhos resolve brincar de nazistinhas do jardim de infância. Apostem comigo: quanto tempo levarão para tentar transformar a fogueira do bem num projeto de lei? Eu aposto em menos de um ano.
A terceira foi mais leve, na grande livraria de BH, tomada por fãs de Harry Potter. Fui à seção de quadrinhos para ver se havia chegado o primeiro volume da coletânea dos Piratas do Tietê, do Laerte – o livro estava lá, mas meu bolso, vazio. Um sujeito começa a conversar animadamente comigo sobre os quadrinhos de Angeli, Glauco e Laerte. Diz ter as edições originais da Chiclete com Banana (inveja…) e boa parte dos trabalhos mais recentes deles. Ele sumiu tão rapidamente quanto apareceu, enquanto eu folheava uma edição de bolso da L&PM.
Então decidi que já havia tido o suficiente por um dia. Agora eu precisava de uma dose generosa de observações afiadas sobre todos os problemas do mundo, do terrorismo ao trânsito caótico das grandes cidades, sempre terminadas pela indefectível “o governo tem que tomar uma providência”: tomei um táxi e fui para casa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: