Dois desejos literários (e um pop) – Parte 1

Desde muito tempo, tenho vontade de abordar certos temas, personagens e fatos em algum romance. Ainda não me preparei para eles; faltam-me leituras e treino. Sempre imaginei que o escritor deve se submeter a exercícios constantes, tanto quanto um pianista ou um cantor. Assim, considero o que faço atualmente apenas exercícios que, obviamente, ainda não estão suficientemente bons para exposição. Mesmo assim,  trabalho atualmente na pesquisa para um romance, um projetinho pessoal do qual não falarei porque seria mais ridículo  do que postar fotos minhas de sunga na praia. Em ambos os casos, meus dois leitores e meio cancelariam a assinatura do meu feed RSS no mesmo instante. Por outro lado, me permita falar sobre dois momentos históricos que me fascinam e gostaria de transformar em romances e as idéias mal ajambradas que tenho para eles .

Primeiro, o caso dos leões de Tsavo . Este episódio ficou conhecido graças ao competente filme de Stephen Hopkins (Vida e Morte de Peter Sellers) , A Sombra e a Escuridão, uma legítima produção de aventura na África sem chateações sobre colonialismo e slogans politicamente corretos. Claro que o filme não é historicamente correto, mas, diabos, que obrigação ele teria com isso? O que me interessa nesta história não são os esforços para a captura das feras, o império britânico ou as tensas relações entre os africanos e hindus obrigados a construir uma ponte no meio do nada. Quero escrever sobre a luta, a beleza e a violência inevitáveis da natureza. Como naquela belíssima seqüência de Além da Linha Vermelha, citada pelo Paulo, em que as gotas da chuva atingem as folhas não com delicadeza, mas com uma violência incrível. Terrence Mallick eleva esta observação da natureza a outro nível no fantástico O Novo Mundo, por meio de uma elaboradíssima  fotografia que aproveita a luz do dia (como em Barry Lindon, de Kubrick), os sons das folhas, pássaros, e dos corpos dos homens roçando na grama alta. Não sou ecochato ou antropólogo de boteco, não vou dar liçãozinha de moral babaca (“olha como o colonialismo inglês foi cruel”) nem escrever tratados (algo como “Leões Devoradores de Homens: Acomodamento, Tolerância e Violência na Relação entre Colonizados Hindus e Africanos no Caso da Ponte sobre o Rio Tsavo” – argh!). Gostaria de retratar a tensão entre homem e natureza, ou melhor do que isso, o eterno conflito da natureza, e tentar devolver a dignidade à África. Neste caso, os leões de Tsavo são quase personagens coadjuvantes de um conflito que não será encerrado nem respondido e que oscila da beleza a violência quase indescritíveis.

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Uma resposta to “Dois desejos literários (e um pop) – Parte 1”

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