Dois desejos literários (e um pop) – Parte 2

A grande vantagem de escrever estes três posts auto-referentes, auto-indulgentes e auto-inócuos é que estamos num feriado prolongado e quase ninguém vai ler isso aqui. Então, passo ao meu segundo desejo literário: narrar a trágica viagem de Scott a Antártida.

É, basicamente, uma repetição do tema anterior, mas sem feras transformando gente em marmita do dia: a violência da natureza e a tentativa do homem de voltar à ela, sem sucesso. Este aspecto passou em branco no primeiro post: sou obrigado a rir da idéia absurda do ser humano integrado à natureza. Toda vez que esta harmonização é tentada, fracassa exatamente porque não conseguimos abrir mão de nossa própria natureza singular. Abdicar da humanidade em prol da suposta integração com o mundo natural significaria aceitar a violência intrínseca da natureza. Claro, entre muitas outras coisas, esta aceitação incompleta está na raiz da loucura experimentada tanto por Scott e sua tripulação quanto por Kurtz no Coração das Trevas. E, talvez, surja também de uma certa inadequação social e, pelo menos no caso do Homem-Urso de Herzog, de um desejo inconsciente de auto-destruição – aqui um excelente texto sobre o documentário. Não pode ser coincidência que vemos prosperar grupos que pregam até a extinção da raça humana como suposta estratégia para salvar o planeta.

No caso da viagem de Scott, há ainda equívocos que chegam a ser comoventes de tão trágicos – e que não explicam totalmente o fracasso da missão. O que não se esperava era a transformação da última grande aventura do império britânico numa excursão insuportável, que perdia o sentido a medida em que os sobreviventes avançavam rumo ao Pólo Sul. E, mesmo rumo a própria morte, o Scott personagem é ainda mais fascinante do que sua história; é dele que quero falar, em primeiríssimo plano.

Amanhã a parte pop. Depois, voltamos a nossa programação normal. Paciência.

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2 Respostas to “Dois desejos literários (e um pop) – Parte 2”

  1. Mississipi Says:

    sobre filmes que mostram o homem diante de uma natureza implacável, vale lembrar Amargo Pesadelo.

  2. marcelopes Says:

    Sim, sim, como eu me esqueci dele? Faz tanto tempo que assisti a Amargo Pesadelo que vale procurar por ele novamente.

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