Dois desejos literários (e um pop) – Parte 3

Encerrando esta série de posts sem interesse a não ser para seu próprio autor, confesso uma vontade ridícula de criar um universo. Sim, eu sei que toda obra é um universo próprio, que a pretensão de se recriar ou retratar o mundo como ele é não passa de uma ilusão bem ridícula – e que parece a base de boa parte da literatura brasileira dos últimos tempos. Quando eu falo em universo, estou falando muito, muito sério.

Bom, na verdade, não falo nada sério. É isso: gosto também de me divertir escrevendo – o que sempre foi a principal razão para a existência deste blog. Não é fácil; ando revisando a primeira versão de uma idéia para uma narrativa nada original, e o trabalho está me dando uma dor de cabeça inacreditável. Eu implico com toda palavra, com o modo como a coisa começa e termina, com as falas dos personagens, com o perigo constante de tudo parecer artificial. E, neste caso, estou falando de um universo bem restrito – uma fazenda apenas. Por isso é paradoxal dizer que criar um universo inteiro é o que desejo para relaxar. A diversão está no fato de eu sempre pensar nisso da forma mais pop possível: Star Trek, Senhor dos Anéis, Star Wars, até Harry Potter serve de exemplo.

O projeto até já tem umas quatro histórias escritas na forma de roteiros, construídos a princípio para quadrinhos, bem curtos. Consegui imaginar alguns arcos, tentando mostrar mais dos personagens e do tal mundo que estou inventando. Talvez inventar seja uma palavra exagerada; digamos que aplico a Teoria de Tarantino mesmo sem ter o seu talento para juntar referencias dispares e construir algo novo. Basta dizer que para construir o personagem principal, penso em outros quatro: Spike Spiegel, Han Solo, Corto Maltese e até Arthur Dent. Na verdade, a história toda poderia até ser um spin-off de Cowboy Bebop, eu confesso.

Penso nele um pouco como um pobre-coitado com alguma reputação a zelar e uma vida pregressa marcada por decisões irritantemente erradas. De certa forma, ele quer consertar algumas burradas, mas nao consegue e se mete em bagunças ainda piores. Claro que sua fonte de renda não ajuda em nada: o sujeito é uma especie de entregador espacial, numa nave capenga (alguem aí falou Millenium Falcon?) com uma tripulação esquisita, e ainda por cima orgulhoso por não recusar trabalho nem deixar de fazer uma entrega. O sistema solar desta história é uma salada bem capitalista de empresas disputando territórios e mercados – ele trabalha como um free-lancer e sofre na pele os problemas deste estilo de vida, embora o adore. Nas primeiras versões da história, ele se chamava ligeiramente diferente, e seu novo nome foi uma sugestão bem-vinda de uma amiga. Assim como outra amiga também sugeriu que este lado um tanto mané seria interessante – embora ele nao esteja no nível rasteiro de um Fry, jamais terá a patente de um Kirk.

Não consigo me levar a sério o tempo todo, e escrever esta mistureba de ficção científica me distrai e diverte bastante, mesmo quando preciso fazer idéias absurdas funcionarem. Recomendo enfaticamente este pequeno exercício a todo mundo que deseja escrever uma ou duas histórias interessantes: escolha um tema, algo bem descompromissado, crie um universo e divirta-se. Acho que foi isso que Douglas Adams fez e deu muito, muito certo. Na pior das hipóteses, servirá para relaxar no meio de trabalhos mais exaustivos.

Nunca escrevi um post com tantos links para a Wikipedia; isso não é bom sinal. Só para ser diferente, tente clicar no link para o Capitão Kirk e ganhe de presente, ao final do texto do Inagaki, o pior cover dos Beatles já cometido pela humanidade. Não me responsabilizo pela perda das funções motoras e cerebrais após assistir a aquilo.

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2 Respostas to “Dois desejos literários (e um pop) – Parte 3”

  1. Edson Junior Says:

    Cowboy Bebop é para mim o melhor animê de todos os tempos; já assisti pelo menos umas dez vezes. Seguem na lista: Serial Experiments Lain, Evangelion, etc. Daí que teu personagem já vale a pena =]

    Abraço.

  2. marcelopes Says:

    Obrigado. Cowboy Bebop é meu anime preferido tb. Sempre revejo algum episódio.

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