A Rainha do Mundo

Faça o teste: quando lhe pedirem a opinião sobre algum assunto, qualquer um, diga que não sabe, nunca pensou a respeito ou (o pior, o pior) não se interessa pela questão. Certamente alguns ficarão assustados e olharão para você com espanto; um ou dois o farão com certa soberba porque, afinal, eles acham que sua s palavras sobre o tal assunto têm algum valor. Confesso que não entendo esta tara por ter uma opinião sobre todo e qualquer assunto, por mais iletrado que você seja a respeito. E antes eu imaginava que esta tara pela opinião pessoal sobre tudo era coisa de brasileiro, mas, neste caso, a Oprha Winfrey estaria desempregrada.

Eu, meio lerdo por natureza e um tanto por opção, demorei a aprender que eu não preciso ter uma opinião certinha, bonitinha e bem-nascida sobre tudo: opinião que não é baseada em um mínimo de informação coletada pelo indivíduo não passa mesmo de bullshit. Claro; nada impede que um monte bem volumoso de bullshit seja divertido de se ler ou ouvir, o que depende da companhia e do talento do autor, especialmente se ele sabe que está falando bobagem.

O fato inegável é que, se você for realmente esperto, com o tempo vai descobrindo coisas, ouvindo amigos, lendo livros e seus pontos de vista mudam. Mudar de opinião ao longo da vida deveria ser algo corriqueiro (eu queria muito citar uma frase de Blaise Pascal aqui, mas não me lembro dela), mas hoje em dia muita gente, mais do que conseguimos imaginar, quer ser adolescente até o fim da existência. Logo, mantém mais ou menos as mesmas idéias que tinha aos 14 anos – e nem é necessário dizer o quanto isso é ridículo. Ainda pior do que um adulto com idéias de moleque, é um adulto com as idéias do seu professor quando era um moleque .
Quando a coisa aperta e o cidadão precisa mostrar que aquela barba por fazer combina com os neurônios, ele apela à opinião genérica. Talvez você não tenha percebido, mas há um conjunto mais ou menos organizado de opiniões genéricas à disposição dos coitados que não podem ou não querem pensar sobre alguns assuntos. “Pena de morte? Sou a favor, claro. Eutanástia também. Mas vamos separar as coisas: maconheiro não financia o tráfico, certo? Quê, religião? Isso aí já deveria ter sido enterrado na latrina da história. Ah, mas eu acredito sim que o universo atende aos nossos pedidos.” Este gigantesco supermercado da opinião está a disposição de qualquer um que queira ser visto como uma pessoa de bem. Para entrar nele, não é preciso possuir sinapses neurais ativas; basta um par de orelhas desobstruídas para ouvir os outros tagarelando as mesmíssimas idéias. Como convém a um povo cordial, as opiniões mais populares do supermercado apelam com imensa facilidade a emoção e não a experiência, conhecimento ou argumentação. Mais de uma vez expus a fragilidade de algumas destas posições pré-fabricadas e politicamente corretas conversando com amigos (e repito: sou meio lerdo). As reações têm sido as piores possíveis, mas até agora não perdi amizades – só porque alguns não se manifestaram mais nos últimos seis anos não significa que tenham decidido se afastar.

Nota final: Meu amigo ficou online no Google Chat e pude copiar a citação a Pascal que está na sua assinatura: “Não me envergonho de mudar de opinião, porque não me envergonho de pensar” . Obrigado.

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