Onde o autor deste blog declara sua admiração por Hopper

Nos últimos anos, ver quadros de Edward Hopper em capas de livro tornou-se algo corriqueiro. Lembro-me bem de que a primeira obra de Hopper que vi estava na capa de um livro anunciado na revista do Círculo do Livro (alguém se lembra disso?), e ainda hoje acho que era Miss Corações Soliários, de Nathanael West. O quadro era este que ilustra o post aí em cima.

Posso citar os atributos mais comumente associados a sua obra, claro: a luz que incide sobre tudo, a expressão corporal dos personagens que parecem estar sempre a espera de algo, a solidão. Mas nunca vi suas pessoas como coitados; parece-me haver uma certa altivez em alguns deles, a aceitação adulta de que, se algumas coisas dão certo, a maioria dá simplesmente errado. Porém, nao vejo amargura em Hopper, mas melancolia. E, embora suas paisagens sejam sempre norte-americanas, acho bem ridícula a idéia de ele ter retratado apenas as supostas solidão e alienacão do povo ianque. Seus personagens, congelados em momentos banais, longe de qualquer epifania, poderiam ser de qualquer lugar do mundo. Muitas vezes, eles não parecem a espera de algo que acontecerá, parecem suspirar tristemente por algo que já aconteceu ou esperavam tivesse acontecido.

De qualquer forma, costumo, quando quero dar voz a esta interpretação do cenário norte-americano, compará-lo a um filme de Wenders – com uma diferenca crucial; uma única pintura de Hopper fala mais alto do que toda a filmografia somada do alemão que quis ver a América.

Aqui, os quadros mais famosos e aqui, Hopper na National Gallery of Art.

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6 Respostas to “Onde o autor deste blog declara sua admiração por Hopper”

  1. Edson Junior Says:

    É mesmo excelente. E essa impressão, neste quadro, de que há uma espécie de túnel ao fundo?

    Abraço.

  2. Ana Maria Montardo Says:

    Olha só que interessante… Pois eu “googlei” Edward Hopper justamente para procurar imagens para um post em que pretendo declarar meu amor Hopper e acabei caindo em diversos blogs interessantes – inclusive este teu. Num outro, de uma portuguesa, além de Hopper, encontrei uma playlist que começou executando um prelúdio de Bach e toca agora uma sonata de Rachmanikov. E escreve bem a portuguesa! Pra tu veres como Hopper nos leva a caminhos interessantes.

    Gostei muito das tuas considerações sobre a obra do pintor. “Se algumas coisas dão certo, outras dão simplesmente errado”. Gostei disso.

    Abraço!

    • Marcelo Lopes Says:

      Ana,

      Obrigado pelo elogio ao blog! E, por favor, deixe o endereço do blog desta portuguesa – fiquei bem curioso agora.
      E sempre gostei da luz nos quadros de Hopper. Ainda vou escrever um post sobre recriações famosas de seus quadros, dos Simpsons a desenhos animados japoneses; Hopper está nos lugares mais inusitados…

      Abs!
      Marcelo.

  3. Ana Maria Montardo Says:

    É http://tomilhomentaehipericao.blogspot.com

    Abs!

  4. Balzaquiana Says:

    Acho que você nem vai ler esse comentário porque a postagem é muito antiga, mas enfim…

    Amo o trabalho de Hopper…nem lembro como o conheci, mas me apaixonei desde a primeira pintura que vi, acho que foi a q ilustra meu blog, da mulher na cama apreciando a vista da janela.

    Eu concordo com vc que ele passa mais melancolia que amargura, mas costumo imaginar que elas pensam mais no que poderia ter sido, do que no que realmente foi. Acho q as pessoas do quadro dele pensam no que pode vir a ser, no futuro…não propriamente no passado. Sei lá, acho que isso sou eu, enquanto observadora, me projetando nos personagens. 😀

    • Marcelo Lopes Says:

      Balzaquiana,

      Engano seu: olha eu aqui lendo o seu comentário! 🙂
      E belíssima imagem que você escolheu para o seu blog. Você tem razão: os personagens hopperianos (isso existe?) parecem estar pensando em como as coisas poderiam ter sido, ou se há ainda alguma forma de endireitar o rumo das coisas para que seus planos voltem a ter alguma esperança. Acho que é nisso que acabamos nos identificando com eles, porque todos nós já passamos por isso ao menos uma vez.

      Abs!
      Marcelo.

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