Mais Estranho que a Ficção / Stranger than Fiction

Mais Estranho que a Ficção tem lá seus problemas; especialmente, um personagem francamente inútil, interpretado por Queen Latifah, e um final insatisfatório. Vou tentar não falar muito deste segundo defeito aqui, o que é bastante complicado, porque boa parte das qualidades desta produção encontra-se no dilema que conduzirá a trama a sua conclusão.

Porém, o maior mérito do filme é seu tom, certeiro, entre a comédia e o absurdo, com boa dose de melancolia que não se transforma em chateação. Will Ferrel, um bom ator egresso de comédias ruidosas e de gosto duvidoso, constrói Harold Crick com precisão, escondendo sua tristeza essencial nos hábitos inacreditavelmente metódicos; basta observar seus olhos para perceber as toneladas de frustração que carrega, silenciosamente. Há um clichê inescapável: Crick se apaixonará pela padeira anarquista (não, você não leu errado) vivida com graça e fúria por Maggie Gyllenhaall, seu oposto. Seu grande problema é descobrir que sua vida é, na verdade, narrada por uma escritora vivida por Emma Thompson, famosa por matar seus personagens principais. Com algum esforço, Crick entra em contato com um excêntrico professor de literatura vivido com humor calado e grave por Dustin Hoffman e consegue entender mais do que está acontecendo com ele.

Não que o filme nos forneça uma explicação. É preciso aceitar sua premissa absurda para saboreá-lo, com calma e atenção aos detalhes – aliás, é um alívio não receber uma explicação para os bizarríssimos eventos que sofre Crick. Assim, o diretor aposta na inteligência dos seus espectadores, aposta cada vez mais rara em qualquer forma de arte. E, talvez por isso, a busca de Crick pela definição de sua história/narração entre drama ou comédia não dê em nada. É como se o roteiro dissesse: a vida é assim mesmo, acridoce, complicada, repleta de espaços cinzentos.

É num destes espaços cinzentos que a decisão final de Crick se move, revelando uma grandeza do personagem que julgávamos impossível nos primeiros minutos. Ele terá de morrer. Suas últimas ações, delicamente orquestradas ao som triste da música La Petit Fille de La Mer, do grego Vangelis, geram uma expectativa que a resolução não sustenta. Mesmo assim, o saldo é positivo; Mais Estranho que a Ficção é um irmão menor, porém digno, de obras como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ou Adaptação. ATENÇÃO! Não leia a frase a seguir se ainda não assistiu ao filme! A diferença, crucial, é que Philip Kaufman certamente teria matado Harold Crick.

Cotação: ****

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