Um post confessional: saudades de meu pai

Quase todo desenvolvedor de software tem o hábito de ouvir música enquanto trabalha. Minhas preferências musicais são uma bagunça impossível de ser categorizada, então num arroubo saudosista, peguei os MP3 da Legião Urbana e coloquei na lista de reprodução do Winamp (sim, sou das antigas) aqui no computador. A lista começou pelo álbum A Tempestade, que, definitivamente, está longe de ser o melhor produto das cabeças de Renato Russo e sua trupe. No entanto e inesperadamente, senti saudades do meu pai.
Ele faleceu há mais de quatro anos, vítima de um infarto extenso. Foi um homem complicado, oscilando entre gestos silenciosos de reconhecimento e atitudes ruidosas e inacreditavelmente cruéis. Também era inteligente e, embora sem qualquer educação formal, capaz de feitos surpreendentes de uma engenharia mecânica que desconheço totalmente. Como filho, gosto de lembrar suas tentantivas destrambelhadas de agradar, especialmente com presentes natalinos e de outras datas. Quase sempre de última hora, escolhia um presente que quase combinava com o presenteado. Assim, ganhei o fraquíssimo LP duplo Burguesia, do Cazuza, um do Iron Maiden que ouvi duas vezes apenas e este A Tempestade, da Legião. Como boa parte dos trintões brazucas, já fui fã das músicas do seu Russo e, se hoje ainda ouço algumas, é pela mais vulgar e simples das razões: porque foram trilha sonora de eventos da minha vida (Na verdade, confesso achar que algumas letras dele conseguiram sobreviver ao teste do tempo, enquanto outras tornaram-se francamente ridículas).
E foi o som das músicas pós-V de A Tempestade, tão familiar e ao mesmo tempo tão perdido no meio das confusas memórias dos últimos anos de vida de meu pai, que me fez sentir esta saudade. O que antes me contrariava (os presentes “quase lá”), naquele tempo, também me enternecia profundamente, porque percebia o quanto eram difíceis, penosas até, demonstrações abertas de carinho para ele.
É a memória dos não tão freqüentes bons momentos que tivemos juntos que estes versos de “Esperando por Mim” me fazem lembrar. De fato, eles não são bons, são apenas pessoalmente dolorosos.

Hoje a tarde foi um dia bom
Saí pra passear com meu pai
Conversamos sobre coisas da vida
E tivemos um momento de paz.

E me vejo novamente na janela do antigo apartamento de minha família, conversando não sobre coisas da vida, mas sobre o universo, as estrelas e um monte de assuntos que minha mente infantil adorava discutir a sério com meu pai – que me ouvia pacientemente.

E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim

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10 Respostas to “Um post confessional: saudades de meu pai”

  1. Osmar Says:

    Ganhou mais um leitor meu amigo!
    Estarei sempre aqui lendo seus devaneios e desabafos.
    abracos.

    Osmar

  2. marcelopes Says:

    Bom te ver aqui, Osmar. E obrigado pela audiência! 😉

  3. Ju Says:

    Em um momento muito particular hoje, sem razao nenhuma, me deu saudades de meu pai, que faleceu ha quase 4 anos. Estava trabalhando no computador , entao na bobeira digitei :”saudades de meu pai” , seu texto apareceu e foi legal lembrar q nao sou a unica brazuca nos meus 30, pensando no meu velho…

  4. Marcelo Lopes Says:

    Ju,
    Ainda que a lembrança seja dolorosa e triste, de certa forma é bom saber que um texto que a gente escreve pode fazer sentido para outra pessoa, como uma conversa ou mesmo um “alô” um pouco carinhoso e levemente melancólico.
    Abs,
    Marcelo.

  5. Claudia Costa Says:

    Acho que seu pai era o meu também… conversávamos na minha infãncia, sobre vida fora da terra e o brilho das estrelas, sobre a via-láctea. Meu pai tb não teve formação academica mas, sabia de tudo um pouco, e era tão desastrado nas relações interpessoais. Deixou uma herança de caráter, trabalho, franqueza (até demais). Deixou muitos ensinamentos que hoje eu sigo sem perceber. Tivemos muito poucos momentos de felicidades juntos, aprendemos a nos desamar cedo e uma vida inteira não foi o suficiente para termos coragem de admitir que nos amávamos muito e que nos orgulhávamos muito um do outro.

    Há tantos pais iguais, tantos filhos iguais, tanta coisa que fica sem dizer. eu aqui, trabalhando com TI, olhando para o entardecer e sem motivo aparente procurei algo que traduzisse a “saudades de meu pai”. Eu disse pouco que o amava e agora, eu não sei se ele soube o quanto.

    abraço fraterno, água e luz, seja feliz e, sobretudo, desejo que vc seja um pai que não deixe conflitos guardados no coração dos seus filhos.

  6. Marcelo Lopes Says:

    Claudia,

    Talvez haja mais pais parecidos do que nós, filhos, gostaríamos de admitir. Também acabamos nos parecendo nesta distância que estabelecemos, nesta dificuldade de comunicação, nesse afeto calculado – pode haver expressão mais contraditória?
    Assim como o seu pai, o meu se foi levando consigo palavras jamais ditas, atos não concluídos e conflitos que poucos e talvez simples diálogos pudessem ter resolvido.
    Obrigado pelo desejo de ser um bom pai, Claudia, sempre penso nisso como serei se eu vier a ter filhos – mas sei que vou me esforçar muito.
    E também desejo que seja uma ótima mãe e que, se isso for necessário (e torço para que não seja), que você seja a ponte que consiga unir os mundos dos pais (homens) e dos filhos e filhas.

    Abs!
    Marcelo.

  7. daniel Says:

    sempre que ouço essa musica tambem me lembro do meu pai que morreu à 5 anos de infarte muito bom texto

    att

    daniel caliari

  8. Marcelo Lopes Says:

    Daniel,

    A saudade dos entes queridos é sempre muito pesada. Agora está quase insuportável, já que também perdi minha mãe recentemente, mas estou indo em frente; às vezes ouvindo uma música, lendo um livro ou assistindo a um filme que acaba me levando às memórias dos dois.

    Abs!,
    Marcelo.

  9. Ana Says:

    Olá, estava procurando pelo nome dessa música do Legião Urbana e acabei caindo aqui, perdi meu pai há 4 anos e sempre que ouço essa música não consigo ñ chorar, muito bom o seu post, já favoritei, abraços

    • Marcelo Lopes Says:

      Ana,

      Obrigado pela favoritada. Também sinto muita falta de meus pais… hoje mesmo vi por acaso uma das únicas fotos em que está toda a minha (pequena) família reunida. Que saudade.

      Abs!
      Marcelo.

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