Leituras pouco natalinas

Quando não estava envolto pelas celebrações de Natal (aliás, ótimas), fiz, basicamente, três coisas.
Andei relendo O Leopardo (Il Gattopardo), de Tomasi de Lampedusa, um dos meus romances favoritos, que ganhei no antepenúltimo Natal. Costumo não dar muita bola para a trajetória do livro e dos autores; não, minto: leio sobre o autor, mas tento, na medida do possível, manter uma distância saudável para poder apreciar a obra. Digo isto porque tudo o que envolve O Leopardo é fascinante: da obsessão perfeccionista de Lampedusa a recepção fria que o romance recebeu, atacado pelo reacionarismo dos críticos marxistas, até a esplêndida versão cinematográfica de Lucchino Visconti (também ganhei o DVD). De certa forma, talvez eu veja Lampedusa como um personagem de Borges: culto, nobre e devotado a construção de uma única obra, em que a memória íntima dos homens e a trajetória de um povo se fundem com a elegância e a tristeza de se assistir a um mundo que jamais existirá novamente. O Leopardo é um triunfo; sempre que o leio aprecio ainda mais.

Em outro extremo, li os três primeiros episódios do mangá (quadrinho japonês) Death Note, que é bem mais interessante do que eu imaginava. Na verdade, praticamente não leio mais histórias em quadrinhos, o que julgo natural. Quando o faço, minha atenção fica com as histórias que só posso descrever como diferentes, porque seria ridículo chamá-las de adultas, como se eu quisesse, assim, me distanciar das supostas bobagens infantis. Até porque o mote de Death Note é, em si, de uma simplicidade absurda: um Shinigami (algo como uma divindade da morte na mitologia japonesa) deixa seu caderno cair na Terra. O objeto cai nas mãos de um rapaz inteligentíssimo cujas aspirações amorais o levam a matar criminosos, já que o humano cujo nome for escrito no tal caderno morre. Há, claro, um dilema moral levemente escondido na trama, que, apesar dos tons sobrenaturais, segue a estrutura do jogo policial de gato e rato. Com uma diferença importantíssima: os personagens principais são inteligentes, talvez até demais. Numa era em que todo protagonista parece ter a capacidade intelectual de uma porta, chega a ser um alívio ler sobre pessoas assim.

E assisti a um único filme, Longe do Paraíso (Far from Heaven), de Todd Haynes. Recriação acurada dos melodramas de Douglas Sirk, traz Julianne Moore e Dennis Quaid quase perfeitos no papel de um casal de classe média nos EUA dos anos 50. Como toda imagem de perfeição, esta será destroçada pelos conflitos que se desenrolam nos bastidores, tema favorito dos melodramas. Assim como no Leopardo, de Lampedusa e Visconti, o auge se dá em um baile. Nele, a personagem de Moore é sufocada pela fotografia, amigos, roupas e paredes, enquanto seu marido revela, com falas e trejeitos, suas tendências homossexuais. A partir daí, tudo dará errado, dolorosamente errado. O final parecerá inconcluso, para alguns, mas me satisfez. Um bom, rigoroso e triste filme.

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2 Respostas to “Leituras pouco natalinas”

  1. Ed Says:

    Estou com os três dvds de Death Note aqui em casa para assistir mas não o fiz ainda. O mangá li um pouco e, sim, me pareceu bom.

    Boas festas pra ti.

  2. marcelopes Says:

    Boas festas para ti tb! Não vi o anime, mas tb me parece bom.

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