Archive for janeiro \31\UTC 2008

Mas… De novo?

quinta-feira, 31 janeiro, 2008

Eu tinha uma lista de assuntos quase interessantes para escrever aqui no blog e fui surpreendido por mais uma crise, parecida com a que tive no início do ano, mas desta vez bem mais branda. Paciência. Agora, de volta às atividades.

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Um post rabugento: Eu odeio carnaval

segunda-feira, 28 janeiro, 2008

No mês de dezembro, li posts e mais posts em blogs que gosto de visitar defenestrando o Natal como o mais hipócrita e estúpido dos feriados. Por pouco, não me senti culpado por até gostar da data. Talvez o fato de minha família ter sido um núcleo restrito de participantes tenha alguma influência nisso. Nunca houve uma ceia composta por tias bêbadas se estatelando no chão depois de uns copos de cidra, nem primos reclamando do tempero do peru. Nossos Natais sempre foram simples e alguns até conseguiram ser aconchegantes. Mas, o carnaval, ah, o carnaval é diferente.

Quando se é moleque, o carnaval atrai os hormônios, claro. Apesar da efervescência juvenil e dos esforços patéticos para se agarrar alguém, geralmente o baile terminava solitário num ponto de ônibus madrugada afora. Também é verdade que para a maioria de nós, homens, o carnaval só é atraente pela promessa de se conhecer mulheres tão dispostas a aventuras quanto nós mesmos. Além desta mesquinharia dos instintos, há, evidentemente, toda uma cultura envolvida na construção e manutenção da festa, que não pode ser descrita como uma apenas; há dezenas de carnavais, e é difícil escolher o pior de todos. E, no entanto, todos eles parecem dolorosamente iguais.

O mais típico dos carnavais, o tal desfile de escola de samba, não passa de um espetáculo tão brasileiro quanto deprimente – tudo é igual, ano após ano; os carros, as fantasias, os sambas-enredo, até as bundas são todas parecidas. O carnaval parece a coroação do discurso fatalista que embala os comerciais de cerveja. Você conhece: este povo batalhador, que rala de segunda a segunda, merece brincar com criatividade e graça, no momento em que revela todo o seu talento e inteligência. Onde ficam escondidos estes diabos de talento e inteligência brazucas nos outros 360 dias alheios à festa momesca? Em lugar algum, claro, pois eles não existem sequer naqueles cinco ou seis dias (estou excluindo a Bahia e alhures desta estatística furada…) de orgia oficial. O carnaval é a coroação definitiva da auto-mitificação do brasileiro; como se, exatamente por causa da festa e não apesar dela, fôssemos um povo que faz alguma diferença no mundo.

Enfim, não tenho mais a santa paciência (ou o descaramento) para suportar um bando de gente suada e fedida, pulando ao som de músicas que, em condições normais de temperatura e pressão, não seriam ouvidas nem por um gorila bebum, participando de um festim repetitivo, chato e infantil. Carnaval, para mim, está muito longe de diversão. Por quê eu trocaria a companhia de poucos e bons amigos, sua leveza, risadas e cumplicidade, por uma festança vulgar?

Em tempo: Vou, como sempre, usar os dias de folga para descansar. Longe de qualquer batuque. Longe até deste blog silencioso que também rejeita o carnaval.

Você sabe que é um nerd de cinema quando…

segunda-feira, 28 janeiro, 2008

… percebe que, na cena do desembarque dos gregos, no filme Tróia, os acordes da música são os mesmos de A Máscara do Zorro. Então, você pesquisa e descobre que a trilha composta originalmente pelo libanês Gabriel Yared foi rejeitada pelos produtores, que a consideraram épica demais, ultrapassada para o público atual – a depender destes gênios da sétima arte, logo teremos um pornofunk animando a refilmagem de Lawrence da Arábia. O diretor Wolfgang Petersen (a cada produção mais e mais burocrático, infelizmente) teve que se virar e conseguiu chamar o competente James Horner para compor e orquestrar 120 minutos de música em apenas 25 dias. Horner fez as trilhas de Titanic (não, ele não tem culpa alguma de Celine Dion existir) e conseguiu a proeza de integrar suas orquestrações a introdução de Das Rheingold , de Wagner, na obra-prima de Terrence Malick, O Novo Mundo. Mas parece ter a mania de reaproveitar trechos de trilhas anteriores. No caso do subestimado Tróia, até dá para desculpar, afinal, o prazo era ridículo. De qualquer forma, sempre quis ouvir a primeira versão de Yared – os poucos afortunados que a conheceram elogiaram bastante.

Nota: Eu sempre confundo James Horner com Howard Shore, o compositor da trilogia O Senhor dos Anéis.

Nota 2: Sim, poderia falar também da vez em que percebi que os primeiros minutos de um episódio (dos três que já assisti) de A Diarista eram idênticos a um episódio de Bob Esponja que havia assistido uma semana antes. Mas, puxa, isso acabaria com a minha reputação.

Onde declaro minha admiração pelo Gigante de Ferro

sexta-feira, 25 janeiro, 2008

Eu já disse que O Gigante de Ferro é meu desenho animado preferido? Que acho o seu diretor, Brad Bird, criador dos excelentes Os Incríveis e Ratatouille, um gênio do cinema? Que eu daria um rim para trabalhar na área de criação da Pixar? Sim, eu falo sério – metaforicamente sério.

Mas, de volta ao assunto do título, agradeço a este post do Hiro (ilustrador de primeiríssima categoria), que me levou ao site Ultimate Iron Giant, com esboços (sketches), material promocional, artes originais, bonecos, tudo o que um fã do filme pode querer. Pouca gente sabe, mas o Gigante de Ferro é inspirado no livro de mesmo nome, cuja origem é trágica : foi escrito pelo poeta Ted Hughes para seu filho, quando sua mulher e também escritora, Sylvia Plath, se matou. Nunca o li, mas sei que o livro é (obviamente) mais triste do que o filme. A produção norte-americana de 1999 combina com habilidade e delicadeza temas como ficção científica, guerra fria, o Super-Homem e as obsessões aventurescas da infância masculina. Uma obra-prima.

Sim, o nome do filho de Ted Hughes? Hogarth, claro.

Guetos da fumaça

quarta-feira, 23 janeiro, 2008

Odeio cigarro. Detesto o cheiro de fumaça. Cinzeiros cheios parecem-me sinônimo de desleixo. É incrivelmente irritante beijar uma fumante. E charutos, quando usados para que seu portador pareça inteligente, são absolutamente ridículos. Para completar, não tenho dúvidas quanto a participação do tabaco entre os fatores que contribuíram para o infarto fatal de meu pai.

No entanto, todo este cerco aos fumantes me incomoda mais do que suas baforadas. Não consigo fazer parte desta histeria coletiva que se transforma rapidamente numa forma sofisticada de segregação guiada pelas nossas taras por corpos saudáveis. Há cidades e países prestes a banir o cigarro definitivamente, pela força da lei. Parece-me uma vitória dos burocratas, seus papéis e obsessões por ordem, como o personagem de Stanley Tucci no divertido e subestimado Terminal, de Spielberg. No fundo, a existência de leis e determinações contrárias aos fumantes mostram o fracasso dos indivíduos em negociar os termos da, digamos, convivência social. E acabamos por aceitar as determinações dos estados, que, na prática, são incapazes de notar os indivíduos.

Finalmente, uma rede social!

terça-feira, 22 janeiro, 2008

Cometi orkuticídio alguns meses atrás. Cansei daquela briguinha constante entre trolls, gente adulta agindo como adolescente à cata de popularidade, scraps de amigos desconhecidos, vírus, mensagens inúteis – em suma, a chateação superou a curiosidade. Não sinto falta alguma daquilo. Mas, acabei me rendendo a outra rede social, graças ao Marcelo Antunes, do Repositório: o aNobii, onde você se cadastra e compartilha os títulos de livros que possui. Ainda há poucos brasileiros (bom, no Orkut, deixa para lá, ia fazer um comentário irônico, mas desisti) no aNobii, e eu mal comecei – cadastrei apenas quatro livros recentemente lidos. Sinceramente, gostaria de ver esta rede crescer, de verdade. Esta é a minha estante, ainda bem fuleirinha.

E, sim, estou lendo Reparação , finalmente. Há pouco a dizer que já não tenha sido dito. É estonteante, e ainda sequer cheguei à metade.

Cegueira e política

segunda-feira, 21 janeiro, 2008

Nunca consegui entender muito bem o entusiasmo de pessoas comuns pelos políticos. Ver um bando de sujeitos rindo, gritando e aplaudindo um homem de política em seu palanque sempre me pareceu uma mistura mal ajambrada de hipocrisia, ingenuidade e canalhice temperada com auto-engano. Não, não sou um desses que afirmam que “todo político é igual”, porque esta frase desastrada apenas estabelece uma distância artificial entre quem a emite e a realidade, é uma forma de se pretender interessante ou inteligente. O outro extremo é a militância, que não é mais do que uma forma de cegueira. Em ambos os casos, estas abordagens mostram uma certa incapacidade de se achar um lugar para a política na vida comum. Acaba sendo mais fácil deixá-la contaminar tudo. E aceitar que “tudo é política” também é decretar a morte do próprio espiríto.

Lembro-me sempre de uma frase do livro do historiador John Luckács, O Duelo: Churchill x Hitler (não estou com o livro à mão, logo, contente-se com uma citação torta e de cabeça): Churchill tinha princípios, enquanto Hitler tinha um conjunto de conceitos fixos sobre o mundo, algo assim. E princípios guardam uma certa flexibilidade, ou melhor, são quase sempre uma tentativa sincera de se tentar enxergar e entender o mundo enquanto os crentes na política (sejam os áulicos de comício ou os intelectuais de escritório) iludem-se com a possibilidade de tentar mudá-lo. É desnecessário dizer que esta pretensão ridícula já cobrou seu preço ao longo do século XX e continua a nos intoxicar diariamente.

Ainda que surgisse um político cujo discurso se encaixasse perfeitamente no meu, eu seria incapaz de pular como uma macaca de auditório sorridente a seu favor. Certamente, ele teria o meu voto porque não tenho vergonha de defender suavemente os meus princípios e, talvez, eu diria a quem estivesse disposto a ouvir as minhas razões para apoiá-lo. Mas isto é coisa que faria em particular, jamais o chateria com este tipo de coisa neste blog, não se preocupe.

Penso nisso sempre que vejo cenas ridículas assim.

Revirando o baú (II): Think Nothing Day

sábado, 19 janeiro, 2008

Mais um, lá do distante ano de 2001. Bem mal escrito, aliás.

Think Nothing Day

Claro que existe consumismo; mas ele não é gerado espontaneamente.

Gente muito boa, bem intencionada, esse pessoal de uma ONG canadense que criou o Buy Nothing Day. Explico: criaram uma campanha mundial para que as pessoas não comprem nada durante um dia inteiro, um forma de mostrar aos comerciantes que os consumidores “querem mais respeito” e, indiretamente, protestar contra o consumismo. Este dia foi a sexta-feira, 23 de dezembro de 2001.

Claro, para ser bem sucedida, a empreitada precisava chamar a atenção de suas principais vítimas, digo, seus alvos; nós, os consumidores deste horrendo parque de enganar bobos chamado capitalismo. Como, ao contrário da gente, o povo das ONGs não é trouxa, eles compraram o espaço publicitário do programa de Larry King pela mixaria (neste caso, eu poderia usar a palavra bagatela, porque estou sendo irônico; bagatela, na verdade, significa mixaria) de 15.000 dólares. Felizmente, pagaram antes do tal Buy Nothing Day, senão a campanha seria um completo fracasso.

Quem imagina uma bizarrice destas deve mesmo pensar que o consumidor é um completo idiota desprovido de cérebro, ou se o tem, perderia para um camarão da Antártida em um teste de matemática (só de somar e subtrair, por favor; dividir e multiplicar é difícil demais para nós). Para que o consumidor seja considerado uma mariposa intelectual, teríamos que admitir que toda propaganda surge o efeito desejado, ou seja, cria no sujeito um desejo irrefreável de comprar. O fato é que conhecemos muitos produtos que naufragaram, apesar de todo esforço marqueteiro em fazê-lo descer por nossas gargantinhas. Resumindo, o consumidor rejeita marcas, produtos, preços e não precisa de ninguém que venha lhe dizer o que fazer. Os que se acham divinamente superiores a nós são os inventores destas “datas”, paradoxalmente para nos proteger de nós mesmos…

Claro que existe consumismo; mas ele não é gerado espontaneamente. Acreditar nisso é como assumir o papel de um biólogo do século XVIII que acreditava na “geração espontânea da vida” porque via animais “brotando” da (eca!) carne podre; é tomar o sintoma como causa e enfiar a causa no bolso do jaleco. A propaganda, na verdade, se “aproveita” de nossas necessidades – aceitação social, conforto, prazer afetivo e sexual, etc, etc e etc. – e nos oferece produtos para satisfazê-las. Ela não “cria” uma necessidade; este conceito é pura retórica de publicitário de ego inflado e carteira de clientes recheada e de intelectual socialista, para quem a menção da palavra “lucro” gera imediatamente reações cutâneas alérgicas – em bom vernáculo, o sujeito fica todo empolado. Podemos até discutir que há propaganda absurda e enganosa, mas aí já é outra história. Agora, “criar necessidades” é demais para qualquer debate sério, tenha santa paciência.

Por isso, lanço aqui e agora a campanha mundial Think Nothing Day. Como eu não tenho verba para comprar espaço publicitário na CNN, fica meu singelo apelo para que fiquemos durante um dia inteiro sem pensar. Acredito que o pessoal do Buy Nothing Day ficará muito feliz com esta iniciativa. Veja bem – ficando um dia inteirinho sem pensar, podemos nos esquecer de que ficar sem comprar acaba por atrapalhar ainda mais as empresas que vivem a eterna crise brasileira e com elas, os empregos de milhares de pais de família. Por outro lado, o Think Nothing Day será uma benção para as emissoras de televisão, que anunciarão os maiores índices de audiência de todos os tempos, especialmente nos malditos reality shows (eu não consegui pensar – já estou no clima! – em uma tradução para este termo que não fosse pejorartiva) que pipocam na telinha. Ninguém jogará xadrez por todo um dia e as pessoas vão se distrair com jogos de azar; reuniões de negócio são desmarcadas porque ninguém vai querer traçar estratégias neste dia, o Deep Blue vai travar, o Windows funcionará perfeitamente e todos descansarão aquele órgão desprezado em tempos de inflação (literal) de peitos e bundas, o cérebro, aquele inútil.

No impressionante Think Nothing Day, todos aceitarão as verdades ditas por pessoas maravilhosas e bem intencionadas sobre nossa burrice natural e aceitarão com um doce sorriso nos lábios a benevolência daqueles geniais senhores que vieram ao mundo para nos salvar de nós mesmos.

Nós esperamos a sua adesão – não pense duas vezes!

 

Marcelo Lopes

03 de dezembro de 2001

Revirando o baú (I): Confissões de um cabeça de bagre

quinta-feira, 17 janeiro, 2008

Descobri que meu site do tempo das cavernas, o Anacrônicas, além de abandonado a própria sorte há mais de mil anos, agora sofre de amnésia por parte do provedor de hospedagem, o hpg (alguém se lembra dele?); muitos links não levam mais a lugar algum. Por isso, estou recuperando os textos menos piores e colocando aqui. Não vou perder tempo dizendo o quanto é estranho reler coisas escritas no tempo da jaguatirica; você sabe, eu sei, ela sabe. Descontem-se o estilo truncado, o texto meio sem ritmo e a efemeridade dos temas, e eis o que sobra: um ou outro textinho até razoável. Não os revisarei, vão assim mesmo, curtos e grossos. Neste primeiro, apenas corrigi o nome do livro do Torero (que não li); no lugar de “Paraíso”, havia grafado “Céu”.

Começo pela minha confissão de incompetência futebolística:

Confissões de um cabeça-de-bagre
Existe sujeito mais anti-torcedor do que eu?

Depois da Copa do Mundo me senti na obrigação, ou melhor, dever, de esclarecer quais são as relações existentes entre eu e a querida “dona redonda” – a bola de futebol, tão amada pelos meus compatriotas. Cronistas são mestres em falar longa e detalhadamente do que não entendem lhufas ao quadrado de coisa alguma, e é por isso que muitos nos tomam por intelectuais. Como nunca tive destas pretensões, sempre fugi do fardo de escrever sobre futebol, por absoluta e total falta de competência. Nesta página, meu amigo leitor, a regra abre-se para uma (a única!) exceção.
Antes, quero deixar bem claro que nunca tive quaisquer intimidades com a moça. Uma vez largada aos meus pés, tinha poucas opções de ação – ou “embicava” a pobre coitada para longe da área ou me submetia a um vergonhoso e simplório drible dos adversários. Em contrapartida, nem eu ou ela morremos de amores um pelo outro – o fato é que nossa convivência sempre fora forçada por “amigos” razoavelmente comuns aos dois. Eu ficava em fila, ao lado de outros competidores, e os capitães, um a um, escolhiam os membros de suas equipes. Desnecessário mencionar que eu era, tipicamente, o último da lista. Na verdade, por algum tempo, houve um infeliz na minha turma que conseguia a proeza de ser um perna-de-pau ainda mais inepto do que eu. Puxa, sair do último lugar para o penúltimo foi um salto de qualidade impensável para mim. Mas durou pouco.
Fora dos campos improvisados, nada me caracterizaria como torcedor. Não sabia quem era quem nos times, mal conhecia a escalação do Atlético Mineiro – herdei de meu pai a honradez de declarar vestir esta camisa. Sinceramente, o time merecia torcedor melhor, o que me lembra daquela frase famosa de Groucho Marx ou Woody Allen: “Eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”.
Jamais fui ao Mineirão, não acompanho os jogos e só assisto ao Brasil nas Copas do Mundo – a exceção desta, porque jogo às três da madrugada foi coisa de zumbi. Para completar o vexame, ainda fui contra a ida do Romário para a seleção do Scolari. Existe sujeito mais anti-torcedor do que eu?
Não encosto o pé na querida gorducha há dez anos. Juro que dela não sinto saudades. É certo que ela já me esqueceu, o que só prova que é dama de pungente inteligência e caprichosos desejos, sem tempo para aturar aqueles falsos pretendentes que mal sabem tratá-la com o devido respeito (e o carinho merecido no momento adequado também).
Como ela nunca me deu bola (e nem daria mesmo, especialmente depois de um trocadilho tosco como este), procurei outras damas, de formas menos previsíveis – mas o futuro afetivo de um moleque que não sabe chutar a pelota com um pingo de categoria é o mesmo que uma partida entre a Vila Xurupita e o Arranca-Toco F.C. num Maracanã vazio. Zero a zero. Felizmente, o tempo cuidou disto com aquela sutileza hormonal da adolescência e, mais tarde, consegui virar o jogo a meu favor.
Por isso, minha querida dona redonda, minha ex-quase-qualquer-coisa, aceite o fato de que nossos caminhos jamais se cruzarão novamente. Já lhe disse adeus uma vez e você ainda vem me assombrar a cada quatro anos só para brincar comigo. Não adianta, querida, sou caso perdido. E você sabe, sabe muito bem lá no fundo, que tem é muita sorte por isso.
Meu consolo foi encontrar aquele título com o qual José Roberto Torero batizou seu livro, “Os Cabeças de Bagre Também Merecem o Paraíso“.
Aleluia, irmão!!!

Marcelo Lopes
Geral do Mineirão, 04 de setembro de 2002.

Para os que não se lembram, Vila Xurupita e Arranca-Toco F.C. são os times rivais das antigas revistas do Zé Carioca. Certamente, você, meu caro leitor, não poderia morrer sem saber de informação tão importante…

Marcha noturna

terça-feira, 15 janeiro, 2008

Acontece às vezes, e é bem irritante. Acordei agitado à noite e me lembrei de que havia deixado um DVD sendo copiado pelo computador. É Segredos das Artes Marciais, que gravei do Discovery Channel para um amigo entusiasta da honra e pancadaria orientais. Confesso quase sempre ter tido preguiça para praticar estas artes; à exceção de um curtíssimo período de tempo em que me interessei por Aikido (e, por favor, isso nada teve a ver com Steven Seagal), sempre achei muito bacanas seus movimentos e piruetas nos outros e em alguns filmes.

De qualquer forma, me levantei para desligar o PC e acabei olhando pela janela. Do meu apartamento, vejo uma avenida razoavelmente movimentada e próxima. Há outra avenida, menor e invisível daqui, onde uma pista de cooper serve aos corpos e espíritos mais animados. Já quis muito fazer caminhadas diárias, mas meus horários me fariam freqüentá-la muito tarde – quem já foi assaltado três vezes tem medo de noite fria. Acredito que havia um rascunho de projeto para uma pista na minha avenida também, pois ela exibe resquícios de um canteiro central mais preparado para a turminha da saúde. Logo, não esperava ver alguém andando ou correndo por estes lados.

Mas ali estava um homem alto e magro, de short curto, camiseta regata (ambos azuis) e tênis brancos, os passos decididos com que a simplicidade de propósitos premia os abnegados, silencioso, nenhum carro, som ou testemunha – além, provavelmente, de mim. Observando-o, percebi o frio que fazia àquela hora, e que hora: quatro e meia da madrugada, olhei no monitor. O homem continuou sua marcha acelerada convicto e logo desapareceria do meu campo de visão. Quis, por um momento, entendê-lo, perguntar qual a razão daquela atitude bizarra (aos meus olhos, ao menos), se era um hábito primorosamente cultivado ou se também havia sido acordado pela briga entre o inconsciente e a consciência e resolvera se cansar um pouco antes de voltar a dormir. Ou tentava esquecer uma companheira, preparar-se para uma maratona – no Japão, presumo – , trilhar o caminho zen da corrida, se era um membro desgarrado de algum grupo de night runners ou se, quem sabe, havia simplesmente perdido a razão?

Então, duas constatações surgiram na minha mente. A primeira, mais óbvia, é que eu jamais saberia as razões daquele sujeito, azul como um Smurf, estoicamente correndo sob a madrugada. A segunda, definitivamente mais triste: faz muita, muita, muita falta um Rubem Braga. Ele teria visto este homem e escrito uma crônica que valeria a pena ser lida nos jornais de dias seguintes. E, de repente, me deu vontade de ler alguma coisa dele novamente, com aquela leveza grave e elegante que aprendi a admirar ainda adolescente.

Sim, há uma terceira constatação, claro: eu não sou Rubem Braga. O resultado é este post.