O Mar / The Sea, de John Banville

Nunca havia lido um livro do irlandês John Banville, mas já sabia de uma certa polêmica entre ele e Ian McEwan. Se por um lado, o clubinho de amigos da literatura brasileira costuma desencorajar este tipo de escaramuça, por outro, pouco me interessam estas confusões. Meu interesse está na literatura, não no que podemos chamar de vida literária. Logo, acabei deixando Banville de lado até me ver numa livraria entre o seu O Mar e As Brasas, de Sándor Márai. Explico-me: queria um autor cuja leitura havia adiado ultimamente e acabei escolhendo Banville por razões que não consigo explicar; talvez estivesse mesmo pensando no último de McEwan e acabei optando pelo mesmo cenário narrativo: a praia.

Max Morden é um crítico de arte que volta a praia em que viveu durante a infância, e acaba por submergir (a metáfora tola não é intencional, juro) nas lembranças que tem de uma família que morava ali perto e na recente morte de sua mulher. Ele está também tentando escrever um livro, mas acaba se concentrando em descrever livremente suas memórias. Não demora muito e percebemos estar lendo uma tentativa de relato, em que o ordem dos acontecimentos pouco importa e as ligações entre um evento e outro não são óbvios. Felizmente, Max não é um sujeito de intelecto limitado, possui uma memória prodigiosa, mas suas ambições são mais simples do que ele gostaria de admitir no início do livro. Em determinado momento, ele afirma sequer saber quem é, ou que personagem gostaria de ter sido em sua trajetória, despe-se da ambição de entender a si mesmo ou de ordenar o passado para que este lhe forneça alguma explicação sobre quem ele se tornara.

Não há aqui a fúria de Bernhard, nem auto-comiseração; o modo de Max narrar varia conforme ele parece se impacientar, apreciar ou mesmo evitar as passagens que descreve. Em vários momentos, quando fala de sua infância, surgem frases simples e brevíssimas metáforas de gosto duvidoso. Identifica minuciosos detalhes sensoriais quando trata de sua atração sexual pela vizinha mais velha. Em outros, dedica a Anna, sua mulher, um cuidado excessivo, elegante e quase cerimonioso no modo como a descreve e à decrepitude física decorrente de seu tratamento clínico. No final do livro, apega-se com alguma insistência ao seu conhecimento de arte, comparando situações e cenários a obras de pintores, como se isso pudesse, de alguma forma, dizer algo sobre si mesmo. Mas é nas descrições que Banville cria imagens ao mesmo tempo estranhas e familiares, identificando cores e cheiros com precisão quase perversa. São os melhores momentos de sua prosa.

O Mar é uma bela evocação mórbida do passado, e da prisão que ele pode representar. A silenciosa tragédia do narrador Max é não existir, ou melhor, reconhecer que existe apenas como uma história contada para si mesmo.

Aqui, no Rascunho, uma resenha de verdade, de onde cito este trecho precioso sobre O Mar: “Não há madeleines em John Banville”.

Anúncios

3 Respostas to “O Mar / The Sea, de John Banville”

  1. Alta literatura e literatura de massa : a distinção faz algum sentido? « Universo Tangente Says:

    […] post é ainda mais interessante, abordando o escritor John Banville – autor de O Mar, já comentado aqui. Banville é um escritor rígido, exigente e celebrado, mas que leva cinco anos para escrever um […]

  2. Entrevistas de John Updike « Universo Tangente Says:

    […] encerrar, uma coleção de resenhas de seus livros no New York Times, escritas por gente como John Banville, Margaret Atwood e Joyce Carol […]

  3. Gilmarzinho Says:

    Vou atrás deste para ler.

    O que eu já li do Banville foi o “Mefisto”, que é um espetáculo de metáfora gótica.

    Valeu pelo post. Me incentivou a ler Banville de novo, e isso é bom. hehehhee

    Té.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: