Marcha noturna

Acontece às vezes, e é bem irritante. Acordei agitado à noite e me lembrei de que havia deixado um DVD sendo copiado pelo computador. É Segredos das Artes Marciais, que gravei do Discovery Channel para um amigo entusiasta da honra e pancadaria orientais. Confesso quase sempre ter tido preguiça para praticar estas artes; à exceção de um curtíssimo período de tempo em que me interessei por Aikido (e, por favor, isso nada teve a ver com Steven Seagal), sempre achei muito bacanas seus movimentos e piruetas nos outros e em alguns filmes.

De qualquer forma, me levantei para desligar o PC e acabei olhando pela janela. Do meu apartamento, vejo uma avenida razoavelmente movimentada e próxima. Há outra avenida, menor e invisível daqui, onde uma pista de cooper serve aos corpos e espíritos mais animados. Já quis muito fazer caminhadas diárias, mas meus horários me fariam freqüentá-la muito tarde – quem já foi assaltado três vezes tem medo de noite fria. Acredito que havia um rascunho de projeto para uma pista na minha avenida também, pois ela exibe resquícios de um canteiro central mais preparado para a turminha da saúde. Logo, não esperava ver alguém andando ou correndo por estes lados.

Mas ali estava um homem alto e magro, de short curto, camiseta regata (ambos azuis) e tênis brancos, os passos decididos com que a simplicidade de propósitos premia os abnegados, silencioso, nenhum carro, som ou testemunha – além, provavelmente, de mim. Observando-o, percebi o frio que fazia àquela hora, e que hora: quatro e meia da madrugada, olhei no monitor. O homem continuou sua marcha acelerada convicto e logo desapareceria do meu campo de visão. Quis, por um momento, entendê-lo, perguntar qual a razão daquela atitude bizarra (aos meus olhos, ao menos), se era um hábito primorosamente cultivado ou se também havia sido acordado pela briga entre o inconsciente e a consciência e resolvera se cansar um pouco antes de voltar a dormir. Ou tentava esquecer uma companheira, preparar-se para uma maratona – no Japão, presumo – , trilhar o caminho zen da corrida, se era um membro desgarrado de algum grupo de night runners ou se, quem sabe, havia simplesmente perdido a razão?

Então, duas constatações surgiram na minha mente. A primeira, mais óbvia, é que eu jamais saberia as razões daquele sujeito, azul como um Smurf, estoicamente correndo sob a madrugada. A segunda, definitivamente mais triste: faz muita, muita, muita falta um Rubem Braga. Ele teria visto este homem e escrito uma crônica que valeria a pena ser lida nos jornais de dias seguintes. E, de repente, me deu vontade de ler alguma coisa dele novamente, com aquela leveza grave e elegante que aprendi a admirar ainda adolescente.

Sim, há uma terceira constatação, claro: eu não sou Rubem Braga. O resultado é este post.

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3 Respostas to “Marcha noturna”

  1. Edson Junior Says:

    Rapaz, que coincidência: um amigo cá da empresa, sabendo que eu já um dia treinara artes-marciais, ofereceu-me esse mesmo documentário. Ainda não peguei.

  2. marcelopes Says:

    Ué, será que sou eu?
    Brincadeira, claro. Eu vi apenas umas duas partes do documentário e gostei.

  3. Edson Junior Says:

    pode ser 🙂

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