Revirando o baú (I): Confissões de um cabeça de bagre

Descobri que meu site do tempo das cavernas, o Anacrônicas, além de abandonado a própria sorte há mais de mil anos, agora sofre de amnésia por parte do provedor de hospedagem, o hpg (alguém se lembra dele?); muitos links não levam mais a lugar algum. Por isso, estou recuperando os textos menos piores e colocando aqui. Não vou perder tempo dizendo o quanto é estranho reler coisas escritas no tempo da jaguatirica; você sabe, eu sei, ela sabe. Descontem-se o estilo truncado, o texto meio sem ritmo e a efemeridade dos temas, e eis o que sobra: um ou outro textinho até razoável. Não os revisarei, vão assim mesmo, curtos e grossos. Neste primeiro, apenas corrigi o nome do livro do Torero (que não li); no lugar de “Paraíso”, havia grafado “Céu”.

Começo pela minha confissão de incompetência futebolística:

Confissões de um cabeça-de-bagre
Existe sujeito mais anti-torcedor do que eu?

Depois da Copa do Mundo me senti na obrigação, ou melhor, dever, de esclarecer quais são as relações existentes entre eu e a querida “dona redonda” – a bola de futebol, tão amada pelos meus compatriotas. Cronistas são mestres em falar longa e detalhadamente do que não entendem lhufas ao quadrado de coisa alguma, e é por isso que muitos nos tomam por intelectuais. Como nunca tive destas pretensões, sempre fugi do fardo de escrever sobre futebol, por absoluta e total falta de competência. Nesta página, meu amigo leitor, a regra abre-se para uma (a única!) exceção.
Antes, quero deixar bem claro que nunca tive quaisquer intimidades com a moça. Uma vez largada aos meus pés, tinha poucas opções de ação – ou “embicava” a pobre coitada para longe da área ou me submetia a um vergonhoso e simplório drible dos adversários. Em contrapartida, nem eu ou ela morremos de amores um pelo outro – o fato é que nossa convivência sempre fora forçada por “amigos” razoavelmente comuns aos dois. Eu ficava em fila, ao lado de outros competidores, e os capitães, um a um, escolhiam os membros de suas equipes. Desnecessário mencionar que eu era, tipicamente, o último da lista. Na verdade, por algum tempo, houve um infeliz na minha turma que conseguia a proeza de ser um perna-de-pau ainda mais inepto do que eu. Puxa, sair do último lugar para o penúltimo foi um salto de qualidade impensável para mim. Mas durou pouco.
Fora dos campos improvisados, nada me caracterizaria como torcedor. Não sabia quem era quem nos times, mal conhecia a escalação do Atlético Mineiro – herdei de meu pai a honradez de declarar vestir esta camisa. Sinceramente, o time merecia torcedor melhor, o que me lembra daquela frase famosa de Groucho Marx ou Woody Allen: “Eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”.
Jamais fui ao Mineirão, não acompanho os jogos e só assisto ao Brasil nas Copas do Mundo – a exceção desta, porque jogo às três da madrugada foi coisa de zumbi. Para completar o vexame, ainda fui contra a ida do Romário para a seleção do Scolari. Existe sujeito mais anti-torcedor do que eu?
Não encosto o pé na querida gorducha há dez anos. Juro que dela não sinto saudades. É certo que ela já me esqueceu, o que só prova que é dama de pungente inteligência e caprichosos desejos, sem tempo para aturar aqueles falsos pretendentes que mal sabem tratá-la com o devido respeito (e o carinho merecido no momento adequado também).
Como ela nunca me deu bola (e nem daria mesmo, especialmente depois de um trocadilho tosco como este), procurei outras damas, de formas menos previsíveis – mas o futuro afetivo de um moleque que não sabe chutar a pelota com um pingo de categoria é o mesmo que uma partida entre a Vila Xurupita e o Arranca-Toco F.C. num Maracanã vazio. Zero a zero. Felizmente, o tempo cuidou disto com aquela sutileza hormonal da adolescência e, mais tarde, consegui virar o jogo a meu favor.
Por isso, minha querida dona redonda, minha ex-quase-qualquer-coisa, aceite o fato de que nossos caminhos jamais se cruzarão novamente. Já lhe disse adeus uma vez e você ainda vem me assombrar a cada quatro anos só para brincar comigo. Não adianta, querida, sou caso perdido. E você sabe, sabe muito bem lá no fundo, que tem é muita sorte por isso.
Meu consolo foi encontrar aquele título com o qual José Roberto Torero batizou seu livro, “Os Cabeças de Bagre Também Merecem o Paraíso“.
Aleluia, irmão!!!

Marcelo Lopes
Geral do Mineirão, 04 de setembro de 2002.

Para os que não se lembram, Vila Xurupita e Arranca-Toco F.C. são os times rivais das antigas revistas do Zé Carioca. Certamente, você, meu caro leitor, não poderia morrer sem saber de informação tão importante…

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2 Respostas to “Revirando o baú (I): Confissões de um cabeça de bagre”

  1. Taís Cavalcanti Says:

    Excelente texto e escrita!!! Parabéns!
    Tem sido cada vez mais hercúleo o esforço em procurar/encontrar coisas realmente válidas de serem lidas na internet.
    Um abraço!

  2. Marcelo Lopes Says:

    Taís,

    Muito obrigado! Se vc acha que anda difícil achar coisa boa de se ler na net e elogiou o meu texto, só posso mesmo me sentir honrado!

    Abs!,
    Marcelo.

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