Revirando o baú (II): Think Nothing Day

Mais um, lá do distante ano de 2001. Bem mal escrito, aliás.

Think Nothing Day

Claro que existe consumismo; mas ele não é gerado espontaneamente.

Gente muito boa, bem intencionada, esse pessoal de uma ONG canadense que criou o Buy Nothing Day. Explico: criaram uma campanha mundial para que as pessoas não comprem nada durante um dia inteiro, um forma de mostrar aos comerciantes que os consumidores “querem mais respeito” e, indiretamente, protestar contra o consumismo. Este dia foi a sexta-feira, 23 de dezembro de 2001.

Claro, para ser bem sucedida, a empreitada precisava chamar a atenção de suas principais vítimas, digo, seus alvos; nós, os consumidores deste horrendo parque de enganar bobos chamado capitalismo. Como, ao contrário da gente, o povo das ONGs não é trouxa, eles compraram o espaço publicitário do programa de Larry King pela mixaria (neste caso, eu poderia usar a palavra bagatela, porque estou sendo irônico; bagatela, na verdade, significa mixaria) de 15.000 dólares. Felizmente, pagaram antes do tal Buy Nothing Day, senão a campanha seria um completo fracasso.

Quem imagina uma bizarrice destas deve mesmo pensar que o consumidor é um completo idiota desprovido de cérebro, ou se o tem, perderia para um camarão da Antártida em um teste de matemática (só de somar e subtrair, por favor; dividir e multiplicar é difícil demais para nós). Para que o consumidor seja considerado uma mariposa intelectual, teríamos que admitir que toda propaganda surge o efeito desejado, ou seja, cria no sujeito um desejo irrefreável de comprar. O fato é que conhecemos muitos produtos que naufragaram, apesar de todo esforço marqueteiro em fazê-lo descer por nossas gargantinhas. Resumindo, o consumidor rejeita marcas, produtos, preços e não precisa de ninguém que venha lhe dizer o que fazer. Os que se acham divinamente superiores a nós são os inventores destas “datas”, paradoxalmente para nos proteger de nós mesmos…

Claro que existe consumismo; mas ele não é gerado espontaneamente. Acreditar nisso é como assumir o papel de um biólogo do século XVIII que acreditava na “geração espontânea da vida” porque via animais “brotando” da (eca!) carne podre; é tomar o sintoma como causa e enfiar a causa no bolso do jaleco. A propaganda, na verdade, se “aproveita” de nossas necessidades – aceitação social, conforto, prazer afetivo e sexual, etc, etc e etc. – e nos oferece produtos para satisfazê-las. Ela não “cria” uma necessidade; este conceito é pura retórica de publicitário de ego inflado e carteira de clientes recheada e de intelectual socialista, para quem a menção da palavra “lucro” gera imediatamente reações cutâneas alérgicas – em bom vernáculo, o sujeito fica todo empolado. Podemos até discutir que há propaganda absurda e enganosa, mas aí já é outra história. Agora, “criar necessidades” é demais para qualquer debate sério, tenha santa paciência.

Por isso, lanço aqui e agora a campanha mundial Think Nothing Day. Como eu não tenho verba para comprar espaço publicitário na CNN, fica meu singelo apelo para que fiquemos durante um dia inteiro sem pensar. Acredito que o pessoal do Buy Nothing Day ficará muito feliz com esta iniciativa. Veja bem – ficando um dia inteirinho sem pensar, podemos nos esquecer de que ficar sem comprar acaba por atrapalhar ainda mais as empresas que vivem a eterna crise brasileira e com elas, os empregos de milhares de pais de família. Por outro lado, o Think Nothing Day será uma benção para as emissoras de televisão, que anunciarão os maiores índices de audiência de todos os tempos, especialmente nos malditos reality shows (eu não consegui pensar – já estou no clima! – em uma tradução para este termo que não fosse pejorartiva) que pipocam na telinha. Ninguém jogará xadrez por todo um dia e as pessoas vão se distrair com jogos de azar; reuniões de negócio são desmarcadas porque ninguém vai querer traçar estratégias neste dia, o Deep Blue vai travar, o Windows funcionará perfeitamente e todos descansarão aquele órgão desprezado em tempos de inflação (literal) de peitos e bundas, o cérebro, aquele inútil.

No impressionante Think Nothing Day, todos aceitarão as verdades ditas por pessoas maravilhosas e bem intencionadas sobre nossa burrice natural e aceitarão com um doce sorriso nos lábios a benevolência daqueles geniais senhores que vieram ao mundo para nos salvar de nós mesmos.

Nós esperamos a sua adesão – não pense duas vezes!

 

Marcelo Lopes

03 de dezembro de 2001

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