Archive for fevereiro \25\UTC 2008

Topifaive obras de arte ridículas, idiotas ou grotescas

segunda-feira, 25 fevereiro, 2008

Desde que o mundo da arte passou a viver de instalações, foi tomado também por empulhações; algumas delas são engraçadas, outras ridículas. E uma boa parte é simplesmente grotesca. Aqui reúno as cinco mais recentes de que me lembro e que gostaria de esquecer.

1) Todos os quadros de Pricasso

Não, eu não escrevi errado – não desta vez. Pricasso é o pseudônimo de um artista chamado Tim Patch. Suas obras não têm absolutamente nada de especial além do fato de ser pintadas com o pênis do sujeito – e eu não farei piada aqui com aquela velha pergunta nem com o termo “broxa”, ok?

2) A Nossa Senhora cercada por excrementos de elefante e pornografia

Em 1999, Chris Ofili apresentou esta obra no Brooklyn Museum, obviamente debaixo de muita polêmica. Mau-gosto à parte, parece ter cumprido sua missão de chamar a atenção da mídia para si mesmo. De qualquer forma, o quadro é feio, muito feio.

3) Monstros imaginários ressecados

No sempre bacana blog do Hiro, encontrei os links para o trabalho do artista Hajime Emoto, o “museu das criaturas fantásticas”. Não é um local muito bonito para visitar, mas se há um Fox Mulder escondido aí dentro de você, ele vai adorar ver estes monstrengos falsos expostos como se seus corpos tivessem sido encontrados em estado de mumificação. Já prevejo dezenas de e-mails com fotos destas joças transformados em spam e assustando inocentes internautas. Mais ou menos como este aqui.

4) O cubo gigante de esperma

Da mesma fonte do anterior, vem este exemplar do “quarto círculo do inferno”, um tanque refrigerado com capacidade para mil litros de esperma humano. O autor desta aberração, Phillipe Meste, aceita doações, pensa em lançar ações na bolsa e criou até um site oficial para o troço que faz do cubo de Hellraiser um brinquedo inofensivo. Como bem escreveu o Hiro: e se essa porra quebra?

5) A intervenção dos irmãos Chapman na série “Desastres de Guerra”, de Goya

É, eu sei, já falei sobre eles duas vezes e acho que o texto complementa este post – se você já não tiver lido, claro.

Cinismo, morte e internet

domingo, 24 fevereiro, 2008

“Uma geração de cínicos. É isto que somos.” Assim começa, certeiro, o excelente texto do Paulo, que acabei lendo duas vezes, mesmo sem ter assistido ainda a Juno. No mesmo dia, li a aterradora matéria da revista Época sobre o suicídio de adolescentes que encontram apoio para dar fim a própria vida entre “amigos” da internet. É daqueles textos capazes de estragar o seu dia (o meu foi para o espaço) e te fazer pensar por dias, semanas, sem chegar a conclusão alguma. Se não fosse o post do Paulo, talvez eu não conseguisse escrever estas linhas.

Há uma ligação nítida entre os dois eventos: a criação de uma geração de cínicos e os impulsos de desagregação, solidão e, nos casos mais extremos, morte, de seus filhos. Falo aqui dos que têm entre 30 e 40 anos e seus filhos, a molecada que já nasceu na era da web e do iPod. Falo, de certa forma, de mim também, muito embora eu não tenha filhos e nem sei dizer se ainda pretendo tê-los. Como bem diz o Paulo, em algum momento do final dos anos 80 e 90 do distante e tão presente século passado, fomos imersos numa longa série de valores culturais em que o desprezo ao outro, o cinismo puro e a certeza de que o mundo é uma imensa latrina habitada por seres ainda mais horríveis do que nós mesmos foram as referências constantes. Do marxismo no limite do analfabetismo intelectual e da demência suave dos nossos professores aos filmes de Quentin Tarantino (de que gosto, confesso) e a música de Kurt Cobain, passamos a nos identificar como grupo que sabe sobreviver ao grande e mau mundo que nos cerca. Nada mais infantil, claro.

Não é coincidência que os meninos e meninas tenham apreendido isso de nós e, como sempre fizeram, reciclado os valores dos pais na tentativa desesperada se transformar em outra coisa. Do nosso cinismo originaram-se os chatos e inofensivos emos (uma tribo que desaparecerá como os góticos que ouviam The Cure vinte e cinco anos atrás) e também estes jovens suicidas. E não apenas eles: as anoréxicas, os viciados em drogas, os pedófilos, os espancadores. Todo um mundo de pessoas que não admite ter um problema a ser superado, não estão interessados em melhorar. Eles se afirmam como grupos legítimos: olhando apenas para o próprio umbigo, eles gritam que não precisam de reabilitação, de ajuda, de ninguém.

A internet é a terra deles; um lugar que poucos de nós habitam com a mesma desenvoltura, onde vivem (mesmo) de acordo com regras não escritas cuja crueldade nos assusta. Se nós fomos formados no cinismo, esta nova geração encontrou na web um terreno livre para a expansão daquele mundo apenas esboçado pelos pais – sim, felizmente ainda somos um bando de bundões. É um universo paralelo, adolescente, imaturo, que a cada dia parece-se mais e mais com O Senhor das Moscas, de William Golding, em que um grupo de crianças deixadas à própria sorte numa ilha deserta regridem à selvageria. Por outro lado, não deixa também de ser um retrocesso ao “mal do século”, a tuberculose dos românticos do século XIX, da idéia glamourizada da morte, da Noites na Taverna. E as pessoas, os anônimos que ajudam os suicidas a se matar, mesmo adultos, não passam de adolescentes – além de criminosos

A entrevista do psicanalista do jovem suicida é, ao mesmo tempo, incrivelmente lúcida e desesperada. Alguns trechos merecem destaque, para encerrar este texto que eu precisava escrever.

“Você não encontra um (Albert) Camus falando sobre suicídio [na internet]. Só encontra idiotas falando sobre suicídio.”

“É gente doente [os que incitam os suicidas a se matar] que exerce sua morbidez, seu sadismo. Eu acredito que deve ter algum grau de sinceridade nessa negatividade do mundo. O problema é que eles não sabem com quem estão falando. Não têm consciência da fragilidade das pessoas. Esse é o drama da internet. Acho que nenhum adulto conseguiria chegar para um adolescente e dizer, cara a cara: a vida não vale a pena, te mata.”

“Há um centro de valorização da morte na internet”.

Só uma ressalva: sempre achei esta historinha de sofrer porque vivemos sem utopias uma imensa bobagem. No mais, concordo com quase todo o resto da entrevista.

Ponte para Terabítia (o filme), de Gábor Csupó

sábado, 23 fevereiro, 2008

Dentre várias outras coisas, a infância é também uma imensa chateação. Passa-se boa parte dela dividido entre as expectativas ridículas do grupo a que se deseja pertencer (no que as crianças imitam a cretinice adulta, acrescida da naturalidade infantil, frequentemente de mãos dadas a uma crueldade quase inacreditável) e àquela desconcertante capacidade de imaginação que vamos perdendo ao longo do tempo. É este dilema sem solução que vive Jess; acuado e solitário na escola, porém capaz de criar mundos inteiros com seus desenhos. Neste aspecto, a infância é um vácuo especialmente doloroso, do qual nos salvamos única e exclusivamente graças a uns poucos amigos.

É exatamente uma amiga, Leslie, quem dará a Jess os instrumentos para exercitar sua imensa imaginação sem culpas e o levará a um amadurecimento triste, suave e profundo. É Leslie quem lhe apresentará Terabítia, uma terra imaginária além do riacho que corta a floresta perto da casa dos dois. Leslie é a menina inteligente, bonita e um tanto deslocada com que muitos meninos sonham secretamente, aquela figura destemida que parece entender sem alarde o que os garotos pensam, mas jamais deixa de ser uma garota.

Todo o elenco está ótimo, incluindo o eterno andróide Robert Patrick , compondo um duro, derrotado e amoroso pai, que me lembrou bastante o Chris Cooper de O Céu de Outubro. A naturalidade com que o trio de crianças (há ainda a irmã menor de Jess, May Belle) protagonistas atua impressiona bastante, especialmente a pequenina. O diretor húngaro Gábor Csupó, egresso do mundo da animação, onde produziu Rugrats e Duckman (um dos meus preferidos), deveria ganhar um prêmio especial por isto.

 Há uma reviravolta dramática e triste, que força Jess a amadurecer exatamente por perceber que ainda é uma criança (e sua paixonite pela professora interpretada por Zooey Deschannel, mais adorável do que nunca, é o símbolo maior disto. Assim, Pontes para Terabítia, vendido como uma fantasia ao estilo do destrambelhado e mediano Crônicas de Nárnia, é, na verdade, um drama infanto-juvenil cuja estrutura lembra um pouco a obra-prima de Guilhermo delToro, O Labirinto do Fauno,  acrescida de alguns toques do inesquecível A História sem Fim. Poucos filmes são capazes de evocar de forma tão inteligente e emotiva a infância como Pontes para Terabítia; mesmo com seus clichês (e também por causa deles), merecia uma recepção menos fria do público. Curiosiamente, o livro no qual se baseia o filme foi escrito por Katherine Parson em 1978 e já sofreu uma adaptação em 1985 para a TV canadense. 

Cotação: **** (Só não ganha mais uma por causa da seqüência da pintura da casa de Leslie, que parece ter sido criada para um comercial de sabão em pó)

Sebos virtuais, livros reais e estantes

quinta-feira, 21 fevereiro, 2008

Certamente, compartilho este hábito com muitos amantes das leituras: tenho algumas livrarias que visito com freqüência, mesmo que nem toda caminhada termine em novas aquisições. Como trabalho perto da Savassi, em Belo Horizonte, prefiro as Travessa, Ouvidor, Scriptum e, em menor grau, a Leitura. Ainda mais do que as livrarias convencionais, gosto de me aventurar em sebos, e por lá encontro a Buquimar e a Páginas Antigas. Ou encontrava.

Desde janeiro, a Páginas Antigas fechou suas portas reais e abriu seu portal virtual. Numa rápida conversa que tive com seu proprietário dias antes do encerramento das atividades, ele comentou ter vendido um livro na loja física, enquanto vendera, na mesma manhã, três por meio do site Estante Virtual . Não há o que discutir aqui: diante de todo o trabalho que dá manter uma loja aberta, encontrar um bom público consumidor na internet é uma tempestade de maná comercial. Confesso que sinto falta das estantes, sempre impecáveis, da Páginas Antigas. Confesso também que um dos meus passatempos preferidos era (é) ficar à toa nas prateleiras de história, biografias, arte e religião, onde sempre encontro algo interessante e até então desconhecido. Quanto aos romances, eu já sei quais desejo adquirir – ao menos para os próximos vinte ou trinta anos.

De qualquer forma, o Estante Virtual é uma das melhores sacadas da história da internet brasileira, aplicação inovadora das idéias mais interessantes do mundinho dos negócios virtuais surgidas nos últimos tempos: o oceano azul e a cauda longa. Já comprei livros que jamais encontraria em livrarias reais aqui em belzonte, procurei por títulos há muito esgotados e sempre tive a sorte de encontrar pessoas gentis e profissionais do outro lado da tela. Não saberia dizer qual o futuro das livrarias físicas; na verdade, a maioria das previsões apocalítpitas resulta em nada ou muito pouco. Se o destino das livrarias for mesmo desaparecer das ruas, sentirei muita, muita falta das estantes. Por outro lado, a existência de sites como o Estante Virtual me manterá devidamente abastecido e satisfeito.

Esta suposta oposição entre livrarias virtuais e reais é prima da velha discussão sobre a mídia dos livros – discussão que me enche de preguiça, aliás. Não sei ler livros longos na tela de um computador. Sou perfeitamente capaz de consultar documentos, manuais, guias de referência e qualquer material cuja leitura não exija uma concentração contínua, mas não romances ou livros técnicos que apresentam suas idéias gradativamente. Já foi dito que o maior obstáculo que os livros enfrentam não é sua mídia de suporte, mas a quantidade sempre decrescente de leitores. Particularmente, não ligo muito para isso; se os leitores entrarem para a lista de animais em extinção, vestirei com prazer minha fantasia de rinoceronte-branco e irei às reuniões do grupo sem reclamar. Mesmo que isso signifique passar tardes e noites na frente de um Kindle .

Sim, eu uso Firefox!

quinta-feira, 21 fevereiro, 2008

O Firefox!

Pausa no blog para um post levemente geek. Aliás, pausa para um comentário antes do post propriamente dito. As pessoas que não trabalham com TI (se você se perguntou o que é TI, então você é uma delas, sortudo) tendem a achar que qualquer um que escreve uma macro no Excel, cria um site no famigerado Frontpage ou instala uma placa de rede num micro é um nerd, ou, na definição do jornalista Dagomir Marquezi, “o cara do computador”. Nada mais distante da realidade; eu mesmo jamais poderia ser considerado um geek, sou um profissional de TI, preocupado em projetar e implementar bons sistemas de informação, claro, mas não navego em bits e bytes o tempo todo. E é melhor encerrar este comentário antes que ele se torne esotérico demais para os sãos que não vivem neste mundo de tecnologia. Enfim, eu só queria mesmo dizer que sou um feliz usuário de Firefox.
A sua sorte é que não tenho paciência para militância, logo, este não será um post de louvor tecnológico. Serão apenas divagações curtas sobre as tecnologias da internet e seus freqüentadores. Não posso dizer que sou um veterano da internet, mas em 1997 eu e meu irmão já estávamos conectados com Internet Explorer 4, ICQ e Yahoo Messenger; e ainda comprávamos a revista internet.br. Ele foi trabalhar num provedor de acesso e eu me meti numa grande empresa desenvolvendo sistemas para computadores tão grandes quanto seus proprietários. É a vida, litte locust. De qualquer forma, meu interesse pessoal pela internet permaneceu. Brinquei com algumas coisas, tive site pessoal digratis (se eu fosse você, não clicaria nisso aí, mas agora é tarde, não é mesmo?), blog, criei sites que não estão mais no ar e agora vou começar a aventura da empresa própria.
No meio dessa confusão, adotei o Firefox porque o Internet Explorer já me irritava bastante. Porém, como o tal browser da raposa foguenta foi construído para ser aderente às regrinhas que ainda engatinhavam em 1997, e muita gente (inclusive este missivista) criou sistemas e sites para funcionar apenas no IE campeão de audiência, nem sempre o Firefox funciona como se esperava – nestes casos sou obrigado a usar o Explorer. Boa parte dos usuários “normais” está satisfeita com o bom e velho IE, e a adoção do Firefox nas empresas ainda esbarra num problema sério: a preguiça da fundação Mozilla em criar ferramentas de administração para o suporte das grandes empresas. Com o IE 8 a caminho vindo com boas novidades, a briga pode ficar mais complicada para o lado do meu browser favorito. Mas não me arrependo e sei que não estou sozinho – hoje crio sites e sistemas e os testo em, pelo menos, 3 browsers diferentes.
Ok, fim do post geek, voltamos a nossa programação normal.

A propósito: O símbolo do Firefox não é uma raposa vermelha (ruflam os tambores!); é um panda-vermelho, na foto lá em cima.

Topifaive contra-indicações cinematográficas

quarta-feira, 20 fevereiro, 2008

Lista de filmes que, se eu fosse você, não assistiria porque agora é tarde demais para mim – já assisti, mesmo não querendo.

1) O PRÍNCIPE DAS MARÉS

Basta uma palavra, não duas: Barbra Streisand. E o início nem é dois piores, mesmo parecendo draminha do Halmark Channel. Então, o personagem do Nick Nolte desabafa que foi estuprado na infância por um bandido que o irmão mata a tiros de espingarda em seguida. Livre do seu fardo, Nick se entrega ao amor, a paixão e ao tesão pela Streisand nas cenas româticas mais ridículas desde, sei lá, Love Story. De uma hora para outra, a produção, que era um drama clichê de psicologia de botequim se transforma num naqueles livrinhos da Harlequin para donas-de-casa desesperadas. No final, a quase-ex-mulher do sr. Nolte pede para que ele volte e não é que ele volta? Esta bobajada foi chamada de “drama adulto” à época de seu lançamento – se eu fosse adulto em 1991, teria me sentido ofendido. Ao menos um consolo: Barbra não canta.

2) LENDAS DA PAIXÃO

As mulheres adoraram; deve ser o instinto maternal, vontade inconsciente delas de colocar o Brad Pitt no colo depois de ele se estrepar de todas as formas possíveis. Burocrático do primeiro ao último minuto.

3) e 4) QUEREM ME ENLOUQUECER e UMA CASA DE PERNAS PARA O AR

Santo Deus, como um filme com o título de “Uma Casa de Pernas para o Ar” pode ser bom? Pois é, surpresa: é pior do que você pensa. No primeiro, Ice Cube quer agradar os filhos da mulher que ele tenta conquistar, apostando num humor pastelão ao estilo Esqueceram de Mim. No segundo, devidamente casado, compra uma casa que só lhe trará problemas, apostando num humor bunda ao estilo Esqueceram do Roteiro. Quando estas joças passarem na Sessão da Tarde, esperem pelas seguintes chamadas: “O cara quer conquistar esta bela gata, mas não contava com os filhos dela, uma galerinha que vai aprontrar altas confusões para fazê-lo desistir da mamãe.” e “Eles compraram esta bela casa, mas acabram entrando numa grande furada. Altas confusões e grandes agitos em…”.

5) O PEQUENINO (me forçaram, eu juro)

Caminho com alguma hesitação, os pés escorregam no musgo acumulado em pedras brilhantes e arredondadas. No entanto, eu não caio realmente, é apenas um gesto de aceitação da montanha, como se permitisse a minha presença ali com leveza, sem abrir mão de seus perigos. Chego finalmente ao topo, um amontoado de rochas ancestrais dispostas como uma ofensa aos ventos e às nuvens, acima de todas as montanhas irmãs, que a reverenciam às escondidas, cobertas por névoa e chuva. Minha boca se abre com fúria, a língua, garganta, traquéia, lábios tremem e ardem com o pouco oxigênio. Não me intimido, lembro-me do filme que fui obrigado a tolerar e, com as forças já ínfimas, minha voz alcança um grito seco, abafado e revolto:
– POR QUÊ? POR QUÊÊÊÊÊ???????? POR QUÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ?????

Ídolos para quê?

quarta-feira, 20 fevereiro, 2008

Recebi um e-mail, pela terceira vez nos últimos meses, sobre o filme Cazuza e o sujeito que o inspirou. Confesso não o ter assistido por absoluto desinteresse; mesmo depois desta leve enxurrada na minha caixa de entrada, continuo sem a menor vontade de conferir o filme. Na adolescência, eu gostava bastante das suas músicas e tinha especial gosto pelas suas composições. Bem que, naqueles tempos bicudos de Humberto Gessinder, Cazuza era Chico Buarque. Uma nota desnecessária: Faz tanto tempo que não ouço Cazuza que me tornei incapaz de dizer se continuaria gostando de suas músicas hoje. Provavelmente, não, mas isso não vem ao caso agora.

Eu ignorava sua vida pessoal, considerava-a menor, patética mesmo, perto de seu trabalho. Hoje percebo que este tem sido o meu padrão de relacionamento com artistas ou qualquer pessoa pública cujo trabalho eu admiro: não consigo idolatrá-los. Para quem mantém uma relação de idolatria com alguém, conhecer sua vida pessoal tão comum pode enfeiá-lo de tal forma que se torna irreconhecível. Para mim, isso os torna mais humanos, próximos, ainda que isso não justifique suas atitudes. Porque, como já disse uma vez, nossa vida comezinha só é interessante para nós e uns poucos próximos. Aos outros, tudo parecerá distante ou, no máximo, eventualmente interessante; e, de forma ainda mais esporádica e rara, admirável. Talvez um dia eu faça algo que chame a atenção de alguns, talvez um dia eu escreva um livro, sobreviva a um evento terrível, ajude um grupo de pessoas, talvez pedale de um pólo a outro num monociclo cor-de-abóbora movido a energia solar. Mas eu sei que não mereço idolatria; sou ridícula, patética, miseravelmente humano, humano demais para ser idolatrado. E, garanto, todos os ídolos o são. Por isso, hoje eu prefiro admirar a idolatrar. 

A decepção com os ídolos pode ter um impacto muito, muito forte para alguns – já conheci uma adolescente, que hoje deve ser uma senhora, inconsolável porque percebera, tarde demais, que seu amado Morrissey não gosta apenas de garotas. Há ainda o notório e recém-falecido guru Mahesh Yogi, a quem os Beatles seguiram por um tempo até descobirem que o interesse do barbudo resumia-se às pernas e adjacências da irmã da Mia Farrow. No documentário About a son são exibidas entrevistas com o incensado Kurt Cobain; Luciana Toffolo resume muito bem o que se vê ali:

“É duro de admitir. Este é um cara com um legado pelo qual eu torcia para que continuasse irretocável. Mas é só mais uma… Pessoa. Confusa, egoísta, umbiguista e, principalmente, dotado da capacidade de ver erros em todo mundo menos em si mesmo.[…] E infelizmente não há como refutar que Cobain, o ídolo, serviu apenas como músico, jamais como exemplo. É com o resultado das próprias palavras do cantor que se chega a essa conclusão.“

Mesmo assim, acredito que (salvo casos patológicos) a idolatria é uma tentativa, às vezes silenciosamente desesperada, de ser alguém melhor, adotando o ídolo como um exemplo – mesmo quando ele é um péssimo exemplo.

Coisas que eu gostaria de ter dito(II)

segunda-feira, 18 fevereiro, 2008

“Entendo perfeitamente que, por questões de formato, não é justo comparar uma novela brasileira de 200 capítulos com 6 capítulos semanais com uma série dramática americana de 24 capítulos anuais exibidos ao longo de 8 meses. Mas, mesmo nos poucos programas brasileiros em que há uma proporção mais folgada entre prazo e produção, aparece o mesmo problema, problema que parece ser inerente a toda a dramaturgia brasileira de que consigo me lembrar: os personagens nunca são lá muito inteligentes. São, na melhor das hipóteses, pessoas de inteligência mediana o suficiente para não ofender os mais burrinhos […]”O Brasileiro Inverossível, no O Indivíduo.

Há algum tempo ensaio escrever alguma coisa sobre o filme O Novo Mundo, de Terrence Malick, do qual sou fã declarado. Mas, encontrei este texto do Martim Vasques da Cunha e acabei desistindo. Ele falou tudo o que eu queria dizer e muito, muito, muito mais. Cito o último parágrafo:

“[…]Nos cinco minutos finais, Malick faz com que a harmonia interior de Rebecca se revele num fluxo de imagens que leva o espectador para dentro da escolha emocional da personagem, tudo isso ao som da abertura de ‘Das Rheingold’, de Wagner. São esses momentos, em que vemos Rolfe abraçando Rebecca no leito de morte, e que o espírito dela se une com o mundo natural que sempre a espantava, que Terrence Malick prova ser o sucessor de Murnau. Ao aceitar a realidade como ela é, Rebecca também está pronta para a morte. E, nesse ponto, ela também ensina Rolfe não só como a morrer, mas a preservar o sentido da vida para o filho que continua o trabalho de ambos. ‘Meu amor é onde está meu peso’, escreveu Santo Agostinho e poucas pessoas são capazes de compreender a profundidade desta afirmação. O novo mundo nunca foi o país estrangeiro, a terra prometida, o solo de prosperidade e de segurança. O novo mundo se encontra dentro de nós, ao aceitarmos que, sim, o real e o amor são compatíveis, e isso implica no sacríficio do ego, das paixões e das ilusões que somente deixam feridas mal-cicatrizadas. Nem sempre tudo cumpre aquilo que promete, mas, muitas vezes, é possível cumprir tudo aquilo que nos foi prometido.”

Reparação, de Ian McEwan : livro e filme

segunda-feira, 18 fevereiro, 2008

Havia acabado a leitura de Reparação e duas horas mais tarde, estaria no cinema assistindo à sua adaptação – Recuso-me a chamar o filme que adapta o livro de Ian McEwan de “Desejo e Reparação” porque isso parece título de produção exibida no Cine Privê da Band (isso ainda existe?).

É claro que algumas passagens estavam ainda frescas na memória e imaginei que não conseguiria me livrar daquele neurônio chato que fica gritando lá no fundo do seu cérebro: “não foi assim”, “ih, ficou melhor no livro do que no filme”. Felizmente, os outros neurônios, amigos e companheiros, devem ter silenciado o impertinente e pude assistir em paz.

Há diferenças óbvias de linguagem, capacidades e instrumentos; esperar que um filme seja a tradução literal de um romance é, ao mesmo tempo, pedir que o cinema não faça uso do que tem de melhor e reduzir o discurso literário a uma seqüência de imagens conectadas. Uma boa adaptação sabe extrair de um livro o seu “mojo”, escolher o que funciona na tela e preencher os espaços vazios resultantes com seqüências que poderiam estar no livro. Isso mesmo: penso que a adaptação de um livro é boa quando as diferenças em relação a obra original são tão bem inseridas na trama que poderiam ter sido parte dela desde a concepção na cabeça do escritor. Vista por este ângulo, bem particular, Reparação, do diretor inglês Jon Wright, é um triunfo à altura do livro que o inspirou.

Obra grandiosa, por um lado funciona como uma descrição carinhosa, cruel e melancólica de sentimentos, equívocos e decisões de persoangens talhados com cuidado e dedicação; por outro, esconde uma discussão sobre a natureza da ficção e da literatura. Nada do que acabei de escrever é novo, qualquer comentário a respeito de Reparação destaca estas suas características. O que me surpreendeu foi a capacidade de transmitir isso para a tela grande demonstrada pela equipe responsável pela adaptação.

Pretendo escrever mais e melhor sobre os dois, sobre adaptações literárias (penso em Morte em Veneza e O Leopardo), mas estou com o sono atrasado por, pelo menos, duas semanas – será que Morfeu aceita cheque pré-datado?

Para encerrar, cito uma belíssima passagem do final do livro:

“Agrada-me pensar que não é por fraqueza nem por evasão, e sim como um gesto final de bondade, uma tomada de posição contra o esquecimento e o desespero, que deixo os jovens apaixonados viver e ficar juntos no final.”

No filme, este parágrafo, de certa forma,  corresponde a cena na praia.

Este blog morreu?

sexta-feira, 15 fevereiro, 2008

Não. O trabalho é que está me matando.

Volto a programação quase normal neste final de semana.