Reparação, de Ian McEwan : livro e filme

Havia acabado a leitura de Reparação e duas horas mais tarde, estaria no cinema assistindo à sua adaptação – Recuso-me a chamar o filme que adapta o livro de Ian McEwan de “Desejo e Reparação” porque isso parece título de produção exibida no Cine Privê da Band (isso ainda existe?).

É claro que algumas passagens estavam ainda frescas na memória e imaginei que não conseguiria me livrar daquele neurônio chato que fica gritando lá no fundo do seu cérebro: “não foi assim”, “ih, ficou melhor no livro do que no filme”. Felizmente, os outros neurônios, amigos e companheiros, devem ter silenciado o impertinente e pude assistir em paz.

Há diferenças óbvias de linguagem, capacidades e instrumentos; esperar que um filme seja a tradução literal de um romance é, ao mesmo tempo, pedir que o cinema não faça uso do que tem de melhor e reduzir o discurso literário a uma seqüência de imagens conectadas. Uma boa adaptação sabe extrair de um livro o seu “mojo”, escolher o que funciona na tela e preencher os espaços vazios resultantes com seqüências que poderiam estar no livro. Isso mesmo: penso que a adaptação de um livro é boa quando as diferenças em relação a obra original são tão bem inseridas na trama que poderiam ter sido parte dela desde a concepção na cabeça do escritor. Vista por este ângulo, bem particular, Reparação, do diretor inglês Jon Wright, é um triunfo à altura do livro que o inspirou.

Obra grandiosa, por um lado funciona como uma descrição carinhosa, cruel e melancólica de sentimentos, equívocos e decisões de persoangens talhados com cuidado e dedicação; por outro, esconde uma discussão sobre a natureza da ficção e da literatura. Nada do que acabei de escrever é novo, qualquer comentário a respeito de Reparação destaca estas suas características. O que me surpreendeu foi a capacidade de transmitir isso para a tela grande demonstrada pela equipe responsável pela adaptação.

Pretendo escrever mais e melhor sobre os dois, sobre adaptações literárias (penso em Morte em Veneza e O Leopardo), mas estou com o sono atrasado por, pelo menos, duas semanas – será que Morfeu aceita cheque pré-datado?

Para encerrar, cito uma belíssima passagem do final do livro:

“Agrada-me pensar que não é por fraqueza nem por evasão, e sim como um gesto final de bondade, uma tomada de posição contra o esquecimento e o desespero, que deixo os jovens apaixonados viver e ficar juntos no final.”

No filme, este parágrafo, de certa forma,  corresponde a cena na praia.

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