Ídolos para quê?

Recebi um e-mail, pela terceira vez nos últimos meses, sobre o filme Cazuza e o sujeito que o inspirou. Confesso não o ter assistido por absoluto desinteresse; mesmo depois desta leve enxurrada na minha caixa de entrada, continuo sem a menor vontade de conferir o filme. Na adolescência, eu gostava bastante das suas músicas e tinha especial gosto pelas suas composições. Bem que, naqueles tempos bicudos de Humberto Gessinder, Cazuza era Chico Buarque. Uma nota desnecessária: Faz tanto tempo que não ouço Cazuza que me tornei incapaz de dizer se continuaria gostando de suas músicas hoje. Provavelmente, não, mas isso não vem ao caso agora.

Eu ignorava sua vida pessoal, considerava-a menor, patética mesmo, perto de seu trabalho. Hoje percebo que este tem sido o meu padrão de relacionamento com artistas ou qualquer pessoa pública cujo trabalho eu admiro: não consigo idolatrá-los. Para quem mantém uma relação de idolatria com alguém, conhecer sua vida pessoal tão comum pode enfeiá-lo de tal forma que se torna irreconhecível. Para mim, isso os torna mais humanos, próximos, ainda que isso não justifique suas atitudes. Porque, como já disse uma vez, nossa vida comezinha só é interessante para nós e uns poucos próximos. Aos outros, tudo parecerá distante ou, no máximo, eventualmente interessante; e, de forma ainda mais esporádica e rara, admirável. Talvez um dia eu faça algo que chame a atenção de alguns, talvez um dia eu escreva um livro, sobreviva a um evento terrível, ajude um grupo de pessoas, talvez pedale de um pólo a outro num monociclo cor-de-abóbora movido a energia solar. Mas eu sei que não mereço idolatria; sou ridícula, patética, miseravelmente humano, humano demais para ser idolatrado. E, garanto, todos os ídolos o são. Por isso, hoje eu prefiro admirar a idolatrar. 

A decepção com os ídolos pode ter um impacto muito, muito forte para alguns – já conheci uma adolescente, que hoje deve ser uma senhora, inconsolável porque percebera, tarde demais, que seu amado Morrissey não gosta apenas de garotas. Há ainda o notório e recém-falecido guru Mahesh Yogi, a quem os Beatles seguiram por um tempo até descobirem que o interesse do barbudo resumia-se às pernas e adjacências da irmã da Mia Farrow. No documentário About a son são exibidas entrevistas com o incensado Kurt Cobain; Luciana Toffolo resume muito bem o que se vê ali:

“É duro de admitir. Este é um cara com um legado pelo qual eu torcia para que continuasse irretocável. Mas é só mais uma… Pessoa. Confusa, egoísta, umbiguista e, principalmente, dotado da capacidade de ver erros em todo mundo menos em si mesmo.[…] E infelizmente não há como refutar que Cobain, o ídolo, serviu apenas como músico, jamais como exemplo. É com o resultado das próprias palavras do cantor que se chega a essa conclusão.“

Mesmo assim, acredito que (salvo casos patológicos) a idolatria é uma tentativa, às vezes silenciosamente desesperada, de ser alguém melhor, adotando o ídolo como um exemplo – mesmo quando ele é um péssimo exemplo.

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Uma resposta to “Ídolos para quê?”

  1. Irene Says:

    Concordo inteiramente com você. Criam-se ídolos e brigam-se por causa de ídolos. Ídolo é NADA. Devemos nos cuidar para não fazermos de nossos filhos, amigos pais e mães, nosos ídolos. Já pensou na tremenda responsabilidade da pessoa que é idolatrada? Essa pessoa passa a ser um semi-deus , só que semi-deus que adoece, que mente, que trai, que morre, que se separa, que chora, fica deprimido e por aí vai…Eu sugiro que,caso alguém venha a ler este comentário, adore o sr. Jesus, porque ele é eterno, não mente, é fiel, ama verdadeiramente (deu a vida na cruz por mim e por ti) e salva; è Deus vivo e cheio de sabedoria. Obrigada pela oportunidade.

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