Ponte para Terabítia (o filme), de Gábor Csupó

Dentre várias outras coisas, a infância é também uma imensa chateação. Passa-se boa parte dela dividido entre as expectativas ridículas do grupo a que se deseja pertencer (no que as crianças imitam a cretinice adulta, acrescida da naturalidade infantil, frequentemente de mãos dadas a uma crueldade quase inacreditável) e àquela desconcertante capacidade de imaginação que vamos perdendo ao longo do tempo. É este dilema sem solução que vive Jess; acuado e solitário na escola, porém capaz de criar mundos inteiros com seus desenhos. Neste aspecto, a infância é um vácuo especialmente doloroso, do qual nos salvamos única e exclusivamente graças a uns poucos amigos.

É exatamente uma amiga, Leslie, quem dará a Jess os instrumentos para exercitar sua imensa imaginação sem culpas e o levará a um amadurecimento triste, suave e profundo. É Leslie quem lhe apresentará Terabítia, uma terra imaginária além do riacho que corta a floresta perto da casa dos dois. Leslie é a menina inteligente, bonita e um tanto deslocada com que muitos meninos sonham secretamente, aquela figura destemida que parece entender sem alarde o que os garotos pensam, mas jamais deixa de ser uma garota.

Todo o elenco está ótimo, incluindo o eterno andróide Robert Patrick , compondo um duro, derrotado e amoroso pai, que me lembrou bastante o Chris Cooper de O Céu de Outubro. A naturalidade com que o trio de crianças (há ainda a irmã menor de Jess, May Belle) protagonistas atua impressiona bastante, especialmente a pequenina. O diretor húngaro Gábor Csupó, egresso do mundo da animação, onde produziu Rugrats e Duckman (um dos meus preferidos), deveria ganhar um prêmio especial por isto.

 Há uma reviravolta dramática e triste, que força Jess a amadurecer exatamente por perceber que ainda é uma criança (e sua paixonite pela professora interpretada por Zooey Deschannel, mais adorável do que nunca, é o símbolo maior disto. Assim, Pontes para Terabítia, vendido como uma fantasia ao estilo do destrambelhado e mediano Crônicas de Nárnia, é, na verdade, um drama infanto-juvenil cuja estrutura lembra um pouco a obra-prima de Guilhermo delToro, O Labirinto do Fauno,  acrescida de alguns toques do inesquecível A História sem Fim. Poucos filmes são capazes de evocar de forma tão inteligente e emotiva a infância como Pontes para Terabítia; mesmo com seus clichês (e também por causa deles), merecia uma recepção menos fria do público. Curiosiamente, o livro no qual se baseia o filme foi escrito por Katherine Parson em 1978 e já sofreu uma adaptação em 1985 para a TV canadense. 

Cotação: **** (Só não ganha mais uma por causa da seqüência da pintura da casa de Leslie, que parece ter sido criada para um comercial de sabão em pó)

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11 Respostas to “Ponte para Terabítia (o filme), de Gábor Csupó”

  1. urubusputanus Says:

    sim, O filme evoca e nos faz regressa à criança que esquecemos quase sem perceber e esquecemos que é lá na infância que alicerçamos a base do que somos hoje, o filme vai além do esperado, pois a fantasia é a mais real possível. não há truques a meu ver e sim a pura imaginação lúdica a qual todos somos vítimas.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Não sei se todos somos vítimas da imaginação lúdica, urubusputanus. Eu mesmo conheço pessoas que parecem jamais ter tido imaginação alguma, sempre foram presas unicamente a esta realidade aqui.
    Abs.

  3. urubusputanus Says:

    de toda a forma é o que vejo presente na película. Terabítia é nada menos que a ludicidade bravia de quem precisa evocar uma fuga… e nesse mundo eles se desprendem do real com elementos que são visivelmente reais, assim como o vento, as árvores, o rio….

    sei lá, muita loucura o que disse né…

    http://www.soldadinhodechumbo.wordpress.com

  4. Donnie Darko « Universo Tangente Says:

    […] aqui talvez seja a coisa mais interessante do filme. Assim como em outras produções, como Ponte para Terabítia (sim, eu estou apontando para o meu próprio blog, que vergonha), a adolescência em Donnie Darko […]

  5. thays m a pereira Says:

    esse filme eu ja asisti e´incrivel que pene que a menina morre mas o filme é fasinante vou querer asistir o filme mais de 3veses pode apostar eu e minha esrmãm choramos o filme é lindo dou no ta1.00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000001

  6. Marcelo Lopes Says:

    thays,

    O filme é ótimo mesmo.
    O que me intriga é aquele algarismo “1” no final da sua nota ultra-máxima…

    Abs!
    Marcelo.

  7. Ana Says:

    gostei
    triste mais incrivelmente encantador…
    gostaria de saber se la no fundo o jess gostava de leslie tbm…
    mais enfim.. poucas vezes chorei em algum filme … mais esse eu transbordei eem lagrimas
    lindo nota 1.000.

  8. Marcelo Lopes Says:

    Ana,

    O filme é emocionante mesmo. Simples, triste e encantador.

    Abs!
    Marcelo.

  9. gabriela Says:

    bha!!eu olhei este filme na minha escola eu quese chorei mas este é o filme mesmo é o unico filme q eu olhei na escola e ameiiiiiii.
    As profs acertaram o filme bha

  10. pedro henrique ribeiro Says:

    cara eu adorei o filme mas não entendi porque a menina morre,cara eu espero o filme inteiro e no final a menina morre se é desse jeito faz o 2 e fala que ele estava sonhando e vendo o que ia acontecer aí ele pode salva-lá,obrigado por favor eu te imploro faz o segundo filme,quando eu vi que ela tinha morrido eu chorei por uma hora então se estiver lendo por favor fassa o outro filme ou entre em contato comigo/84697549,obrigado!!!

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