Archive for março \31\UTC 2008

Meus amigos de infância mais recentes – 2

segunda-feira, 31 março, 2008

Encontrei o Odisséia Literária alguns dias atrás, com a sensação de que deveria ter feito isso alguns meses antes, pelo menos. Curiosamente, seu autor, Leandro Oliveira, também é mineiro e formado em Tecnologia em Informática, e acabou se bandeando para a seara dos autores e livros – infelizmente, eu não curso Letras, ao contrário dele.

Vale a pena começar a leitura pela série “O que é qualidade literária?”.

Anúncios

Três grandes entrevistas

sexta-feira, 28 março, 2008

Milton Hatoun por Jonas Lopes e Luciana Araújo, do IG: “Eu não acredito em gênio. Acredito no talento, e talento é trabalho. Às vezes um jovem talentoso consegue escrever um ótimo livro com vinte e poucos anos. São tão raros que acabam sendo a exceção à regra.”

Nélida Piñon por Bruno Garschagen: “Acho que a humanidade não pode prescindir da literatura. A literatura constrói sentimentos que não teria outro lugar onde se encastelar.”

Joel Silveira por Felipe Cruz: “(citação)É mais decente emagrecer do que engordar no poder. Sem falar que dá menos na vista.”

Herdeiros

quinta-feira, 27 março, 2008

Meu pai não me deixou herança; na verdade, o tema me desperta pouco pouco interesse. Jamais imaginei que meus pais ou qualquer outro familiar tivesse a obrigação de me legar terras, imóveis ou papagaios que saibam xingar em alemão. Não é uma questão de grandeza, pois sou tão pequeno quanto qualquer outro: apenas aconteceu de eu não dar importância alguma a questões de herança. Tivesse sido eu beneficiário de alguns bens, de pouco ou vultuoso valor, e minha opinião seria diferente? Provavelmente sim, embora eu tenha a impressão de que algumas pessoas são mais influenciadas pelos valores que adquiriram ao longo da vida do que pelas circunstâncias temporárias – e ainda acredito que eu seja razoavelmente assim. É curioso dizer isso, porque hoje em dia estou indiretamente ligado a uma pequena disputa que está caminhando para um desfecho adequado e desinteressante do ponto de vista dramático.

Sempre me interessaram os herdeiros, não de fortunas, mas os de obras artísticas. E, mesmo estes, apenas como personagens, jamais tentei pensar neles como pessoas comuns. É um clichê recorrente imaginá-los como filhos frustrados de gênios, resignados a usufruir do (geralmente modesto) legado financeiro que os direitos sobre as obras ma/paternas lhes proporcionam. Talvez seja um julgamento cruel, mas talvez também guarde um pouco, ou um bocadinho, de verdade. Não citarei casos por uma razão muito simples: não conheço pessoalmente os envolvidos, apenas o que li em jornais e blog. Mas posso citar o personagem daquele livro do Nicky Hornby, Um Grande Garoto/About a Boy, que, na verdade, eu não li, apenas assisti a adaptação cinematográfica com o Hugh cara-de-chiuaua-barrado-na-porta-da-igreja Grant e a ótima Toni Collette. Grant interpreta Will Freeman, um sujeito egocêntrico e imaturo que vive dos direitos autorais da música de Natal comporta pelo próprio pai. Sua relação com esta herança é ambígua: se por um lado, não se nega a aproveitá-la prolongando indefinidamente a adolescência, por outro, não suporta sequer ouvir a tal canção, que acaba funcionando como um grilo falante a atormentar-lhe a consciência.

De certa forma, meus personagens herdeiros estão neste limite também, ou melhor, eu os imagino assim. Em especial num país em que, para voltar à seara que conheço um pouco mais, a literatura rende tão pouco, com as exceções de praxe, viver da herança de direito autoral de um escritor é, para não ser grosseiro, um exercício de modéstia material. Mesmo que o autor tenha a sorte de entrar no pacotão dos livros escolares, a coisa não rende muito. Há uma mistura de ressentimento, infelicidade e completo despudor em se fazer uso deste ganha-pão minguado e sofrido. Digo mais uma vez: Assim imagino os meus personagens de uma história que um dia escreverei, não é de forma alguma uma opinião, ou um achismo, sobre pessoas reais que eu sequer conheço.

Não sei se isso interessa a alguém além de mim, mas eu me lembrei agora mesmo de que já escrevi um conto com um personagem assim, uns seis ou sete anos atrás. Talvez, se eu o encontrar, acabe publicando aqui no blog mesmo. Ou, o que é mais provável, me perca em longas revisões até chegar a uma versão que me agrade. Neste dia, terei me esquecido de que já havia pensado em publicá-lo na internet e ele voltará a gaveta, digo, pasta do Windows.

O filme mais idiota do mundo

terça-feira, 25 março, 2008

Há longos anos, em uma longa madrugada solitária a frente da televisão, assiti a um filme com o título deste post, na Rede Globo. Sim, eu estou falando sério. A história, surreal ao extremo, mostrava três manés (um humano e dois robôs), presos numa nave ou estação espacial, condenados a assistir filmes inacreditavelmente ruins numa sala de cinema. Na verdade, quando comecei a assistir esta bizarrice, já estavam os três sentados em suas poltronas, vistos de costas, apenas como vultos. Toda a graça residia nos comentários dos três coitados, que tratavam de ridicularizar o filme exibido (uma pérola da ficção científica classe Z cinqüentista chamada This Island Earth) das formas mais adolescentes possíveis. Lembra-se de quando você se sentava no fundão do ônibus da escola e passava a excursão inteira cantando músicas idiotas e fazendo piadas piores ainda? Pois é esse o espírito.

Sempre quis rever esta produção, mesmo sabendo que posso não considerá-la grande coisa hoje em dia. E, apenas para ser contraditório, eu gostaria mesmo é da versão dublada em português! Geralmente, eu não assisto a filmes dublados por várias razões: perde-se todo o trabalho de voz original dos atores, tenho a sensação de estar vendo a um filme de kung-fu vagabundo dublado em inglês por um indiano gago e também por ser um chato incorrigível. E veja que considero a dublagem brasileira geralmente de altíssimo nível; ela merece destaque nos desenhos animados em longa metragem, exceto quanto os geniais distribuidores brazucas chamam atores de novelas e celebridades esquecíveis para a empreitada. A versão dublada de O Filme Mais Idiota do Mundo é uma ode à cretinice explícita, ridícula, juvenil. Em determinado momento da profunda trama de The Island Earth, surge uma atriz que lembra vagamente, muito vagamente mesmo a Uhura de Star Trek, e um dos robôs emenda: “Ih, olha a Tina Turner aí! Widôniiidanóderrihôôôô”. Parece coisa da revista Mad – entenda isso como quiser.

E não é que, mais uma vez graças a internet, descubro que esta pérola é na verdade, o único episódio em longa-metragem de uma série de humor que fez um grande sucesso e é praticamente desconhecida no Brasil: Mystery Science Theater 3000? A série, conhecida com carinho pelos seus fãs como MST3K, seguia o mesmo esquema: um mané, dois robôs e um filme B para ser ridicularizado sem piedade. Não vou reescrever o artigo da Wikipedia aqui, porque ele me pareceu bastante completo e até detalhado demais para quem jamais ouviu falar desta série, como eu.

Também descobri alguns outros brasileiros (o Hiro entre eles) que se lembram deste filme e que ele já foi exibido na TNT, aquele canal de filmes dublados, cortados e com comerciais que toda operadora de TV por assinatura oferece nos seus pacotes básicos. Talvez valha a pena juntar estes seis ou sete sujeitos e enviar um contundente abaixo-assinado para a emissora, implorando desesperada e encarecidamente pela exibição de O Filme Mais Idiota do Mundo.

O risco é os produtores do canal entenderem que estamos nos referindo a Anaconda 2.

Perseguindo Nisus (bifurcação), a salvação genética – Parte II

quinta-feira, 20 março, 2008

O Léo, do Dança Fragmentada, me convidou para participar de uma bifurcação do projeto Memistória. E eu aceitei, claro. Infelizmente, por culpa de uma semana por demais complicada, acabei postando a segunda parte apenas hoje. Sorry.

Para entender esta história toda, minha sugestão é ler o post original dele, aqui. E, claro, leia a primeira parte que ele escreveu, e da qual gostei muito. Tentei seguir a mesma linha, bem B mesmo, história em quadrinhos. Espero ter conseguido, apesar de ter ficado mais longo do que pretendia a princípio.

Perseguindo Nisus, a salvação genética – Parte II

Quase não conseguiu manter o cinismo do sorriso; o chefe estava a um segundo de perceber que estava apenas dissimulando o pavor. Somos os dois homens de batalhas, de lutas, deveríamos já estar acostumados a estas trocas de insultos velados antes do embate, pensou. Resolveu continuar atuando, com um tom de voz quase ofensivo:

– E o que você quer hoje, chefe?

Ele esboça um sorriso que levanta a cicatriz e aperta o olho leitoso, vítreo:

– Nada de mais; só quero te mostrar que toda sua luta foi em vão.

Nisus aperta os dedos, sente as mãos pulsarem. Será que o chefe já sabe que a menina morrera dois anos atrás? Que ela foi vitimada exatamente por ser um experimento genético mal-sucedido? E a isso que ele se refere falando em luta vã?

O chefe vira o rosto para a direita, em direção a uma porta que se abre lentamente:

– Vanessa, diga alô para o tio Nisus.

Uma menina, em tudo idêntica àquela que Nisus protegeu, levou a centros de pesquisa, hospitais, até ao louco que o criara, entra. O gênio criativo e perverso do chefe se revela nos detalhes macabros: a menina veste a mesma roupa daquele dia, da última luta. Até a cor do laço, displicentemente repousado sobre um redemoinho dos longos cachos castanhos, é o mesmo.

– Não, é loucura, você não…

– Quando a minha equipe recuperou meu corpo, a última coisa que ordenei antes de ficar inconsciente foi que revirassem o lugar a procura de cabelos, pele, saliva, qualquer coisa, qualquer resquício orgânico da menina.

Vanessa – Nisus não conseguia se acostumar a este nome – abraça as pernas do chefe e sorri, encarando-o.

– O resto foi fácil. Na verdade, eu deveria ter feito “isso” antes.

Quando o chefe termina de dizer a frase, outra menina sai da porta. E outra. Mais uma. E logo, dezenas delas, como versões minúsculas e femininas de Agentes Smith, todas pateticamente idênticas, estão ao lado do chefe, encarando Nisus, que não consegue reagir a não ser com um grito que se torna um urro:

– Todas elas morrerão! Todas! Você não percebe que o seu experimento fracassou? Você condenou todas elas a uma morte horrível, eu vi, eu sei o que eu estou dizendo!

As meninas se afastam. Uma delas grita, puxam-se de um lado para outro, cochicham assustadas. Mas não fogem.

– Eu também sei. – o chefe sorri – E sabe o que mais eu sei? – aponta para o antigo aprendiz – Que você descobriu como evitar a degeneração gênica delas. Mas era tarde demais para ajudá-la.

O doutor. Não, não há outra forma de o chefe ter descoberto tudo isso, a não ser que ele tenha entrado em contato com o doutor, o homem que tentou salvar a menina, que me ajudou, pensa Nisus. O doutor morreu num acidente de carro, eu fui ao seu velório.

– Bom, eu nem deveria esclarecer a coisa toda, mas você sempre foi meu aluno mais lento, apesar de aplicado e inteligente. Se você quer salvar estas meninas, vai ter que me entregar a cura para a degeneração delas, antes que ela comece. Mas, ah, a ironia, como eu gosto disso… Deixe-me lembrar daquela noite, das suas palavras exatas… Como foi mesmo que você chamou a menina?

Nisus, de cabeça baixa, sente o ódio vibrando em seu pescoço, nos dentes crispados, nas mãos tensas, todo o corpo pronto para atacar, impedido pela consciência e responde, quase num sussurro:

– Porta para o genocídio.

– Isso. Você salva essas meninas aqui e me dá a chave da porta para o genocídio.

Ele olha para elas. Em todas, a inocência que ele já vira definhar em salas de cirurgia, tumores internos capazes de enlouquecer um soldado, UTIs, bombardeio de antibióticos poderosos e inócuos, até o fim silencioso, ela abraçada ao seu ombro, quase irreconhecível.

– A decisão é sua, Nisus.

Adeus ao criador do Rocketeer (Rock o quê, meu filho?)

sexta-feira, 14 março, 2008

Sim, bem-vindos ao meu lado B. Eu li e leio quadrinhos, embora hoje em dia isso seja cada vez mais raro. Curiosamente, quando eu era (era?) moleque não gostava muito das histórias de super-heróis. Lembro-me de ter lido uma reimpressão do Flash Gordon de Alex Raymond e só. Em 1990, um colega de escola me emprestaria o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e, bom, aí eu comecei a ler este tipo de coisa. Mais ou menos nesta época, eu assisti a um filme muito, muito bacana: Rocketeer.

Como quase todo herói que se preza, Cliff Secord (interpretado por Bill Campbell) era meio lerdo. Um belo dia descobre uma roupa especial composta por uma jaqueta bacana, um capacete estiloso e uma mochila-foguete feia de dar dó. Descobre que a jaqueta e sua bunda não flambam quando ele liga o foguete, e ele logo aprende a voar (todo mundo cantando comigo: “Pense numa coisa bem boa/Que num instante você voa/Lembre o Natal a chegar/Pense em nuvens a passar e logo pelo ar/Vai voar, vai voar, vai voar…”), a combater o mal e proteger a namoradinha, interpretada por Jennifer Connely, do vilão canastrudo Timothy Dalton.

O filme era, na verdade, uma adaptação dos quadrinhos clássicos criados pelo desenhista Dave Stevens em 1982, que fazia uma homenagem às histórias pulp dos anos 30 e 40. Hoje em dia isso virou clichê, mas no longínquo segundo ano da penúltima década do milênio passado ainda era novidade. Stevens morreu de complicações ligadas a leucemia, e tinha apenas 53 anos. Era tarado fascinando por pinup girls e sua musa era a óbvia Bettie Page, que inspirava todas as suas ilustrações de mulheres. Mas sua grande criação ainda é Rocketeer: deliciosamente simples e quase ingênuas, suas histórias eram aventuras perfeitas para pirralhos e adultos que não têm vergonha de se divertir com coisas do gênero.

Não consigo mais ler quadrinhos comuns, a não ser histórias fechadas como a japonesa Death Note. É tudo grande demais, confuso demais, quase impossível de ser entendido por quem não passa horas lendo e fazendo conexões mentais amalucadas entre edições publicadas com meses, anos de diferença: virou uma arena habitada exclusivamente por nerds altamente especializados. I´m getting too old for this shit, diriam acertadamente Mel Gibson e Danny Glover. Apesar disso, não acredito em superioridade de uma arte perante a outra; acredito que há uns poucos artistas capazes de explorar a linguagem, as possibilidades e até mesmo as limitações (Jimi Hendrix fazia música com a baixa qualidade dos equipamentos de então) que uma arte oferece e criar grandes obras. E isso vale até para os quadrinhos. Basta ler Avenida Dropsie, Maus, Watchmen ou Persepólis para ver exemplos perfeitos disso.

Mas estas são obras voltadas para um público menor, mais seletivo. No imenso mercado das leituras em quadradinhos, a simplicidade, o senso de diversão e o frescor de personagens como o Rocketeer de Dave Stevens fazem muita falta.

O dia em que Shakespeare escreveu uma mensagem de auto-ajuda

sexta-feira, 14 março, 2008

Isso aconteceu há mais ou menos um ano, quando recebi um arquivo PowerPoint (se Dante estivesse vivo, colocaria os criadores de spam num dos círculos dos quintos dos infernos e os obrigaria a ler mensagens em Ponto do Poder até o final da eternidade) intitulado “Um dia você aprende que…”. A leitura da tal mensagem deixava bastante claro que era mais provável ter sido escrita por um urso manco, vesgo e poliglota da Tasmânia do que por Shakespeare. Aliás, nem é preciso ter lido ou assistido a uma das peças do bardo: bastava lembrar-se dos filmes recentes de Franco Zeffirelli ou Kenneth Branagh para perceber que havia algo de muito errado naquela atribuição de autoria.

Pois bem: graças ao trabalho de Vanessa Lampert, do blog Autor Desconhecido Não Existe (estou me segurando para não fazer uma piada besta envolvendo o Padre Quevedo), descobrimos a verdadeira história deste texto. O poema chama-se After a While, é de autoria de Veronica Shoffstall e foi publicado em 1971 quando ela tinha meros 19 anos no livro de conclusão do ensino médio. Isso mesmo: algum tresloucado resolveu espalhar que um poeminha adolescente de caderno de escola seria obra de Shakespeare. Até hoje, muita gente deve achar que ele era um gênio porque previu não apenas o surgimento do gênero da auto-ajuda, mas também a dominação mundial das caixas de entrada de e-mails por arquivos PowerPoint.

A autoria equivocada de textos existe desde sempre; ainda há discussões acaloradas entre especialistas sobre quais seriam verdadeiramente as obras de Homero, milênios depois de terem sido escritas. A internet só ofereceu meios de disseminação mais rápida do engano. O problema é que, ao lado da autoria equivocada está o enxerto vergonhoso. Não contente em atribuir o texto ao primeiro famoso que lhe vem à cabeça, o sujeito resolve enxertar ali suas próprias intervenções criativas; o resultado final é sempre muito pior do que o original. Felizmente, neste post, o Alessandro Martins diz que vai continuar o ótimo trabalho da Vanessa, descobrindo os verdadeiros autores de textos que circulam pela internet. Metade das crônicas atribuídas a Martha Medeiros e Luís Fernando Veríssimo mudarão de donos.

Só para encerrar, como de praxe, com algo que parece não ter nada a ver com o post: Sempre fiquei intrigado com estes livrinhos “1000…para…antes de morrer”. Mesmo o mais ferrenho adepto da divertida cultura de almanaque não deixará de se sentir um tanto frustrado por não cobrir sequer a metade da lista de lugares imperdíveis indicados pelo “1000 lugares para se visitar antes de bater as botas” ou das obras em “1000 livros para se ler antes de abotoar o paletó”. Talvez eu me sinta assim porque não acredito em reencarnação; um espírita deve comprar um livro destes e pensar: “bom, se não der nesta vida, na próxima eu chego pelo menos até a página cento e cinqüenta”. É uma moda literária que passará logo e nem deixará rastros, mas antes do esquecimento total, pretendo lançar o meu “1000 tosqueiras a se fazer antes de partir desta para pior”, que contava até agora com apenas duas ações:

1. Levar um vegetariano para almoçar no Porcão;

2. Bagunçar o topete de um emo.

Pois toda esta história inspirou a criação da tosqueira número três:

3. Enviar o arquivo PowerPoint “Um dia você aprende que…”, com música de Kenny Gee e suposta autoria de Shakespeare, para o e-mail do Harold Bloom (é, eu sei, piadinha infame só para quem gosta de literatura).

Ademais, o único livro de auto-ajuda que deve valer a pena é este aqui, a julgar pelo título e autores.

Eu quero envelhecer!

terça-feira, 11 março, 2008

E não é que o Reinaldo Azevedo implorou: “Gente, vamos envelhecer“? O curioso é que tenho pensado bastante nisso. Os cínicos dirão, fazendo um muxoxo (eu sempre quis escrever muxoxo): “Dá um tempo, moleque. Nem chegou aos quarenta e já está falando sobre envelhecer? Vai assistir Heroes, sim?” Não deixam de ter alguma razão, mas peço apenas uns poucos parágrafos para defender minhas idéias.

Desde que mais de um amigo, todos da minha faixa etária, escorregando uns anos para cima ou para baixo, disse que não se sente com trinta anos, me surpreendi com a constatação de que meu sentimento é diametralmente oposto. E acrescento: gosto muito disso. Estou razoavelmente satisfeito com minhas escolhas, não tenho vontade de voltar atrás em minha história pessoal, gosto de perceber como o Marcelo de 2008 é diferente, digamos, do de 1998. Não nego o meu envelhecimento, meus cabelos brancos e entradas, nem as ainda leves rugas circundando os olhos (quanto à barriga, devo, não nego; diminuo quando puder, digo, quando começar a academia). De qualquer forma, é sobre o amadurecimento intelectual (e espiritual, de valores, bagagem, etcéteras) que desejo falar, algo que deveria ser encarado como desejável e absolutamente natural. Mas não é isso que vemos por aí.

Quantos pais conhecemos que se portam (ou tentam se comportar) como os próprios filhos adolescentes? Eu sei de alguns e digo com toda a sinceridade que, se fosse filho de uma destas figuras, pediria para ele crescer ou o esconderia de meus amigos e amigas. Algum tempo atrás, vi um homem de seus quarenta anos brigando com a mãe porque precisava de mesada – ele não era portador de necessidades especiais, na verdade, aparentava ser um sujeito articulado e desenvolto, embora metido em camiseta sem manga, bermuda e chinelão de dedo. Claro, ele é um exemplo caricato, exagerado e deprimente de um mundo que se recusa a crescer, mas talvez seja surpreendente saber que esta espécie não é tão nova assim. No livro Morte em Vezena, Thomas Mann narra o quase-encontro do personagem principal com um homem maduro cujas atitudes e vestes emulavam, da forma mais abjeta possível, seus acompanhantes jovens. A versão cinematográfica empresta imagem e maquiagem ao tal senhor, e confesso que ele não parece muito diferente do sujeito que o Tio Rei encontrou na fila do cinema, guardadas as óbvias diferenças de época.

Quero dizer então que devemos todos apagar nossos MP3s da Legião Urbana, queimar bonés e camisetas e ler Schopenhauer ao som de Gustav Mahler sentados na poltrona do vovô? Eu jamais disse isso. Quem me conhece beeeem de perto sabe que posso ser um completo e total palhaço às vezes (e quem me conhece ainda mais de perto com certeza acabou de pensar: “só às vezes?”), e com isso quero dizer que crescer não significa se tornar um chato. Mas acredito piamente que não deveríamos negar nem adiar as mudanças naturais que batem a porta da nossa mente, de nosso espírito. Mudanças que só nos fariam bem.

Peço a Deus (é, eu acredito) que eu possa envelhecer com suavidade, sem grandes tropeços, que eu tenha a oportunidade de aproveitar cada época com os instrumentos que ela me provê, e que todo tempo vivido sirva de arcabouço para apreciar o futuro incerto. Que, se eu tiver filhos e netos, jamais lhes diga que “no meu tempo era melhor”, porque os tempos passam, as pessoas e valores mudam e toda comparação se torna anacrônica. Que eu tenha o bom gosto de não torrar-lhes a paciência com histórias das minhas peripécias juvenis sem graça, mas que saiba encantar-lhes a alma com narrativas de deuses, guerras e personagens fictícios ou reais – não peço muito, não preciso ser Edward Bloom. O avô que jamais conheci, pois morreu na infância de minha mãe, era um homem simples e culto, que gostava de falar de planetas e história, e sempre olhava o céu com grandes olhos azuis (ah, se eu tivesse herdado esse gene!) à espera do Halley que o fascinara ainda moleque. Talvez eu seja mais parecido com ele do que penso – lembro-me de que um amigo de um amigo certa vez me perguntou como eu planejava viver a minha aposentadoria. Respondi que queria ter a sorte de me dedicar, única e exclusivamente, às pessoas próximas de mim e a livros e filmes de que gosto. Hoje eu emendaria: mas antes, quero envelhecer no tempo certo.

Ok, ok. Este último parágrafo ficou meio piegas, meio auto-ajuda e um quinto digno de Paulo Coelho. Nem vou mencionar o fato de conter um e outro trecho inspirado por idéias originalmente lidas no blog do Paulo Polzonoff, mas vai ficar assim mesmo. Qualquer coisa, a caixa de comentários está aí embaixo. Sinta-se a vontade.

Capadócia e as mulheres

domingo, 9 março, 2008

É, eu assisti ao primeiro episódio da tal nova série latina da HBO: Capadócia. Suspeito que sua estréia tenha relação com o Dia Internacional da Mulher (apesar de exibido uma semana antes), e também suspeito que, se eu fosse mulher, não teria gostado nem um pouco – claro que, se eu fosse mulher, seria um figura de horror quase indescritível, mais feio, digo, feia do que o Renato Aragão travestido. Voltando ao assunto: na verdade, não gostei mesmo sendo homem, e explico os porquês e tais.

A produção, de ótimo nível técnico, mantém o foco nas personagens femininas; os homens têm pouca importância. O correto, infelizmente, seria dizer que o foco está nos estereótipos. Siga a descrição que faço do primeiro episódio – entre parênteses, vai uma explicação para cada passagem. Há uma prisão feminina em frangalhos, onde uma carcereira mau-caráter (masculinizada e nariguda, a corrupção pequena, mesquinha, que dá suporte à roubalheira de alto nível) e uma tiazona lésbica comandam a venda de drogas. Uma presa belicosa chamada Bambi (a mulher guerreira, batalhadora) acaba envolvida no motim armado pelo empresário (o vilão, claro, empresário em roteiro latino só serve para ser o vilão) que deseja a aprovação do projeto de privatização (ah, desculpe: o vilão mesmo é o capitalismo) das cadeias para poder explorar a força de trabalho das presas (mais-valia radical, companheiros!!!). Quem se opõe a ele é a antropóloga e professora (a politizada, a mulher consciente) que supervisiona as condições humanas das cadeias e seu ex-marido, atual governador. É este governador (o estado refém dos interesses corporativos) que, após o motim, será pressionado para vetar a recusa dos deputados em aprovar a privatização, e dará o pontapé inicial na operação da tal prisão privada do título, Capadócia. Opa, esqueci uma personagem muito importante: a dona de casa de classe média (a burguesia alienada), que mata a melhor amiga e amante de seu marido, também vai sobrar lá na Capadócia – não havia nome pior disponível? Agora, cuidarão da administração da nova cadeia, ao mesmo tempo, a antropóloga e a chefe da força policial de elite (a mulher que se masculiniza para competir com os homens), um Capitão Nascimento de batom.

Dá para levar a sério um roteiro desses? Sim, eu sei que é muito, muito difícil criar um personagem. E digo mais: que, sendo homem, criar uma boa personagem feminina, crível, fascinante, viva, é um pesadelo mil vezes pior para mim. Mas, puxa vida, será que a alternativa a isso são estes clichês detestáveis, esta tentativa tosca de “passar uma mensagem”, usando seres fictícios como amostras, meras marionetes de uma denúncia social ultrapassada e reacionária? Claro que nada impede que os próximos capítulos mostrem um desenvolvimento decente dos personagens, mas eu não pretendo ver para descrer. Prefiro invocar o Macunaíma, mui sabiamente: “Ai, que preguiça!”

Quanto à questão das personagens femininas, o que posso dizer agora é: as mulheres que conheço são muito mais interessantes do que a maioria das suas representações ficcionais. Há exceções, claro, mas não consigo pensar, neste momento, em algo melhor a dizer a não ser esta imensa dificuldade de se criar personagens a altura da realidade. Cito o caso do escritor de ficção científica e nerd profissional Isaac Asimov. Prestes a publicar seu primeiro conto numa revista, com pouco mais de 17 anos e sem experiência alguma com o sexo oposto, o Wolverine russo não teve dúvidas: inspirou-se na admirada professorinha e deu o nome dela à sua criação. Assim nascia Susan Calvin, a psicóloga de robôs quase tão desprovida de emoções quanto os homens de lata que ela ajudava.

Momento Almanaque Abril: Capadócia é uma região seca e rochosa localizada na atual Turquia, famosa por ter sido o lar de uma imensa população cristã que viveu sob as montanhas, onde construiu centenas de quilômetros de túneis e galerias. Sim, Universo Tangente também é cultura.

Escolhas pessoais

sábado, 8 março, 2008

Não consigo me imaginar escolhendo o filme a que vou assistir na porta do cinema. Sempre me pareceu bizarro, especialmente neste nosso tempo de internet, tomar esta decisão baseada no cartaz, talvez no ator ou atriz principal. Todo filme a que assisti no cinema ou foi escolhido após alguma leitura, ou foi indicado por um amigo ou não foi escolhido por mim. Sou um cinéfilo e um leitor chato e preguiçoso; tenho uma imensa má vontade de perder duas horas ou alguns dias com algo no qual não me interesso. Na verdade, isso é absolutamente natural: é mais fácil gostarmos de uma obra mediana sobre um assunto que nos interessa do que de uma obra-prima que trate de algo que nos desagrada. É claro que as razões para as nossas escolhas estão naquele conjunto nebuloso de características chamado personalidade, que eu (e, acredito, ninguém) não tenho a menor condição de explicar sem cair numa patética psicologia de botequim. Influência dos pais, do meio, dos genes, carma, alma, reencarnação, cada um tem a sua aposta preferida e nenhuma delas importa para este pequeno texto.

O que já me impressionou um dia (e atualmente pouco me interessa) é que muita gente faça uma troca entre suas preferências pessoais e a moda cultural, ou a lista dos mais vendidos. Hoje concordo com a teoria da identificação de grupo. As poucas pessoas que lêem com alguma regularidade, e agora falo de Brasil, pertencem em sua maioria à classe média. Antes de qualquer coisa, se você espera ler aqui mais um sujeito vociferando contra a burguesia, os profissionais liberais, os microempresários e as pessoas com empregos comuns cuja grande aspiração para 2008 é trocar o carro e o piso do apartamento, melhor procurar outro blog. Não tenho nada contra a classe média, ou dito de melhor maneira, não tenho nada especialmente contra qualquer classe. E é bastante óbvio que todo grupo acaba criando seus códigos, conceitos e valores; não fosse assim, os sociólogos perderiam seus empregos. A classe média brasileira, entre muitas outras coisas, também identifica-se pela(ou com) lista dos livros mais vendidos.

Ler Dan Brown, Irvin Yalom, Asne Seierstad e Khaled Hosseini é garantia de conversa no círculo de amigos, tanto quanto assistir ao Big Brother. Não tenho interesse em nenhum destes livros, e isso não me faz melhor do que ninguém. Antes eu achava que os leitoires médios deveriam ser convertidos a (Deus!) alta literatura, ou que quem começa com J.K.Rowling um dia vai desembocar em Shakespeare, culto e feliz. Parte deste pensamento baseava-se na presunção ridícula de que eu seria este sujeito – não sou mesmo. Mais: digo ainda que boa parte dos escritores brasileiros jovens sofre desta arrogância, ainda que suas obras ainda não tenham chegado a um bom nível de maturidade. E, sim, paradoxalmente eles querem estar nas listas da Veja e da Folha de São Paulo. (*)

Se mal ligo para os autores da moda, é porque prefiro me guiar pela minha cultura mal e porcamente formada, pelas minhas preferências bizarras e opostas, opiniões de bons amigos e leituras anteriores, pelas minhas esquisitices e idiossincrazias. Em resumo: Pelo que tenho de único e individual. Só isso.

(*) Notinha besta no final do post… De qualquer forma, convenhamos: a lista de mais vendidos não é grande coisa em termos numéricos no Brasil. O fato de autores como Orham Pamuk e Ian McEwan aparecerem quando ganham prêmios ou suas obras acabam adaptadas para o cinema deve significar o quê? 200, 500, 1000 exemplares a mais? Provavelmente, bem menos do que isso.