Eu (não) queria ser um especialista

Fui, e talvez ainda seja, um menino-enciclópédia. Por outro lado, a ultra-especialização sempre me fascinou. É preciso uma dose extra de paciência, dedicação e preparo intelectual para lidar com um único tema de forma detalhada e francamente obsessiva. Nem darei aqui um exemplo da minha área de atuação profissional, tecnologia de informação, mas de outra, que namorei quando moleque e adolescente: a biologia.

Qualquer assíduo espectador dos National Geographics e Discovery Channels da vida já viu centenas de cidadãos dedicados ao estudo de uma única espécie. Certa vez, vi um norte-amercano especialista em aranhas caranguejeiras que viaja o mundo à cata de monstrinhos de oito patas para sua coleção e estudo. Quando ele está fora de casa, deixa a espinhosa, ou melhor, peluda tarefa de alimentar as delicadas aranhinhas a cargo de sua abnegada mulher – dava gosto ver a expressão de satisfação estampada em seu rosto. O cientista estava em busca da caranguejeira-azul-venezuelana, cujo nome parece-se com a minha constante brincadeira com o ciclo reprodutivo do fictício caramujo-abóbora-de-Papua-Nova-Guiné. Talvez por isso eu tenha desistido de biologia; se eu fosse a campo, o que me interessava muito, teria de me especializar. Se eu decidisse continuar amigo das enciclopédias sobre animais, a única saída seria a sala de aula – opção que nunca me apeteceu, embora eu me sinta relativamente à vontade em apresentações e nos poucas cursinhos que já ministrei.

Sei que esta é uma afirmação algo tola, mas a boa especialização, ou o bom especialista, sempre me pareceu estar equilibrado entre dois extremos. Ou uma paixão pelo objeto de estudo tão poderosa que acaba por cegar o seu portador a qualquer outro objetivo, tomando-lhe a energia e tempo e devolvendo-lhe satisfação pessoal. Ou a rotina segura, ensaiada, repetitiva como um funcionário público batendo carimbo numa repartição dos anos 50. Mais de uma vez tive a nítida sensação de que muitos especialistas em algum autor ou obra literária (especialmente aqueles que enxergam no texto algo que não está lá, como a repressão sexual de Bentinho …) acabam por se encaixar nesta segunda categoria. Mas não foi a análise minuciosa(*), alentada, supostamente científica que os conduziu a este estado: foram eles próprios. A especialização pode ser o condutor perfeito para mentes brilhantes ou a prisão confortável dos medianos.

Mesmo assim, não consigo ser um ultra-especialista – ainda que seja especializado, em graus diferentes, na minha profisão. Leio revistas e livros diversos, canais demais, filmes demais, de gêneros e assuntos incrivelmente diversos, sempre estou interessado em alguma coisa. Gosto de um prazer que, para o brasileiro, parece uma heresia bizarra e contraditória (estou sendo gentil, o termo mais comum para descrever isso seria “é coisa de veadinho”): o prazer intelectual. Sim, páginas e páginas de leituras que me interessam (inclusive as mais áridas) me dão uma profunda e agradável sensação de contentamento intelectual. Não é alegria, esta palavrinha banalizada sobre a qual desejo escrever assim que puder, mas uma forma silenciosa de realização pessoal. Agrada-me não ser um grande especialista ou, dito de outra forma, não ser grande coisa como especialista. Jamais serei capaz de discutir física quântica em nível matemático com um Prêmio Nobel, mas se ele tiver a gentileza de se portar como um divulgador da ciência, ganhará um interlocutor curioso e até um bem informado leitor de Stephen Hawkings e Carl Sagan.

Apenas para me contradizer: atualmente, estou imerso em pesquisa para escrever um romance. Não tenho tanta pressa, ele será escrito assim que eu conseguir organizar algumas idéias. Curiosamente, a pesquisa é focada num período específico da história, num lugar também específico do planeta. Talvez daqui a alguns anos, eu escreva um texto para comentar justamente este post. Veremos.

(*) É, foi mal. Não consegui evitar a citação de Ezra Pound em seu ABC of Reading : “O método adequado para o estudo da poesia e da literatura é o método dos biologistas contemporâneos, a saber, exame cuidadoso e direto da matéria e contínua comparação de uma ‘lâmina’ ou espécime com outra.”

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