Guerreiros de guerra nenhuma

Vida de cronista de hoje em dia não deve ser fácil. Refiro-me, claro, ao cronista profissional, o jornalista que escreve todos os dias ou semanas para algum órgão da imprensa – digital ou não. Acaba estabelecendo-se uma certa cobrança de seus leitores para que ele aborde assuntos, digamos, quentes. Se um escritor pode renegar obras antigas, geralmente sem maiores conseqüências, o cronista está, de certa forma, preso aos interesses de seus fãs – é justamente o talento demonstrado nestas circunstâncias adversas que fará um Rubem Braga se descatar. Mas, voltando ao início do parágrafo, tempos bicudos estes nossos para um cronista – escolher entre o Créu e o Big Brother?

Pois bem, a Marta Medeiros escolheu o Big Brother, se for dela mesmo a crônica que uma amiga me enviou por e-mail. Confesso que não sou leitor dela (da Marta, porque desta amiga já li até o discurso de formatura), e discordo de sua sugestão para aqueles que ligam para votar no BBB: ligar, ajudar alguém que realmente luta pelo próximo. Não que seja uma má idéia, pelo contrário. Se todo mundo que entope as linhas telefônicas da TV fizesse isso, seria ótimo, de verdade. O fato é que eu não acredito mais em solidariedade sugerida. Como disse a professora de um amigo, ninguém “conscientiza” ninguém. Mil vezes mais valiosa é a solidariedade natural, sincera, privada, que nasce do desejo de ajudar, seja o familiar, o desconhecido ou uma multidão. Esta grandeza não precisa de textos, professores ou discursos políticos – quem a possui acaba exercendo-a, de alguma forma. Tenho desprezo completo pela solidariedade publicitária (“vejam como sou bacana, gente; eu ajudo os pobrezinhos deste mundo”) e pela estatal, cujo objetivo não-declarado é sempre eleitoreiro, ou seja, o acúmulo de mais e mais poder.

De qualquer forma, a crônica da Marta acerta em cheio num assunto que eu também queria abordar. Segundo seu texto, no tal Big Brother, os participantes se intitulam “guerreiros”. E ela se questiona: guerreiros de quê, meu Deus? O que fazem aqueles sujeitos para que possam ostentar esta marca? Nada. Rigorosamente nada. São apenas pessoas desinteressantes que se acham especiais por estar confinados num programa de TV e cumprir umas tarefas que visam a determinar qual delas merece ser expulsa da clausura. Mas não são apenas estes que se dizem guerreiros. Todo brasileiro se arroga o direito de ser visto como um guerreiro, pelas mais mesquinhas razões, na seguinte ordem sem critério algum: 1) Por viver neste país bizarro; 2) Por estar vivo; e, 3) Porque pega mulher (ou homem, no caso das mulheres). Esta mania de grandeza do brasileiro é irritante, quase ridícula, além de infectada por auto-engano – e como se não bastasse, ainda gera músicas como esta. Já disse antes, e repito: nossas vidas são, ao mesmo tempo, incrivelmente desinteressantes e maravilhosamente únicas. Mas isso não nos alça a condição de guerreiros por natureza, simplesmente porque as supostas guerras que lutamos não são assim tão diferentes das de boa parte da humanidade.

Há, também, certo grau de arrogância neste rótulo de guerreiro a qualquer zé ruela. Como se todos nós pudéssemos nos comparar, digamos, a mãe miserável que luta sozinha para dar uma vida melhor aos seis filhos ou ao soldado solitário metido num conflito que ele não entende e sem saber se voltará para casa, para sua família. Lembro-me de uma crônica cuja autoria foge-me (Paulo Mendes Campos?), em que o autor confronta sua existência a de um cientista polonês, solitário num laboratório perdido no meio do gelo, tentando descobrir a cura para o câncer. Claro que não estou sendo pessimista, não disse que a vida não vale a pena; pelo contrário. Mas não custa nada tentar não se atribuir títulos aos quais não se faz juz. De todo modo, guerreiros de verdade não saem por aí expondo as cicatrizes; eles as carregam, simplesmente, em amadurecido silêncio.

Como ultimamente não tenho resistido à tentação de citar, encerro com Fernando Pessoa, e os primeiros e conhecidíssimos versos de Tabacaria:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

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Uma resposta to “Guerreiros de guerra nenhuma”

  1. Guerreiros? « Universo Tangente Says:

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