Escolhas pessoais

Não consigo me imaginar escolhendo o filme a que vou assistir na porta do cinema. Sempre me pareceu bizarro, especialmente neste nosso tempo de internet, tomar esta decisão baseada no cartaz, talvez no ator ou atriz principal. Todo filme a que assisti no cinema ou foi escolhido após alguma leitura, ou foi indicado por um amigo ou não foi escolhido por mim. Sou um cinéfilo e um leitor chato e preguiçoso; tenho uma imensa má vontade de perder duas horas ou alguns dias com algo no qual não me interesso. Na verdade, isso é absolutamente natural: é mais fácil gostarmos de uma obra mediana sobre um assunto que nos interessa do que de uma obra-prima que trate de algo que nos desagrada. É claro que as razões para as nossas escolhas estão naquele conjunto nebuloso de características chamado personalidade, que eu (e, acredito, ninguém) não tenho a menor condição de explicar sem cair numa patética psicologia de botequim. Influência dos pais, do meio, dos genes, carma, alma, reencarnação, cada um tem a sua aposta preferida e nenhuma delas importa para este pequeno texto.

O que já me impressionou um dia (e atualmente pouco me interessa) é que muita gente faça uma troca entre suas preferências pessoais e a moda cultural, ou a lista dos mais vendidos. Hoje concordo com a teoria da identificação de grupo. As poucas pessoas que lêem com alguma regularidade, e agora falo de Brasil, pertencem em sua maioria à classe média. Antes de qualquer coisa, se você espera ler aqui mais um sujeito vociferando contra a burguesia, os profissionais liberais, os microempresários e as pessoas com empregos comuns cuja grande aspiração para 2008 é trocar o carro e o piso do apartamento, melhor procurar outro blog. Não tenho nada contra a classe média, ou dito de melhor maneira, não tenho nada especialmente contra qualquer classe. E é bastante óbvio que todo grupo acaba criando seus códigos, conceitos e valores; não fosse assim, os sociólogos perderiam seus empregos. A classe média brasileira, entre muitas outras coisas, também identifica-se pela(ou com) lista dos livros mais vendidos.

Ler Dan Brown, Irvin Yalom, Asne Seierstad e Khaled Hosseini é garantia de conversa no círculo de amigos, tanto quanto assistir ao Big Brother. Não tenho interesse em nenhum destes livros, e isso não me faz melhor do que ninguém. Antes eu achava que os leitoires médios deveriam ser convertidos a (Deus!) alta literatura, ou que quem começa com J.K.Rowling um dia vai desembocar em Shakespeare, culto e feliz. Parte deste pensamento baseava-se na presunção ridícula de que eu seria este sujeito – não sou mesmo. Mais: digo ainda que boa parte dos escritores brasileiros jovens sofre desta arrogância, ainda que suas obras ainda não tenham chegado a um bom nível de maturidade. E, sim, paradoxalmente eles querem estar nas listas da Veja e da Folha de São Paulo. (*)

Se mal ligo para os autores da moda, é porque prefiro me guiar pela minha cultura mal e porcamente formada, pelas minhas preferências bizarras e opostas, opiniões de bons amigos e leituras anteriores, pelas minhas esquisitices e idiossincrazias. Em resumo: Pelo que tenho de único e individual. Só isso.

(*) Notinha besta no final do post… De qualquer forma, convenhamos: a lista de mais vendidos não é grande coisa em termos numéricos no Brasil. O fato de autores como Orham Pamuk e Ian McEwan aparecerem quando ganham prêmios ou suas obras acabam adaptadas para o cinema deve significar o quê? 200, 500, 1000 exemplares a mais? Provavelmente, bem menos do que isso.

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2 Respostas to “Escolhas pessoais”

  1. marie tourvel Says:

    Acho que falta boas novas, Marcelo, querido. Eu, por exemplo estou só relendo. Até em blogues dos quais sou fã, estou relendo posts anteriores. Já pensou trocar um Montaigne, por exemplo, por Dan Brown? Deus me livre.
    Estou gostando muito do seu blogue, viu, moço? Hoje mesmo li o começo dos versos de um Pessoa e postei inteiro lá n´o Letras. Sabe como é, o que um homenzinho escreve em 4 frases, a mulherzinha escreve em mil. Beijos

  2. Marcelo Lopes Says:

    Puxa, obrigado!
    Eu tb mais releio do que leio, se é que deu para entender. Mas acho que isso é normal, não? Há, numericamente, mais coisa boa já publicada do que sendo lançada e escrita hoje em dia – mesmo com a internet.
    Já o Letras, eu estou lendo um bocadinho a cada dia, e gostando muito!
    Abs

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