Capadócia e as mulheres

É, eu assisti ao primeiro episódio da tal nova série latina da HBO: Capadócia. Suspeito que sua estréia tenha relação com o Dia Internacional da Mulher (apesar de exibido uma semana antes), e também suspeito que, se eu fosse mulher, não teria gostado nem um pouco – claro que, se eu fosse mulher, seria um figura de horror quase indescritível, mais feio, digo, feia do que o Renato Aragão travestido. Voltando ao assunto: na verdade, não gostei mesmo sendo homem, e explico os porquês e tais.

A produção, de ótimo nível técnico, mantém o foco nas personagens femininas; os homens têm pouca importância. O correto, infelizmente, seria dizer que o foco está nos estereótipos. Siga a descrição que faço do primeiro episódio – entre parênteses, vai uma explicação para cada passagem. Há uma prisão feminina em frangalhos, onde uma carcereira mau-caráter (masculinizada e nariguda, a corrupção pequena, mesquinha, que dá suporte à roubalheira de alto nível) e uma tiazona lésbica comandam a venda de drogas. Uma presa belicosa chamada Bambi (a mulher guerreira, batalhadora) acaba envolvida no motim armado pelo empresário (o vilão, claro, empresário em roteiro latino só serve para ser o vilão) que deseja a aprovação do projeto de privatização (ah, desculpe: o vilão mesmo é o capitalismo) das cadeias para poder explorar a força de trabalho das presas (mais-valia radical, companheiros!!!). Quem se opõe a ele é a antropóloga e professora (a politizada, a mulher consciente) que supervisiona as condições humanas das cadeias e seu ex-marido, atual governador. É este governador (o estado refém dos interesses corporativos) que, após o motim, será pressionado para vetar a recusa dos deputados em aprovar a privatização, e dará o pontapé inicial na operação da tal prisão privada do título, Capadócia. Opa, esqueci uma personagem muito importante: a dona de casa de classe média (a burguesia alienada), que mata a melhor amiga e amante de seu marido, também vai sobrar lá na Capadócia – não havia nome pior disponível? Agora, cuidarão da administração da nova cadeia, ao mesmo tempo, a antropóloga e a chefe da força policial de elite (a mulher que se masculiniza para competir com os homens), um Capitão Nascimento de batom.

Dá para levar a sério um roteiro desses? Sim, eu sei que é muito, muito difícil criar um personagem. E digo mais: que, sendo homem, criar uma boa personagem feminina, crível, fascinante, viva, é um pesadelo mil vezes pior para mim. Mas, puxa vida, será que a alternativa a isso são estes clichês detestáveis, esta tentativa tosca de “passar uma mensagem”, usando seres fictícios como amostras, meras marionetes de uma denúncia social ultrapassada e reacionária? Claro que nada impede que os próximos capítulos mostrem um desenvolvimento decente dos personagens, mas eu não pretendo ver para descrer. Prefiro invocar o Macunaíma, mui sabiamente: “Ai, que preguiça!”

Quanto à questão das personagens femininas, o que posso dizer agora é: as mulheres que conheço são muito mais interessantes do que a maioria das suas representações ficcionais. Há exceções, claro, mas não consigo pensar, neste momento, em algo melhor a dizer a não ser esta imensa dificuldade de se criar personagens a altura da realidade. Cito o caso do escritor de ficção científica e nerd profissional Isaac Asimov. Prestes a publicar seu primeiro conto numa revista, com pouco mais de 17 anos e sem experiência alguma com o sexo oposto, o Wolverine russo não teve dúvidas: inspirou-se na admirada professorinha e deu o nome dela à sua criação. Assim nascia Susan Calvin, a psicóloga de robôs quase tão desprovida de emoções quanto os homens de lata que ela ajudava.

Momento Almanaque Abril: Capadócia é uma região seca e rochosa localizada na atual Turquia, famosa por ter sido o lar de uma imensa população cristã que viveu sob as montanhas, onde construiu centenas de quilômetros de túneis e galerias. Sim, Universo Tangente também é cultura.

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9 Respostas to “Capadócia e as mulheres”

  1. marie tourvel Says:

    Universo Tangente é cultura de primeira, meu amigo. Eu até penso em começar a assistir alguma coisa na TV, mas não me animo, não, Marcelo. Me dá uma preguiiiiiiiça. É tudo tão previsível. Obrigada por ler o Letras. Leia aos poucos mesmo. Já viu que sou prolixa pra caramba -sou bem mulherzinha, viu?. Beijos

  2. Marcelo Lopes Says:

    Eu ainda assisto a TV, mas bem menos do que, sei lá, cinco anos atrás. Acho que, às vezes, para se divertir e relaxar um pouco, a gente aceita uma certa dose de auto-engano, não é mesmo? Releva uns dois ou três clichês televisivos e deita no sofá com a ferrenha intenção de não pensar em nada muito sério por alguns minutos… Ainda vou escrever algo sobre as bobagens a que assisto.
    E gosto do seu estilo prolixazinha, viu?
    Abraços!

  3. Mércia Says:

    Você sabia que São Jorge nasceu na Capadócia? Mercinha também é cultura!
    http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Jorge
    Abraços.

  4. Natasha Says:

    Não entendo a obssessão de certas pessoas em enxergar um significado ideológico nas coisas mais corriqueiras. Capadócia é uma série sobre uma prisão feminina. Ponto. Sua prentensão é contar uma boa história, que envolva o telespectador. Querer enxergar uma crítica ao capitalismo ou uma crítica ou exaltação de qualquer coisa em uma obra ficcional é pretender ter o dom da vidência, e saber a intenção de seu roteirista (que, no caso de uma série são muitos, muitas vezes variando a cada capítulo)

    E como assim a diretora ”se masculiniza”? Uma mulher como ela, com roupas femininas, aparência feminina, é ”masculinizada” por ter o pulso firme exigido para chefiar uma prisão?? O que é uma mulher ”feminina”? A passiva, sem firmeza, que não levanta a voz, que não briga por nada? A mulher que só pede por favor? Vai ver que ”masculinizar-se” é ter qualquer traço de firmeza.

    Eu não sei até que ponto as personagens são críveis. Ninguém que não tenha passado uma temporada em uma cadeia ou trabalhado em uma vai ter noção disso. São personagens bem construídas, cada uma com uma personalidade bem definida: temos a sociopata Bambi, com sua posição de poder frente ás outras presas, temos uma senhora que chega a exercer um papel maternal, temos a mãe que matou em um acidente, chocada e deprimida com sua nova situação, a psicológa mais ideallista, a diretora mais pragmática…o que há de não-crível nessas personagens??

    E pode ser um choque para o autor do blog, mas o que uma personagem feminina faz em uma série de FICÇÃO não tem a menor relação com a vida real. Se sentir ofendida pq uma mulher foi ”mal representada” em um seriado de televisão, como se um papel interpretado por uma atriz representasse todas as mulheres é confundir seriamente realidade com ficção.

    Mas, novamente: faz sentido discutir ”mensagens” que o roteirista nunca disse que quis passar e, até onde eu sei, não foram enxergadas por mais ninguém?? Chega a ser meio embaraçoso discordar da sua própria interpretação pessoal e subjetiva de algo, e criticar o autor pelo que ele NÃO disse, e até onde tudo indica, não teve a intenção de dizer. Dá no mesmo que discutir a orientação sexual do Bob Esponja.

    • Ellen Says:

      Olha sr.Marcelo Lopes ..Até faria questão de perder o meu domingo elaborando uma critica construtiva sobre o que vc escreveu em relação a Capadocia, mas vou resumir fazendo uma referência: IDEM Natasha!

  5. Marcelo Lopes Says:

    Natasha,

    Eu vi apenas o primeiro episódio e é a ele que me refiro. Enxerguei alguns personagens como clichês, o que não é necessariamente ruim, claro, mas o conjunto de todos eles e suas ações me levaram a esta conclusão que acaba sendo mesmo uma, por mais que eu não goste do termo, leitura ideológica. E, a confiar no seu relato, os personagens são bem desenvolvidos sim, como eu já havia escrito que poderiam ser. Que bom.
    Veja que não estou discutindo os valores dos personagens, eu apenas interpretei as personagens da série como reflexos de valores que são representados com freqüência em obras de ficção modernas – de forma talentosa ou rasteira, explícita ou mais elaborada.
    E, sim, talvez eu tenha exagerado e talvez eu esteja redondamente enganado. E também posso ter sido enganado pela propaganda insistente da empresa produtora da série, que repete, a cada intervalo, que o tal presídio é um reflexo da sociedade que o cerca.
    Enfim, é isso.
    Quanto a orientação sexual do Bob Esponja, isso é problema dele e do Patrick, ora (e é claro que estou brincando, ok?).

    Abs,
    Marcelo.

  6. car Says:

    já ouviu a trilha sonora de capadocia?
    quem sabe vc gosta…..

  7. NANAH Says:

    PUTZ TENHO APENA 15 ANINHOS MAIS AMUL CAPADOCIA ACHO MT PHOODAH
    POIS FALA SOBRE TEMAS POLEMICO
    E QUE TUDO DEPENDE DE SUAS ESCOLHAS
    COMO ACONTECEU COM A SITUAÇÃO DA TEREZA E DA LORENA
    ENFIM AMULL ESSA SERIE
    E RSRSRSRSRSRSRSRSRSRSR NAUM SO NERD HEM
    ENTÃO E MT BOA MSM VALE APENA ACOMPANHAR

    lol

    byby nanah

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